'Vixe, e isso vai dar certo?!'

ESPERANÇA

Andrea Jubé Vianna, O Estado de S.Paulo

07 Novembro 2010 | 00h00

Socorro da Conceição, dona das mãos calejadas que transformam pano em poesia, não sabe ler nem escrever e só tem uma vaga ideia de quem seja Dilma Rousseff. "É uma que aparece na televisão?", hesita, com medo de errar a resposta. A memória puxa mais para Marina Silva (PV), para quem confeccionou 10 mil bonequinhas com o rosto dela - as "Marininhas" -, depois de olhar fotografias e vê-la na televisão. Foi o talento de Socorro que colocou Esperança no mapa do Brasil e do mundo.

Depois de uma empresária descobrir as bonecas de vestido de chita que ela fazia para brincar - seu passatempo após roçar a terra e alimentar os animais -, encomendou algumas dezenas para vender em Belém.

Para aumentar a produção, Socorro virou professora sem nunca ter ido à escola, a fim de transmitir uma arte cuja dimensão desconhecia.

Descaso. A empreitada levou à criação da Associação da Casa da Boneca de Esperança em 2001, que hoje participa de exposições em todo o País e recebe até encomendas da Rede Globo (para o programa da Xuxa). As bonecas já foram exportadas para EUA, Itália, Alemanha e Austrália. Apesar do sucesso das bonecas, o grupo sofre com o descaso do poder público - a prefeitura não paga há dois anos os cinco salários mínimos anuais garantidos por lei municipal.

Dona Socorro vive uma existência franciscana: não tem nem água nem esgoto e senta-se no chão para criar as bonecas. Para costurar as roupas delas, tem uma máquina Singer dos anos 80.

Ao saber que Dilma foi eleita presidente, e que pela primeira vez o Brasil será governado por uma mulher, ela reagiu com alegria. Juntou as mãos num gesto de oração e olhou para o alto, como se conversasse com Deus: "Vixe, e isso vai dar certo?"

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