Voluntárias dispensam polícia na luta contra prostituição infantil

Agentes eram informantes da rede de abusos que se formou após o avanço na extração da bauxita no Pará

Leonencio Nossa, enviado especial,

08 de setembro de 2008 | 10h34

Antes, acompanhadas da polícia, elas percorriam bares, prostíbulos e hotéis de Juruti para combater a exploração sexual de crianças. Com o tempo, o grupo de mulheres ligado à Pastoral da Criança e ao Conselho Tutelar percebeu que os policiais que as acompanhavam eram informantes dos donos dos estabelecimentos. Mesmo diante dos riscos oferecidos por cafetões, policiais corruptos e traficantes, o grupo de mulheres mantém a ronda noturna. "Não podemos confiar na polícia, ela dribla a gente", diz a professora aposentada Rosineide Barroso. Essas mulheres chegam a levar as crianças prostituídas para casa, como revelou o Estado na edição de domingo, 7.   Veja também: 'Prefeitos é que não investem', diz presidente da Vale    Rosineide avalia que a cidade não estava preparada para o crescimento, com a chegada dos investimentos na mina de bauxita, da Alcoa. "Não estávamos estruturados para esse projeto. Temos muitas adolescentes nas drogas e no alcoolismo." A servidora pública Varluce Augusta dos Santos, integrante da ronda, diz que a exploração sexual de crianças estava "incubada" - com a chegada da empresa o problema se tornou maior e visível. "A própria família jurutiense sofreu o impacto. Quem era agricultor no interior veio para a cidade", afirma. "As empresas não dão trabalho para quem não tem instrução", afirma. "Na cidade, os pais, analfabetos, tapam os olhos e deixam as coisas acontecerem."   Varluce ainda cita casos de crianças agredidas. "Muitos homens que vieram trabalhar na mina, com família longe, se aproveitam das meninas. E os gestores públicos não se preocuparam com a questão da infância." Mas ela admite que a empresa demonstra interesse em debater o problema com os moradores, mas falta política pública para combater a exploração sexual. "Até hoje não tem nada concreto para permitir às adolescentes deixarem a rua." Rosineide também lamenta que as preocupações da empresa não chegaram no tempo certo. "Veio tarde. Ninguém sabe o que fazer com os filhos", diz. "E também falta estrutura da Justiça. Não temos promotor e juiz, os casos são resolvidos em Óbido, a quatro horas de barco."   Só um carro   Parauapebas parece uma cidade do interior paulista. Outdoors com anúncios de empreendimentos imobiliários, prédios em construção, centro movimentado à noite, com jovens circulando por bares com roupas de marcas, motos e carros luxuosos. A maioria dos moradores, porém, vive em quartos alugados ou casebres em loteamentos irregulares. "As pessoas vêm atraídas pela propaganda de riqueza", diz Edson Barbosa, do Conselho Tutelar.   Maria Alexandra Silva, presidente do conselho, avalia que o tamanho reduzido das moradias agrava o problema dos abusos dentro de casa. Famílias de até dez pessoas dividem quartos de 20 m². De 100 casos em média de denúncias de agressão que chegam ao conselho por mês, a maioria é por abuso praticado por familiares. São 25 casos de exploração sexual todo mês. "Já esteve pior. Hoje a gente diz: são só 25".   Ela admite que o Conselho está numa situação mais confortável em sua região, a ponto de fazer doações. Parauapebas, porém, só conta com um carro para ajudar na apuração de denúncias. Há pouco tempo, esse veículo estava em reforma. O Corpo de Bombeiros, num treinamento de agentes, recortou o teto com um maçarico - sem dar satisfações.

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