Ricardo Araújo/Estadão
Ricardo Araújo/Estadão

Vivos ou mortos? O mistério do desaparecimento de presos de Alcaçuz

Onze detentos sumiram após rebelião na penitenciária na Grande Natal; Não há n registro da entrada deles em outras unidades prisionais, hospitais públicos ou privados, nem na lista oficial dos presos foragidos ou mortos no motim de janeiro

Ricardo Araújo, Especial para o Estado

17 de junho de 2017 | 03h00

NATAL - Uma simples chamada telefônica causa apreensão à empresária Camila Lima. O som da campainha quando ecoa no apartamento faz o coração do aposentado Francisco Luiz da Silva, de 64 anos, palpitar mais forte e se encher de esperança. Eles anseiam por respostas. A angústia, porém, consome os dias de ambos de maneira mais intensa há quase cinco meses. O filho dele, Guilherme Ely Figueiredo da Silva, de 36 anos, e o irmão da empresária, Caio Henrique Pereira de Lima, 29 anos, cumpriam pena por tráfico de drogas no Pavilhão 4 da Penitenciária Estadual de Alcaçuz, na região metropolitana de Natal. Eles, e outros nove detentos, sumiram após a rebelião em janeiro passado. Não há nenhum tipo de registro da entrada deles em outras unidades prisionais, hospitais públicos ou privados, nem na lista oficial dos presos foragidos ou mortos na rebelião.

Coube aos familiares iniciar uma incansável e frustrante procura. "É uma busca desesperadora. Comparo o caso do meu filho com o de Eliza Samúdio, com o de Ulysses Guimarães, cujos corpos jamais apareceram. Ninguém sabe onde eles estão. Não tenho mais a quem recorrer. Estou esperando o Juízo Final.", disse o aposentado. A última vez que falou com o filho foi dois dias antes da rebelião. “Ele me ligou de um celular de outro presos e disse que estava tudo bem, que tinha recebido a feira. Foi a última vez que ouvi sua voz”, relembrou.

O paradeiro de Guilherme Ely é uma incógnita reconhecida pela Secretaria de Estado da Justiça e da Cidadania (Sejuc), responsável pela administração das prisões potiguares. “Nós não sabemos onde ele está”, limitou-se a dizer o titular da pasta, Luiz Mauro Albuquerque Araújo. Informações repassadas por outros detentos ao Estado, é que os dois homens foram mortos e estão enterrados num túnel abaixo do Pavilhão 4 de Alcaçuz. O Estado, porém, nega a informação. 

Desde o dia 14 de janeiro passado, quando a pior rebelião da história de Alcaçuz estourou, Francisco Luiz da Silva não deixou de pensar com mais intensidade no filho. Eles já não dividiam o mesmo teto desde abril de 2016, quando Guilherme Ely foi preso pela última vez.

“Minha mulher está em estado terminal de câncer e eu passava dia e noite com ela no hospital. Certo dia, vim em casa e quando fui atender à campainha, uns dez policiais entraram procurando por ele e o levaram. Guilherme consumia drogas, mas não era traficante. Desde então, vivemos essa angústia. Mas tudo piorou depois que ele sumiu de Alcaçuz. A angústia da incerteza do paradeiro dele me mata todos os dias, aos poucos. O Estado tem que dizer onde está meu filho. Ele não evaporou e o Estado era quem tinha responsabilidade de mantê-lo seguro e vivo", declarou o idoso olhando para uma foto do filho.

Guilherme Ely foi preso pela primeira vez há dez anos, também por tráfico. Conhecia a realidade das unidades prisionais do estado pois foi albergado nas maiores delas. Francisco Luiz da Silva lamenta o caminho escolhido pelo filho e cita que os outros dois são trabalhadores e com “vida encaminhada”. “Ele (Guilherme) sempre estudou em escola particular, era um atleta. Era um filho amoroso, carinho e simpático. Sempre me abraçava e beijava. Tenho um neto dele com nove anos. Eu não desconfiava de nada”, disse.

“O quarto dele está arrumado, esperando ele voltar. Fica um vazio, sabe? Me sinto apunhalado pelo incerteza. Não sei se um dia sentirei ele junto a mim de novo".

O mesmo sentimento é compartilhado pela empresária Camila Lima, cujo irmão cumpria pena por tráfico de drogas e roubo no Pavilhão 4 de Alcaçuz. Apesar do nome dele aparecer na lista do Governo do Estado como recolhido à Penitenciária Estadual de Alcaçuz, ela garante que ele não está lá. “Meu pai passou a sexta-feira (passada) inteira na porta da penitenciária e não foi recebido pelo diretor. Nós não temos notícias dele há quatro meses. È muito tempo para alguém não dar notícias”, declarou.

O próprio paradeiro de Caio Henrique Pereira de Lima foi questionado pelo juiz da Comarca de Nísia Floresta, na qual tramitam os processos criminais dos presos que cumprem sentença em Alcaçuz. “Aonde ele está? Ele não está em Alcaçuz. Ele não respondeu à chamada. É uma incógnita. Eu quero uma resposta, uma explicação. Eu quero ter o direito de saber onde ele foi parar”, declarou a irmão do detento.   

No dia 31 de maio passado, após intenso embate entre advogados, familiares do preso desaparecido e defensores dos Direitos Humanos, a direção da Penitenciária Estadual de Alcaçuz reconheceu, também, o sumiço de Caio Henrique, conhecido como Paulistinha entre os colegas de cela. O diretor da unidade, Ivo Freire, assinou um documento no qual consta a informação que, "após as inúmeras contagens de apenados realizadas nos setores existentes nesse presídio, não fora constatada a presença do referido interno".

O diretor da unidade prisional cita, no documento, que resta "supor que o apenado em referência ou encontra-se desaparecido, conseguindo fugir durante a rebelião, ou é um dos possíveis mortos". Entretanto, Caio Henrique não figura na lista oficial do Estado como foragido ou morto, mas sim como detido em Alcaçuz. No IML potiguar, três corpos esperam, desde a rebelião de 14 de janeiro passado, por identificação através do exame de DNA, que não há data para ser realizado pois não existe laboratório público de DNA e todas as amostras são levadas duas vezes ao ano para a Bahia, onde o Governo do Estado tem convênio para tais procedimentos.

Fugas. Somente nos primeiros cinco meses deste ano, pelo menos 169 presos fugiram das unidades prisionais do Rio Grande do Norte. A maior debandada ocorreu no dia 25 de maio passado, quando 88 homens escaparam, através de um túnel de aproximadamente 40 metros de extensão, da Penitenciária Estadual de Parnamirim (PEP), na região metropolitana de Natal. Na primeira contagem, o Governo do Estado informou que 91 tinham fugido. Em seguida, corrigiu o número para 88. Destes, treze foram recapturados até hoje. Todos os foragidos pertencem à facção criminosa Sindicato do Crime, rival do Primeiro Comando da Capital (PCC). Também nos primeiros cinco meses deste ano, o Rio Grande do Norte bateu outro recorde negativo: o número de homicídios já vitimou mais de mil pessoas. 

 

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