Evelson de Freitas/AE
Evelson de Freitas/AE

'Você já ouviu falar em foxhole?'

Depoimento: Jairo Junqueira, coronel

26 Agosto 2012 | 12h38

Fui do 11.º Regimento de Infantaria, do companhia de petrechos pesados do 2º Batalhão. Nós utilizávamos os morteiros de 81 mm. Meu nome é Jairo Junqueira da Silva e eu vou completar 90 anos. Nasci em Olímpia, em São Paulo. Eu não conheci meu pai, pois quando ele morreu eu tinha 2 anos. Tudo o que sei dele foram os meus irmãos que me contaram. Ele trabalhava com café. Quando ele morreu, nossa família foi morar em Queluz (SP). Quando a guerra começou, eu fui voluntário da seguinte forma: eu já era tenente do Exército. O comandante convocou os oficiais e disse: "Eu preciso de três oficiais para compor a Força Expedicionária Brasileira". E perguntou se nós éramos voluntários. Nessa hora um ficou olhando para o outro, né. Aí eu e mais companheiros nos apresentamos.

Desembarquei em Nápoles. No cais houve um probleminha. O nosso fardamento - aquele cinza - era parecido com o fardamento alemão. Parte da população que estava observando o desembarque achou que nós éramos prisioneiros alemães. O povo começou a apupar e a jogar objetos, mas houve a interferência de americanos, dizendo que nós não éramos alemães, embora o fardamento fosse parecido, que nós éramos brasileiros que estavam chegando para a guerra.

Próximo ao nosso campo de treinamento havia uma praia que estava inteirinha minada pelo alemães para impedir o desembarque dos aliados. Nossa primeira missão, foi retirar essas minas, que é uma das coisas mais delicadas que tem. Você tinha de deitar ao lado da minha e aos poucos ir tirando a areia até poder enxergar um pino. Esse pino você não podia tirar, mas ele tinha uns orifícios que a gente conseguia enfiar um pino e isso impedia a mina de explodir. Para retirar uma mina daquela levava muito tempo, era delicado, suava muito. No fim do dia, uma delas explodiu. Estava começando a escurecer, o pessoal começou a gritar: "Vamos embora". Sabe aquela brincadeira entre jovens: "Vocês querem ganhar a guerra sozinhos". E todo mundo saiu correndo para o caminhão. Nessa pressa, um dos companheiros, em vez de obedecer os ensinamentos - pisar onde o outro pisa e nunca fora do caminho - saiu correndo, cruzou no meio da mina, pisou numa delas e ela explodiu. Ele morreu. Coisa desagradável. Pra mim, a guerra começou ali.

Você já ouviu falar de foxhole? É um buraco feito com a pá na frente de batalha, onde o soldado fica esperando o inimigo para dar o alarme. O foxhole era muito ruim, porque com a chuva ou a neve os pés congelavam e alguns chegaram a ter de amputar o pé. Pouco antes da rendição alemã, houve um combate em Colleccchio. Nós estávamos chegando a uma igreja quando fomos atingidos, pois havia uma metralhadora alemã posicionada em um jardim. Do lado oposto da praça, havia uma cemitério, com um muro. Os alemães nos atingiam de lá e nós tentávamos reagir. Então, eu tive de subir em um campanário grande, uma torre ao lado da igreja, antiquíssima para poder localizar os alemães. As escadas não tinha forro. Puxei um fio de telefone das minha peças (morteiros) até lá e eu comecei a comandar o tiro. Eu vi que os alemães fugiram e eles me descobrira, e começaram a atirar, acertando o sino imenso que havia na torre. Foi um barulho ensurdecedor - tenho deficiência auditiva nos dois ouvidos por causa daquele barulhos. Desalojados, os alemães fugiram para uma praça. Da torre eu observava e concentrei o tiro dos morteiros naquela praça. A granada quando bate em uma árvore, explode e caiu aquela chuva de estilhaços. Quando tudo acabou me convidaram para ver o pessoal atingido na praça, mas eu não quis ir. Ganhei a Cruz de Combate de Segunda Classe. A guerra é um fato histórico horrível./ EDISON VEIGA E MARCELO GODOY (TEXTO) E EVELSON FREITAS (FOTO)

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