''''Você acha que se fosse perigoso eu estaria aqui, filha?''''

Enquanto Tânia explicava a situação da família - o segundo marido a deixou naquela tarde e não havia o que comer -, suas duas filhas de 10 e 14 anos e um vizinho de apenas 7 anos davam continuidade à fabricação de traques que ajuda a sustentar a casa. "Você não sabe fazer, tia?", pergunta à reportagem L., de 7 anos, enquanto manuseia com desenvoltura os pequenos pedaços de papel para fazer traque, sentado sobre um sofá já sem o estofamento.Nas ruas do Mutum, bairro da periferia de Santo Antônio de Jesus, são poucos os que aceitam falar sobre o trabalho com fogos. Basta um carro apontar nas vielas para mulheres e crianças correrem com seus tabuleiros para dentro de casa, apavoradas, certas de que estão diante da polícia, do Exército ou do conselho tutelar.Foi na área rural da cidade que a reportagem encontrou Luiz, de 47 anos, que desde os 8 trabalha com fogos. Desconfiado, ele mostra a função atual: esfarelar as substâncias que contêm a pólvora - enxofre, salitre e carvão - em um pilão de madeira. Luiz fica sentado logo acima da pólvora e depois peneira a mistura para que fique bem fina. "Você acha que se fosse perigoso eu estaria aqui, filha?", indaga Luiz, com impaciência. Com orgulho, os trabalhadores exibem em seguida alguns dos artigos que produzem, como o "ouro branco" - canudo para balançar com a mão e que faz um barulho enquanto solta fagulhas douradas e prateadas.Na frente de um outro barracão, dois homens acomodam a pólvora em canudos de papel, com a ajuda de uma haste de metal e um tipo de funil. Estão fabricando a "cobrinha", um artefato pirotécnico pequeno, menor que um palito de fósforo, com um tipo de espoleta na ponta, que "corre" pelo chão e pelo ar depois de aceso. Ali o trabalho é mais perigoso, pois, se houver uma pedrinha que roce no metal, tudo pode ir para os ares.Na zona rural de Muniz Ferreira, município vizinho de Santo Antônio de Jesus, moradores apontam casebres onde se "trabalha com pólvora", ou "com a caixaria", em referência aos moradores que fazem os tubos e cones de papel que irão receber os explosivos. Ao chegar aos locais, apesar de o intenso cheiro de enxofre, utilizado na fabricação de pólvora, denunciar a fabricação de explosivos, moradores negam trabalhar com a substância.No fim de uma picada de terra, avista-se uma palhoça, onde se fabrica o "traque bebê", espécie de palito de pólvora, também com espoleta na ponta. Quatro trabalhadores, todos aparentando ser adultos, correram mato adentro ao ver a reportagem. "Eles ficaram com medo", diz a única mulher que restou na "fábrica".

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