Hutukara Associação Yanomami
Hutukara Associação Yanomami

Yanomamis denunciam morte de duas crianças indígenas sugadas por balsa de garimpo ilegal

Dois meninos, de cinco e de sete anos, brincavam no rio que banha a comunidade, próximos de balsa de garimpo instalada no local, quando foram sugados e cuspidos para o meio do rio, sendo levados pelas correntezas

André Borges, O Estado de S.Paulo

14 de outubro de 2021 | 11h49
Atualizado 15 de outubro de 2021 | 07h34

BRASÍLIA – A morte de duas crianças Yanomami, que teriam sido dragadas pela estrutura de uma balsa de garimpo ilegal que atua na região, em Roraima, foi denunciada nesta quarta-feira, 13, pela Hutukara Associação Yanomami, que representa o povo indígena da região.

Segundo informações divulgadas pela associação, dois meninos, de cinco e de sete anos, brincavam no rio que banha a comunidade, próximos de balsa de garimpo instalada no local, quando foram sugados e cuspidos para o meio do rio, sendo levados pelas correntezas.

A informação foi levada à associação por lideranças indígenas da comunidade Makuxi Yano e da Terra Indígena Yanomami. O desaparecimento das crianças ocorreu no fim da tarde de terça-feira. Na manhã do dia seguinte, o corpo do menino de cinco anos foi encontrado pela comunidade. Horas depois, o de sete anos foi identificado sem vida por mergulhadores envolvidos no resgate.

A Hutukara entrou em contato com o Conselho de Saúde Indígena Yanomami e Ye'kwana (Condisi-Y), que acionou a Fundação Nacional do Índio (Funai) e o Corpo de Bombeiros para se deslocarem ao local na busca pelos corpos.

Em nota, o Corpo de Bombeiros de Roraima informou que recebeu a solicitação do Condisi-Y referente ao afogamento de duas crianças indígenas que teriam sido levadas pela correnteza de um rio na região do Parima, município de Alto Alegre.

“A morte das duas crianças Yanomami é mais um triste resultado da presença do garimpo ilegal na Terra Indígena Yanomami, que segue invadida por mais de 20 mil garimpeiros”, declarou Dário Kopenawa Yanomami, vice-presidente da Hutukara Associação Yanomami.

Até setembro de 2021, segundo dados da associação, a área de floresta destruída pelo garimpo ilegal na Terra Indígena Yanomami superou a marca de 3 mil hectares - um aumento de 44% em relação a dezembro de 2020. Somente na região do Parima, onde está localizada a comunidade de Macuxi Yano e uma das mais afetadas pela atividade ilegal, foi atingido um total de 118,96 hectares de floresta degradada, um aumento de 53% sobre dezembro de 2020. Além das regiões já altamente impactadas, como Waikás, Aracaçá, e Kayanau, o garimpo avança sobre novas regiões: em Xitei e Homoxi, a atividade teve um aumento de 1000% entre dezembro e setembro de 2021.

“O Fórum de Lideranças da Terra Indígena Yanomami se reuniu em setembro para trazer a voz da floresta, e já dissemos: o aumento da atividade garimpeira ilegal na Terra Indígena Yanomami está se refletindo em mais insegurança, violência, doenças, e morte para os Yanomami e Ye’kwana. As autoridades brasileiras precisam continuar atuando para proteger a Terra-Floresta, e impedir que o garimpo ilegal continue ameaçando nossas vidas”, afirmou Dário.

No dia 16 de setembro, uma força-tarefa coordenada pela Secretaria de Operações Integradas do Ministério da Justiça e Segurança Pública prendeu 13 pessoas e apreendeu 64 aeronaves durante operação para combater o garimpo ilegal, retirar invasores e reestabelecer bases de proteção etnoambiental na Terra Indígena Yanomami.

A ofensiva durou 15 dias e ainda resultou no confisco de 75 mil litros de combustível, 611 munições, mais de 1.300 quilos de minério e 500 metros de mangueiras de garimpos.

“Estamos atuando de forma intensa na repressão aos crimes ambientais. O fortalecimento de uma atuação integrada traz, cada vez mais, resultados positivos para a desarticulação das organizações criminosas”, disse o Ministro da Justiça e Segurança Pública, Anderson Torres, na ocasião.

Questionada pelo Estadão sobre a tragédia, a Funai declarou que, por meio da Frente de Proteção Etnoambiental Yanomami e Ye'Kwana, “acompanha o caso junto aos órgãos de saúde e segurança pública competentes e está à disposição para colaborar como trabalho das autoridades”.

“A Funai esclarece ainda que atua em ações de fiscalização e monitoramento em Terras Indígenas de todo o país, por meio de suas unidades descentralizadas, e em parceria junto a órgãos ambientais e de segurança pública competentes. Só a área indígena Yanomami conta atualmente com quatro Bases de Proteção Etnoambiental (Bapes) da Funai: Serra da Estrutura, Walo Pali, Xexena e Ajarani. Todas essas unidades são responsáveis por ações permanentes e contínuas de proteção, fiscalização e vigilância territorial, além de coibição de ilícitos, controle de acesso, acompanhamento de ações de saúde, entre outras atividades”, afirmou o órgão vinculado ao Ministério da Justiça.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.