Voar muito pode ser saída para o medo de voar

Antes do acidente com o vôo 3054, um professor da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (USP) levou uma planilha Excel ao consultório do psiquiatra Márcio Bernik, na capital. Queria provar que seu medo tinha razão de ser. Havia ali o índice de acidentes por tipo de avião. A história serve para ilustrar o que uma tragédia como a da TAM pode fazer num grupo considerável de pessoas que sofre do distúrbio chamado medo de voar.Há mais de dez tipos diferentes, segundo Bernik, que também coordena o Ambulatório de Ansiedade do Hospital das Clínicas. Autor de Pânicos, Fobias e Obsessões (Edusp), ele destaca pelo menos quatro tipos importantes. Como a obsessão por segurança de vôo e notícias de acidentes. Para quem sofre desse mal, não adianta dizer o quanto voar é seguro. "Distúrbios fóbicos são emocionais. Não têm muito a ver com inteligência ou lógica."A terapia cognitiva é uma das formas de combater a fobia. Fora do País, é comum cursos que incluem palestras com engenheiros e pilotos. No Instituto Condor, a psicóloga Rosana Dório monta cursos de três dias, que incluem um vôo de ponte aérea e palestra com pilotos. As 24 horas de aula custam R$ 1.600. Cerca de 800 pessoas foram atendidas em dez anos de instituto."Depois dessa tragédia, sempre tem quem ligue para perguntar: ?Mas será verdade mesmo tudo aquilo que você disse no curso??", conta Rosana. "Um acidente no meio da cidade tem impacto muito forte nessas pessoas. Você sabe que a cidade está violenta, mas se dá conta disso só quando a casa da vizinha foi assaltada."Rosana foi comissária, inspetora de segurança de vôo e investigadora de acidentes aéreos. Bernik, além de psiquiatra, é piloto. Segundo os dois, o remédio para qualquer fobia é aquilo que a dispara. É a exposição ao que detona a fobia que a cura. Quanto mais andar de elevador, maiores as chances de dissipar o medo. "E esse é o problema do medo de voar: não é possível andar todo dia de avião", diz Bernik.O medo de voar é classificado uma fobia específica, como aversão a animais ou sangue. A pesquisa quantitativa mais séria, realizada nos Estados Unidos em 1969, revelou que atingia de maneira intensa 10% dos entrevistados. Nos cursos de Rosana Dório, apenas 12% têm de ser encaminhados para tratamento mais profundo. Os 88% restantes conseguem superar o medo. Com Bernik, as terapias cognitivas surtem efeito nos fóbicos que se alimentam de notícias trágicas. Mas há outros grupos, como os agorafóbicos - que não suportam a sensação de ficar presos na aeronave - e os que têm fobia de aceleração e desaceleração. "Dependendo da freqüência com que se voa, calmante pode ser a melhor solução", diz Bernik.

Sérgio Duran, O Estadao de S.Paulo

07 de agosto de 2005 | 00h00

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