Fabio Motta/AE-2/12/2010
Fabio Motta/AE-2/12/2010

Voluntarismo dá lugar à discrição

Amigo do antecessor Celso Amorim, novo ministro das Relações Exteriores, Antonio Patriota, é tido como disciplinado e detalhista; Dilma deve acompanhar mais de perto ação do Itamaraty

Patrícia Campos Mello, O Estado de S.Paulo

02 de janeiro de 2011 | 00h00

O novo ministro das Relações Exteriores é fã da banda Radiohead, obcecado com a entrada do Brasil no Conselho de Segurança ampliado na ONU e adora cuidar dos mínimos detalhes, da cor das toalhas em recepções até o tamanho dos canapés servidos em coquetéis. A expectativa é que Antonio Patriota, de 56 anos, seja um chanceler com menos brilho próprio do que seu antecessor, Celso Amorim, que se desentendeu com a presidente-eleita Dilma Rousseff ao insistir em questões polêmicas como a aproximação com o Irã.

Patriota é cria de Amorim - os dois trabalharam juntos de alguma forma nos últimos 15 anos. Mas não se espera que ele siga o tipo de política externa voluntariosa de seu mentor. O novo chanceler é conhecido por ser disciplinado e cioso da hierarquia, e deve seguir à risca uma política externa que será mais ditada pela presidente e bem mais discreta.

Patriota é tido como diplomata brilhante. Sempre entre os melhores alunos do Instituto Rio Branco, ganhou a medalha de Vermeil, reservada aos primeiros colocados do curso. "Ele é daqueles que lembram qual foi a posição adotada pelo Brasil na crise do Chipre em 1974", brinca um diplomata que trabalhou bastante tempo com o futuro chanceler.

Carioca, ele ocupou os principais postos da hierarquia do Itamaraty - secretário-geral das Relações Exteriores, subsecretário-geral político e chefe de gabinete do chanceler. No exterior, serviu em Pequim, Genebra, Caracas e Nova York. Entre fevereiro de 2007 e outubro de 2009, foi embaixador em Washington.

Patriota viveu na Suíça, onde se formou em filosofia pela Universidade de Genebra. Foi lá que conheceu sua mulher, a americana Tania Cooper Patriota. Com Tania, ele mantém um casamento à distância há vários anos. E vai continuar na ponte-aérea - ela vive em Bogotá, onde trabalha para o Fundo de População das Nações Unidas.

Tania escapou por pouco da morte no terremoto do Haiti, em janeiro de 2010. Ela estava no escritório da ONU em Porto Príncipe quando veio o tremor e se escondeu embaixo de uma mesa pesada. Muitos de seus colegas morreram. O casal tem dois filhos, um trabalha na Cruz Vermelha, em Nova York, e outro na Secretaria de Assuntos Estratégicos, em Brasília.

Patriota vem de uma família de diplomatas, com pai e irmãos na carreira. Quando pequeno, estudou em Nova York e São Francisco, por isso fala inglês perfeito, que causa muito boa impressão em seus interlocutores estrangeiros. Além disso, fala francês e espanhol fluentes.

Celso Amorim conta que conheceu Patriota 25 anos atrás, quando o diplomata era um jovem secretário em Genebra, trabalhando com o embaixador Paulo Nogueira Batista. "Eu trabalhava no Ministério da Ciência e Tecnologia e estava discutindo a política de informática com os americanos", lembra o chanceler. "Cada vez que tínhamos uma reunião, aquele rapaz jovenzinho saía e voltava imediatamente com uma fórmula feita, ele já trazia uma solução redigida, fiquei muito impressionado", descreve Amorim. Depois disso, eles trabalharam juntos em várias ocasiões, durante 15 anos.

Mas apesar dessa ligação profunda com seu mentor, não se espera que Patriota vá resistir a implementar medidas que contrariem a política externa dos últimos 8 anos de gestão Amorim. Segundo um diplomata que conviveu com Patriota, ele é muito cioso da hierarquia, vai cumprir à risca a política externa determinada pela presidente Dilma e por Marco Aurélio Garcia.

Depois de anos trabalhando próximo de Amorim, inclusive como seu chefe de gabinete, os dois anos em Washington foram a prova de fogo para Patriota. Ele chegou ao principal posto no exterior sem ter ocupado nenhuma outra embaixada e era visto como inexperiente. O diplomata teve uma tarefa complexa: representar o Brasil em uma época em que os atritos com os Estados Unidos se acumularam, entre eles desentendimentos sobre Honduras e Cuba, e posteriormente a visita do presidente iraniano Mahmoud Ahmadinejad ao Brasil. "Ele se deu bem nos EUA, mas as pessoas não achavam que ele tinha autonomia, ele dava a impressão de ser uma pessoa que estava apenas repetindo posições antiamericanas do governo brasileiro", diz um integrante do governo americano. "Mas Patriota era bem mais fácil de lidar do que o chanceler Celso Amorim ou o Marco Aurélio Garcia."

Em sua temporada na capital americana, conseguiu um bom acesso ao Departamento de Estado e ao Congresso, embora tenha algumas rusgas no currículo. Às vésperas da visita de Ahmadinejad ao Brasil, em novembro de 2009, o deputado democrata Eliot Engel, então líder do subcomitê de Hemisfério Ocidental da Câmara, chamou Patriota para uma reunião no Congresso. "Manifestei o meu desagrado profundo com a visita de Ahmadinejad", disse Engel ao Estado, na época. "Espero que o governo dos EUA deixe claro ao presidente Lula que a visita de Ahmadinejad, um ditador que nega o Holocausto, é um erro", disse Engel, de ascendência judaica. "Principalmente para um país respeitado como o Brasil, que quer um assento permanente no Conselho de Segurança da ONU."

Segundo pessoas presentes no encontro, Patriota reagiu de forma brusca e surpreendeu o deputado e seus assessores. "Ele disse que não ia ficar ouvindo um deputado dar opinião sobre a política externa do Brasil", contou uma fonte. "Patriota às vezes era arrogante, queria deixar claro que o Brasil é importante e é um ator global", contou a fonte.

O diplomata segue à risca certas tradições do Itamaraty, é centralizador e muito ligado em minúcias. Em uma recepção para a então ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, na embaixada em Washington, Patriota fez uma preleção sobre tamanhos de canapés. "Um canapé precisa ter um tamanho adequado, tem de ser pequeno o suficiente para caber dentro da boca dos convidados", teria dito ele para os diplomatas presentes, enquanto criticava o tamanho dos aperitivos, que estavam grandes demais. Na época, ele disse à ministra Dilma que se orgulhava de cuidar de tudo nos mínimos detalhes. Em algumas recepções, o embaixador dava-se ao trabalho de determinar que tipo de toalha seria usada nas mesas, a lista das músicas que seriam tocadas e uma vez se estressou porque as flores na frente da sala de imprensa da embaixada estava murchas. "Eu já disse para trocar essas flores, flores murchas são inadmissíveis", disse a um funcionário.

Enquanto Amorim era fã de cinema e tem três filhos trabalhando na área, Patriota será o chanceler da música. Quando recebe convidados, não é raro o diplomata sentar ao piano ao fim da noite, para tocar um pouco. Ele gosta muito de música em geral, em especial de Radiohead, mas também Leonard Bernstein e Cole Porter.

À frente do Itamaraty, Patriota terá um dilema. Ele deve sua ascensão ao fato de ter sido o "assessor mais brilhante" de Celso Amorim. Mas as indicações públicas da presidente Dilma são de que ela quer mudar parte do que Amorim fez. "Patriota não será um chanceler de ideias independentes", acredita David Fleischer, professor emérito de ciência política da Universidade de Brasília. "Amorim, como chanceler, conseguiu guiar um pouco Lula, ao lado de Marco Aurélio; no caso de Dilma, ela é quem irá ditar o rumo para Patriota", diz.

Prioridade. Uma das maiores obsessões do novo chanceler brasileiro, Antonio Patriota, é obter uma vaga permanente para o Brasil em um Conselho de Segurança ampliado da ONU. Desde os anos 90, quando serviu na missão do Brasil junto à ONU, Patriota vem atuando nessa questão. O diplomata se interessa particularmente pela reorganização das instituições internacionais, e menos por temas econômicos e comerciais, segundo interlocutores.

Para Matias Spektor, coordenador do Centro de Relações Internacionais da FGV e autor de Kissinger e o Brasil (2009), Patriota representará a continuidade da política de investir no protagonismo do Brasil no cenário mundial e de manter o País autônomo diante dos EUA. "Vão continuar não seguindo os Estados Unidos de forma gratuita, negociando de maneira madura", diz Spektor. "Mas acho que o relacionamento com os EUA , que deteriorou muito nos últimos dois anos, pode melhorar." A aposta na cooperação Sul-Sul, nos novos blocos de países emergentes como o Ibas (formado por Índia, Brasil e África do Sul) e os Brics (Brasil, Rússia, Índia e China), reforma de instituições internacionais como Conselho de Segurança da ONU e Fundo Monetário Internacional, e foco na América do Sul são políticas que devem ser mantidas.

O assessor internacional da presidência, Marco Aurélio Garcia, pode ganhar mais poder para implementar um aprofundamento da União de Nações Sul-Americanas (Unasul), com o reforço das áreas de infraestrutura e energia do bloco, ao lado do conselho de defesa e de combate às drogas. Os investimentos na África também ganham importância. A cooperação técnica internacional - transferência de tecnologia da Embrapa para a África, parceria em etanol e Bolsa-Família - também é um xodó de Patriota.

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