Vontade de ganhar barra criatividade das escolas de samba

Escolas de samba do Rio promovem carnaval pasteurizado e com poucas inovações para agradar aos jurados

Márcia Vieira, de O Estado de S.Paulo,

16 Fevereiro 2009 | 03h20

Por enquanto não há sinal de mudanças à vista. A Liesa, Liga das Escolas de Samba do Rio, não pretende mexer tão cedo no regulamento para incentivar inovações nos desfiles do Grupo Especial - o nível e o estilo das apresentações são tão parecidos que a colocação entre as seis primeiras costuma ser decidida por décimos de pontos. No ano em que o Sambódromo carioca completa 25 anos, os carnavalescos enfrentam o desafio de levar alguma novidade que faça a diferença nos dois dias de desfile na avenida.  Veja também: Cobertura completa do carnaval 2009  Blog: dicas para quem quer curtir e para quem quer fugir da foliaEspecial: mapa das escolas e os sambas do Rio e de SP    Nos últimos cinco anos, as maiores surpresas estavam nos carros alegóricos criados por Paulo Barros. Mas, desta vez, sua criatividade está limitada. Ele divide o carnaval da Vila Isabel com Alex de Souza, autor do enredo sobre o Theatro Municipal. A maioria dos carnavalescos do Rio segue ainda hoje o padrão de luxo e carros alegóricos grandes estabelecido por Joãosinho Trinta, que faturou oito títulos em mais de duas décadas. Até quando as escolas, com raras exceções, vão continuar seguindo a era Joãosinho Trinta? "É preciso rever os critérios de julgamento. A partir daí, o carnaval poderá evoluir", acredita Maria Augusta, ex-carnavalesca, hoje comentarista da TV Globo. "A vontade de ganhar barra a criatividade." Maria Augusta, que surgiu nos anos 70 no Salgueiro numa equipe que revelou também Joãosinho Trinta e Rosa Magalhães, acompanha de perto, há 30 anos, o cotidiano das escolas cariocas. Ela percebe diferenças sutis a cada ano, mas admite que, de um modo geral, elas repetem uma fórmula. "Os carros alegóricos não têm mudado. E eles têm um peso muito grande no visual dos desfiles", diz. Para mudar, Maria Augusta sugere uma flexibilização do regulamento. Hoje, as escolas são obrigadas a levar oito carros para a Sapucaí. "Alegorias de chão menores dariam mais leveza ao desfile", defende. Fernando Pamplona, uma das maiores autoridades em escola de samba no Brasil, responsável por uma revolução nos desfiles nos anos 60, é mais pessimista que Maria Augusta. Para ele, o espetáculo vive um retrocesso. "Vivemos uma involução nos últimos anos", diz. A começar pelo samba. Pamplona acha que o andamento acelerou tanto que o samba virou marcha. "Isso mata o espetáculo. O samba é que manda no desfile." Não é só isso. Pamplona diz que a onda de enredos patrocinados, que tomou conta das escolas nos últimos anos, também limitou a criatividade. "Eles atrapalham muito a criação do carnavalesco." O Rio já assistiu a desfiles até sobre produção de gás e a história da mineração. "Ainda bem que esses não foram comigo", brinca Rosa Magalhães, carnavalesca da Imperatriz Leopoldinense e maior campeã da "era sambódromo", com cinco títulos. Rosa acredita que os desfiles estão sempre evoluindo, mesmo que lentamente. "Tudo na vida é assim, lento." Em 2010, a mudança pode ser mais radical. Rosa acredita que a crise econômica mundial vai provocar estragos fortes nos barracões no próximo ano. E, aí, o carnavalesco que não for criativo vai ter problemas. "A gente pode inventar. Já estou pensando em fazer roupas de papel no ano que vem. Vai dar um visual engraçado." Alexandre Louzada, um dos quatro carnavalescos da comissão de carnaval da campeã Beija-Flor, concorda. "Essa crise não vai acabar de repente. Vamos usar luxo onde o enredo pede, e lixo onde for necessário." O diretor cultural da Liesa, Hiram Araujo, aposta no talento dos carnavalescos para que os desfiles evoluam. Assim como em décadas passadas surgiram inovações comandadas por Joãosinho Trinta e Fernando Pinto (carnavalesco da Mocidade, morto em 1986). "Eles realmente surpreendiam, criavam coisas diferentes." Para Araújo, não há a menor chance de a Liesa mexer no regulamento para promover mudanças nas escolas. "Há uma pasteurização, mas isso é uma consequência do espetáculo. Antigamente, ainda havia diferença entre os sambas ou entre as baterias. Hoje não tem mais. Mas um dia isso muda."

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