''''Você se sente um completo idiota'''', diz pai de vítima

Médico que votou em Lula e fez militância se revolta com gesto de assessor

O Estadao de S.Paulo

07 Julho 2022 | 00h00

Não é só a tristeza que aumenta com o passar dos dias, mas também a revolta e a indignação. Para as famílias das vítimas do vôo JJ 3054, o gesto obsceno de Marco Aurélio Garcia, dirigente petista e assessor especial da presidência da República, foi particularmente doloroso. Na noite de anteontem, Garcia e seu assessor, Bruno Gaspar, supostamente comemoraram a notícia de que um dos reversos do Airbus da TAM estava com problemas. O desabafo do médico Maurício Pereira, que perdeu sua filha Mariana, de 22 anos, fala mais alto que qualquer descrição. "Você se sente um completo idiota. Dá vontade de usar um nariz de palhaço no enterro da Mari. O Estado, representado pelo nossos governantes, está aqui para ajudar a gente e não para rir da nossa desgraça. Eu já votei no Lula, assumo, já pedi voto para ele, já fiz militância. Cadê ele agora? O governo comemora quando não está envolvido em tragédia. É a prova de que algo está muito errado com o País, com os valores dos nossos políticos." Hospedado no Hotel Blue Tree Towers da Avenida Faria Lima, com outras 80 famílias das vítimas, Maurício ligou ontem para a redação do Estado pedindo para ser ouvido. "Eu não queria conversar com a imprensa, pois estávamos muito abalados com tudo isso", diz. "Mas não consegui ficar quieto depois de ver aquelas cenas na televisão. Me incomodou profundamente. Parece que estão tripudiando em cima da memória da Mariana. " Mariana Simonetti Pereira, garota de sorriso fácil, brincalhona, palmeirense fanática e caloura do curso de Medicina da Fundação Faculdade Federal de Ciências Médicas de Porto Alegre, viajava para encontrar a mãe, Fátima, e o irmão Matheus em São Paulo. O pai Maurício Pereira dirige um dos maiores hospitais de Aracaju (SE). Apesar de todos os quilômetros de distância entre eles, não havia um dia sequer que passavam sem conversar. "No começo do ano eu comprei um notebook para termos mais contato", lembra o pai. "A gente sempre se falava, fosse pelo Messenger, Skype ou e-mail. Marcávamos de jogar damas online. Ela sempre estava fazendo piada, brincando. Na segunda-feira, ela me mandou uma mensagem pela internet: ''''pai, você pode ter estudado em faculdade federal, mas aposto que não tirou uma nota 10 em Bioquímica como eu!''''" A família inteira estava orgulhosíssima pelo fato de Mariana ter conseguido entrar no curso de Medicina, depois de três anos fazendo cursinho. "No ano passado, pouco antes do vestibular, ela estava muito nervosa", conta Pereira. "Por isso levei a Mari para fazer uma viagem pelo litoral catarinense. Nunca vi ela tão feliz depois de ter passado. Outro dia, ela ligou chorando de felicidade, falando que estava adorando a faculdade. Sempre fui coruja, meus filhos são minhas prioridades. Estou preocupado com o Matheus, ele está muito deprimido. Precisamos estar unidos para conseguir superar a catástrofe." A internet continua sendo um meio de lembrar com carinho de Mariana. Sempre que estão no quarto do hotel, Maurício e Matheus Pereira acessam a página do Orkut para olhar os recados deixados pelos amigos e as fotos tiradas recentemente pela garota. "É disso que a gente precisa, de apoio, não de mais tristeza."

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