´Vou tomar os remédios na dose certa´, diz Sobel

Na noite de sexta-feira, 30, cerca de 500 pessoas perfiladas na Sinagoga Etz Chaim, na Congregação Israelita Paulista (CIP), receberam a mensagem enviada por Henry Sobel, o mais conhecido representante da comunidade judaica no País. ?Ele mandou um recado para vocês: vou tomar os remédios na dose certa?, repassou o rabino Michel Schlesinger. Em uma só frase, Sobel não só admitiu pela primeira vez em público que esteve preso nos Estados Unidos como embutiu sua explicação - a de que foi vítima de um estado de confusão mental causado por um coquetel de remédios. Sobel foi preso há uma semana na Flórida, depois de confessar que furtou de lojas da região cinco gravatas das marcas Louis Vuitton, Giorgio Armani, Giorgio?s e Gucci. Passou uma noite na Prisão do Condado de Palm Beach, pagou fiança de US$ 3 mil e voltou ao Brasil.Na quinta-feira, o episódio veio a público. Sobel negou que tivesse sido preso - e em seguida foi internado no Hospital Israelita Albert Einstein, com diagnóstico de transtornos de humor, descontrole emocional e alterações de comportamento.Do sétimo andar do Albert Einstein, mandou o recado para a comunidade que representou ao longo de 37 anos.O Estado acompanhou o Cabalat Shabat, que marca a chegada de descanso semanal judaico, normalmente ministrado pelo próprio Sobel na sinagoga da CIP, na Consolação. A maneira como o assunto foi tratado na cerimônia foi decisiva para mostrar como a maior congregação judaica da América Latina resolveu lidar com a crise pessoal de seu líder mais proeminente. Sobel foi homenageado ao longo de todo o serviço religioso.Quando chegaram na sinagoga, os freqüentadores encontraram sobre as cadeiras cartões que reproduziam a nota oficial divulgada pela CIP comunicando o afastamento temporário de Sobel de suas funções de presidente do Rabinato. Mas, logo depois das orações tradicionais, a presidente da congregação, Dora Lúcia Brenner, pegou o microfone e disse à platéia lotada que não se pode esquecer que Sobel esteve com todos ali dando conforto em momentos de luto e apoiando em horas alegres.?Não vamos prejulgar. E não vamos nos dividir?, pediu.Em sua prédica, o rabino Schlesinger - provável sucessor de Sobel - lembrou a proximidade da Páscoa judaica, que começa na segunda, e concluiu: ?Agora não é hora de perguntar porquê. É hora de perguntar: e agora??A cerimônia foi encerrada pela filha de Sobel, Alisha, de 23 anos.Vestindo bata branca e calça jeans, ela subiu ao púlpito para fazer um pequeno discurso de agradecimento pelas manifestações de apoio - e afirmou que por conta delas será mais fácil para seu pai enfrentar o momento difícil. ?Pude ver como ele e minha mãe fizeram amigos nesses 37 anos?.Liberais X conservadoresA CIP é o maior templo do judaísmo liberal no Brasil. Em suas dependências, homens e mulheres sentam lado a lado, é possível ver casais formados por judeus e negros e as cerimônias são oficiadas por um coral litúrgico acompanhado de órgão elétrico - cenas improváveis nas sinagogas conservadoras. Mesmo tradicional em alguns dos ditames judaicos (costuma dizer, por exemplo, que é preferível que judeus casem entre si), Sobel é o maior expoente dessa corrente. Por isso, o desvio em sua biografia é visto no meio liberal judaico como mais do que um constrangimento, mas como um argumento para a ala conservadora que o criticava e agora ameaça levar seu caso para discussão no Conselho Rabínico Mundial, em Israel.Sobel tem 63 anos, é casado com a calígrafa Amanda, costuma usar kipás púrpura, ternos de grife, colarinho alto e - por ironia do destino - nós de gravata largos. Já enfrentou polêmicas dentro da congregação, que atribuiu a tentativas de ?enquadrá-lo?. Mas não se pode dizer que não exerça liderança de fato - papel legitimado por atuações marcantes, como a de enfrentar o regime militar ao impedir que o jornalista Vladimir Herzog fosse enterrado na ala dos suicidas e a de defender o diálogo pleno entre diferentes religiões.Mácula em uma biografia impecável, a prisão se transformou em pepino para o círculo de Sobel. O rabino, garantem pessoas próximas, tentava disfarçar os sintomas do Mal de Parkinson diagnosticado há dois anos e tratado com um coquetel de remédios que teriam causado a confusão mental que o empurrou para o episódio. Agora, integrantes da CIP, familiares e advogados fazem seguidas reuniões para decidir como administrar o caso. Sobel deve receber alta do hospital Albert Einstein na próxima segunda-feira e, em seguida, se apresentar na CIP.

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