Vôos fantasmas, para reservar mercado

Companhias aéreas têm sistematicamente cancelado algumas rotas; governo promete aumentar rigor

Bruno Tavares, O Estadao de S.Paulo

22 de dezembro de 2007 | 00h00

Nem adianta tentar comprar passagens para o vôo 7478 da Gol. Previsto para decolar diariamente às 9h10 do Aeroporto Internacional do Galeão, no Rio, com destino a Santiago, no Chile, a rota tem sido sistematicamente cancelada pela companhia aérea. E o que é pior: sem nenhuma justificativa. "O vôo está ativo e deveria cumprir os padrões de regularidade, pontualidade e eficiência operacional", admite a gerente de Acompanhamento de Serviços Aéreos da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), Clarice Bertoni. O que deveria ser um fato isolado tem se tornado uma prática habitual das empresas aéreas nacionais.Típico exemplo de um "vôo fantasma", o trecho em questão foi cancelado 14 vezes entre os dias 1º e 15 de dezembro, conforme levantamento feito pelo Estado com base em dados fornecidos pela Anac. Outras 29 rotas das cinco principais companhias - TAM, Gol, Varig, OceanAir e Pantanal - também extrapolaram, proporcionalmente, o limite de 25% de cancelamentos em um mês permitido pela agência reguladora.A maioria dos vôos cancelados não está à venda nos sites das empresas. Eles constam das planilhas oficiais, deveriam seguir as normas estabelecidas pela Anac, mas raramente decolam dos aeroportos de origem. São o que o próprio ministro da Defesa, Nelson Jobim, classificou de "slots de gaveta". O termo pode até soar rebuscado, mas a estratégia por trás dele é muito simples. Apesar de o vôo não ser rentável naquele momento, as companhias preferem manter o slot (autorização de pouso ou decolagem) para operá-lo, de olho em um possível aumento da demanda.Embora não sejam diretamente lesados por essa prática, os passageiros acabam sofrendo seus reflexos. Se uma empresa desiste de operar determinado vôo, outra poderia assumi-lo, aumentando a oferta de horários e estimulando a concorrência de mercado. "Já tivemos casos de empresas que tiveram slots cassados por causa do alto índice de cancelamentos não justificados", afirmou a gerente da Anac. "Fazemos inspeções por amostragem, mas nem sempre conseguimos constatar essas irregularidades." Ao longos dos anos, as companhias encontraram diversas formas de driblar a fiscalização. A mais comum, segundo fontes do setor, é promover o "rodízio de cancelamentos". "Elas cancelam determinado vôo por vários dias seguidos. No meio dessa seqüência, realizam uma partida só para despistar os fiscais", explicou um oficial da Aeronáutica, que falou sob a condição de anonimato. A tática ficou evidente no levantamento feito pelo Estado nos cinco aeroportos mais movimentados do País - Congonhas e Cumbica, em São Paulo, Santos Dumont e Galeão, no Rio, e Juscelino Kubitschek, em Brasília. Das 30 partidas que acumularam mais de 5 cancelamentos em 15 dias - proporção acima do limite aceito pela Anac -, 28 se enquadravam no exemplo dado. "Algumas vezes, percebemos que não é razoável haver tantos cancelamentos num espaço tão curto de tempo", reconheceu a gerente da Anac. Dos 12.943 vôos realizados no intervalo de 15 dias nos cinco aeroportos avaliados, 894 (ou 6,9%) foram cancelados - incluindo os da BRA, que no mês passado anunciou a suspensão de suas operações.Os Aeroportos Santos Dumont e de Congonhas foram os que mais tiveram registros de vôos cancelados - 13,9% e 10,3%, respectivamente. Quem vive o dia-a-dia do setor explica que o porcentual é resultado das estratégias operacionais adotadas pelas empresas. "Sempre que um avião apresenta pane", diz o oficial da Aeronáutica, "a prioridade é retirar aviões usados na ponte aérea. Como há vôos saindo a cada 30 minutos, fica mais fácil remanejar os passageiros." No mês passado, ao anunciar a criação do esquema especial para o período de alta temporada, Jobim disse que pretende ser mais rigoroso com as empresas, aumentando de 75% para 90% o índice mínimo de regularidade. Antes de entrar em vigor, a medida será colocada em consulta pública.OUTRO LADOA Pantanal foi a única das cinco empresas que deixou escapar que cancela vôos para não ter de cumprir viagens deficitárias. "Cancelamos um e acomodamos os passageiros no vôo seguinte", reconheceu um funcionário do setor de Coordenação de Vôo no dia 7, quando o Estado procurou a companhia pela primeira vez. "Vamos supor que no vôo das 10 horas tenham apenas 5 passageiros e, no das 12h40, estejam previstos outros 30", exemplificou. "Cancelamos o primeiro e colocamos todo mundo num vôo só." Procurada novamente na última sexta-feira, a companhia informou que não iria se pronunciar. As assessorias da Gol, Varig e OceanAir também foram procuradas, mas não retornaram os pedidos feitos pela reportagem.Já a TAM afirmou que o vôo 3740 (Congonhas-São José do Rio Preto) operou todos os dias no período de 1º a 15 de dezembro, ao contrário do que foi registrado pela Anac. As outras três rotas que figuram no ranking de cancelamentos - 3214, 3031 e 3943 - foram suspensas para que a empresa pudesse se adequar à nova malha aérea.

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