Voluntários sem os quais não existiria a hora do ''sim''

Histórias de juízes de casamento por vocação, por currículo, para ocupar o tempo...

Fernanda Aranda, O Estadao de S.Paulo

18 Julho 2009 | 00h00

Se casamento fosse um filme, a participação deles seria mínima - mas imprescindível para o enredo. Apesar da importância na trama, nenhum poderia cobrar cachê pela aparição. Entrariam em cena, proclamariam a frase "aceita como seu legítimo esposo/a" e não receberiam um centavo por isso. Na vida real, eles existem e também não podem cobrar pela "ponta" nas histórias de amor reais. São juízes de casamento interpretados, voluntariamente, por estudantes, donas de casa, aposentados, dentistas, comerciantes...Atualmente, há uma seleção em curso em São Paulo para a escolha desses juízes, posição "que apesar de honorífica não é remunerada", define Manoel Bezerra, diretor da Associação dos Juízes de Casamento de São Paulo, que há 20 anos batalha pela regulamentação da classe. A reportagem do Estado foi conhecer os interessados em ocupar o cargo e constatou um pot-pourri de perfis de candidatos e um desequilíbrio numérico na disputa pelas vagas. Enquanto na capital o glamour de ser chamado de "juiz" pode ajudar a explicar os 35 inscritos para as duas únicas vagas abertas (é quase tão concorrido quanto prestar Direito na USP, que contabiliza 19 candidatos por vaga), o desânimo de trabalhar sem um único tostão em troca pode ser a razão para, no interior de São Paulo, as 249 vagas abertas terem atraído só 92 inscritos (157 estão ociosas). O casal de namorados Fernanda Gomes, de 22 anos, e Pedro Duarte, de 23, contraria a tendência interiorana de desinteresse. Moradores de Ribeirão Preto, ambos entraram na disputa. Ele para titular e ela para suplente. Para concorrer, é preciso enviar currículo e ter três cartas de recomendação. Se selecionados, oficializam apenas o casamento da região do cartório. Por ser uma função voluntária, informam os dias disponíveis e os casamentos são marcados só nessas datas (terça-feira e sábado, por exemplo). Fernanda era a única que almejava a função de suplente e já foi nomeada pela Secretaria de Estado da Justiça. Pedro tem um concorrente e ainda espera análise da pasta. Os dois, no fim deste ano, recebem o diploma de advogados e acreditam que a função contará pontos em empregos futuros. Mas a jovem vai além do campo profissional e suspira. "Já pensou que chique, o juiz de casamento casando com a sua suplente", ri. Assim como eles, na capital, outros estudantes de Direito almejam o cargo como uma espécie de estágio. É o caso de Bruno Garcia, de 26 anos, que, também como voluntário, já trabalhou no outro extremo do matrimônio. "Estagiava na área de divórcios", lembra.Além dos aspirantes a advogados, a crise mundial trouxe outras profissões na disputa. "Sou analista financeiro e, com a turbulência, estava desempregado havia oito meses", conta Jacques Coelho, de 30 anos. "Entrei na disputa porque descobri que às vezes há pagamento." A cobrança pela celebração é ilegal. Mas quando o casamento é fora do cartório (num sítio, por exemplo), os juízes recebem R$ 132 de ajuda de custo do cartório. Jacques arrumou emprego, mas não desistiu de ser juiz. VOCAÇÃONem todos pensam em currículo. Michel Hamuche, de 61 anos, tem um comércio na Rua 25 de Março, no centro, sempre quis ser juiz de casamento, mas a rotina assoberbada não permitia. Agora, estabilizado, quer destinar o tempo livre ao ofício. "Participar do início da construção da família é maravilhoso", acredita. Hamuche está na disputa hoje acirrada na cidade. Mas São Paulo, vira e mexe, também sofre com a ausência de titulares e suplentes. E é assim, quase que de improviso, que a maioria dos juízes na ativa (o cargo é vitalício) chegou à função. Jorgina Soares, de 72 anos, há uma década não conseguia vencer a tristeza da viuvez. O genro foi a um cartório e lá encontrou um casal de noivos desiludido porque no centro não havia titular nem suplente para a celebração. "Minha sogra está em casa sem fazer nada", sugeriu. Jorgina aceitou o convite e foi nomeada. "Hoje já perdi as contas de quantos casamentos participei. É uma alegria." Se a história dela fosse um filme, seria mais um daqueles que começam no "por acaso" e terminam em "casamento".

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