WILTON JUNIOR/ESTADÃO
WILTON JUNIOR/ESTADÃO

Juliana Diógenes, O Estado de S. Paulo

12 Outubro 2016 | 03h00

Fenômeno no mundo virtual, crianças entre 5 e 12 anos têm vivido rotina de popstar após alcançarem a fama com vídeos no YouTube. Esta é a segunda geração de youtubers, a dos mirins, e foi motivada pela categoria "teen", dos adolescentes. Há crianças de 4 anos com canal na plataforma. Outras, aos 7, já publicaram livros sobre a experiência. Há caso ainda de youtuber que, após chegar ao sucesso, passou a frequentar psicólogo para tratar sobre fama e frustração.

Com mais de um milhão de seguidores, Manoela Antelo, de 11 anos, foi eleita no ano passado uma das cinco crianças brasileiras mais influentes nas redes sociais, segundo levantamento da agência iFruit, especializada em celebridades. A garota tem vários fã-clubes e acumula seguidores até em Portugal. Ostenta uma placa do YouTube com o botão "play de ouro", presente da plataforma concedido aos criadores do canal que atingem a marca de um milhão de inscritos.

"Tive ideia da dimensão que o canal estava tomando quando a primeira criança reconheceu a Manoela na rua", diz a mãe, Vênus Antelo, assistente administrativa. "Pergunto: 'filha, você não quer fazer teatro? Fazer teste para alguma novela?' Ela não quer. Porque o YouTube dá a possibilidade de não ter roteiro, nem rotina, e de ser você mesmo".

Este ano, a menina mudou de escola e foi rodeada por fãs logo no primeiro dia de aula. Na semana passada, o coordenador levou uma colega até a sala de Manoela, que queria tirar uma foto com a youtuber.  Vez por outra, ela recebe cartinhas de crianças mais novas do colégio, fãs dos seus vídeos. "Acaba se tornando um grande evento quando ela aparece em algum lugar que tenha criança", afirma Vênus.

Para Maria Eduarda, que gravou os primeiros vídeos aos 8 anos no canal Duda Monster High, "tudo começou como uma brincadeira", diz a mãe Luécia Brucceli. "Mas tudo engrenou mesmo há um ano. A Duda está levando mais a sério", explica a agricultora, que administra as contas da filha e exclui comentários ofensivos para evitar que Duda leia. 

Com 379 mil seguidores e vídeos com mais de 82 milhões de visualizações, hoje a menina tem 11 anos, é reconhecida em shoppings e aeroportos, tem livro publicado e já recebeu abraço de fã aos prantos em encontros de youtubers. "Na primeira vez em que fomos a um encontro, as crianças ficavam chorando e abraçando a minha filha. Quando ela chegou, era uma gritaria. (As youtubers) tiveram que entrar no shopping cercadas por seguranças porque os fãs vinham e puxavam, agarravam pela roupa", conta Luécia.

A mãe diz que Duda gravou o primeiro vídeo escondida, com o avô. "Fiquei assustada e brava. Mas depois fui entendendo que é uma diversão. Ela gosta muito desse universo. Agora começou a fazer teatrinho no canal. E me pergunta 'será que eu seria uma atriz boa'? Fica fantasiando. É coisa da idade", explica. "Ela é a maior fã da Larissa Manoela (atriz mirim televisiva). Acho que queria ser ela".

Frustração. Após alcançar o sucesso no canal A vida de Amy, Amanda Carvalho, de 11 anos, começou a fazer aulas de teatro e patinação artística. Em breve, a mãe Sheila Carvalho, fonoaudióloga de 43 anos, pretende inseri-la em cursos de teatro musical e teatro para TV. A garota também tem um livro já pronto, que deve ser lançado nos próximos meses.

A garota tem 313 mil inscritos e seus vídeos chegaram a 52 milhões de visualizações. Quando Amanda passou a acumular seguidores, Sheila a levou a uma psicóloga. "Ela faz porque precisa saber lidar com tudo isso, tanto com a fama quanto com a frustração. Hoje quem precisa de acompanhamento psicológico sou eu, que vivo em função dela. A gente que é mãe para tudo o que faz pela criança. Eu trabalho para ela e de graça", explica Sheila, que teve de aprender a mexer com edição de vídeo para ajudar no canal. 

Na opinião de Sheila, o YouTube foi "a melhor terapia" para a filha, que é surda e sofria bullying na escola por ter dificuldades na fala. Com os vídeos, conta a mãe, a menina passou a desenvolver melhor a oralidade. "Ela é muito desinibida, muito espontânea na frente da câmera", diz.

Hoje, Amanda é agenciada por uma empresa que "descobre celebridades", diz a mãe. "Ela está agenciada agora com empresas de modelo e alguns produtores de elenco. Se alguma marca procurar atriz, ela vai ser indicada direto pela agência. O mundo vai dando voltas que a gente não espera", conta a fonoaudióloga, orgulhosa. 

Pesquisa. A audiência de canais de youtubers mirins cresceu quase seis vezes em um ano no Brasil. Entre agosto de 2015 e agosto deste ano, o número de visualizações dos canais feitos por crianças na plataforma teve um aumento de 564%. Com a intensificação da quantidade de vídeos postados no universo dos youtubers infantis (226%), também subiu o número de inscritos desses canais: 550%. Os dados são da pesquisa "Geração YouTube: um mapeamento sobre o consumo e a produção infantil de vídeos para 

crianças de zero a 12 anos no Brasil, de 2015 a 2016". 

"O ato de se inscrever em um canal requer uma habilidade própria da faixa etária mais velha do estudo, de crianças de 6 a 12 anos. Aos poucos, esta habilidade também será uma das características das crianças de 4 a 6 anos", afirma a coordenadora da pesquisa e professora da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM), Luciana Corrêa.

Os três maiores canais de youtubers mirins são de meninas: Júlia Silva, Bel para Meninas e Juliana Baltar. Segundo Luciana, as crianças se apropriam da linguagem das youtubers teens e conseguem se destacar. Na segunda edição, a pesquisa mapeia o consumo e a produção infantil de vídeos para crianças de zero a 12 anos no último ano no YouTube Brasil.

O estudo separou o conteúdo dos canais em sete categorias: Minecraft, TV, não exibidos em TV, Unboxing, Youtubers Teen, Youtubers Mirins e Educativos. O levantamento cruza dados dos maiores canais, com resultados de 776 questionários respondidos por mães e pais de crianças de 0 a 12 anos, que confirmam o consumo feito por seus filhos. Na pesquisa, a especialista avaliou 230 canais.

A advogada do Instituto Alana, Ekaterine Karageorgiadis, explica que o fenômeno de youtubers mirins tem origem nos adultos. Segundo ela, as crianças se espelharam em youtubers mais velhos e passaram a querer imitá-los.

"Muitos canais surgem espontaneamente, principalmente os mais antigos. Essa foi uma primeira leva. Mas muitos outros nasceram motivados pelos canais mais famosos. São crianças que já gostavam dos youtubers adolescentes e também querem fazer vídeos. Isso que hoje acontece no âmbito infantil já vinha acontecendo no âmbito dos adultos. Não foram as crianças que inventaram os youtubers", afirma Ekaterine.

Publicidade. O aumento no número de youtubers mirins traz à tona discussões sobre a publicidade infantil. Para Ekaterine, as agências de publicidade têm feito a intermediação entre a marca e as crianças, usando os youtubers infantis como "promotores de venda" dos produtos. "É um formato paralelo ao que acontece na televisão. Mas na TV há regras para que a criança participe de uma publicidade. Há um procedimento. No YouTube, não", diz. Segundo a advogada, além de aprovação dos pais, é necessária uma autorização judicial com informações, por exemplo, sobre número de horas de gravação e horário definido para a escola. 

"Isso precisa ser regulamentado também no YouTube porque existem lucros obtidos a partir do trabalho ou da exposição da criança. São muitas relações comerciais que existem a partir dos vídeos. Passa a ser rentável. Autorizar que crianças façam vídeos é um cenário ainda nebuloso, mas regras precisam ser aplicadas", afirma Ekaterine. 

Em nota, o Google informa que o YouTube é uma plataforma destinada a adultos, conforme indicam os termos de serviço da plataforma. "Seu uso por crianças deve sempre ser feito num contexto familiar e em companhia de um adulto responsável. Para usuários menores de 13 anos, indicamos o app gratuito do YouTube Kids, que oferece o conteúdo ideal para famílias, inclusive com regras muito mais severas para publicidade, já que se destina ao público infantil", diz a empresa.

Sobre o conteúdo gerado por usuários, os vídeos, "todos são responsáveis pelo material compartilhado e devem seguir as diretrizes da comunidade". "No que se refere a publicidade na plataforma (anúncios), marcas e anunciantes devem seguir nossas diretrizes e estar em conformidade com a legislação brasileira. Ainda, de acordo com o Marco Civil, no caso de algum conflito, a responsabilidade do Google como provedor da plataforma é aguardar uma decisão judicial para tomar ações como a remoção de um vídeo ou qualquer outra medida", esclarece o Google.

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Juliana Diógenes, O Estado de S. Paulo

12 Outubro 2016 | 03h00

Dono de um dos canais mirins mais famosos da plataforma, com quase três milhões de seguidores, o baiano Isaac Guedes tem 7 anos, um empresário e um assessor de imprensa. Após dois anos de carreira virtual, o menino se mudou para o Rio de Janeiro com a família há cerca de um mês, com o objetivo de amadurecer a carreira. Lá começou a ter aulas de teatro. Para 2017, o projeto do garoto é protagonizar uma peça teatral inspirada em um quadro que foi criado no seu canal. Mesmo tendo somente sete anos, Isaac já diz que seu sonho é ser ator, arquiteto e youtuber.

O primeiro vídeo do garoto foi publicado no Vine - plataforma de vídeos curtos - do tio, Ícaro Guedes, estudante de publicidade de 21 anos. Isaac, na época com 5 anos, fez mais sucesso do que o próprio tio. Após insistência de familiares e fãs, o menino migrou para o YouTube, onde despontou.

Hoje é assediado em shoppings, aeroportos, supermercados e até por motoristas da Uber. "Toda vez que vamos, temos de ficar meia hora em um lugar só tirando foto. Junta um monte de gente. A gente fica até assustado", diz o tio. Certa vez, Isaac foi reconhecido no consultório, por um médico pediatra que o conhecia da internet. Por já terem aparecido em vídeos do canal, familiares também sentem o reflexo da fama. "Deixamos de ir ao cinema. Quando queremos ver filme, eu e a minha irmã (Iasmin, mãe de Isaac) precisamos ir na última sessão", conta Guedes.

A mãe e hoje assessora Iasmin Guedes, de 23 anos, abriu mão da faculdade e do emprego em nome da carreira do filho. "Fazia faculdade e trabalhava em uma agência de turismo em Salvador. Começaram a surgir viagens, eventos e participações do Isaac em programas. Não estava mais conseguindo conciliar. Tranquei a faculdade e pedi demissão para poder acompanhá-lo nas viagens", afirma.

 

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Juliana Diógenes, O Estado de S. Paulo

12 Outubro 2016 | 03h00

1. Como explicar o fenômeno dos youtubers mirins?

A criança nativa digital, um conceito de 2001, nessa onda de YouTube pega o reflexo do que acontece com os youtubers teens, como Kéfera e Christian Figueiredo, os mais populares entre os adolescentes, como se fosse uma segunda leva dos influenciadores. As crianças fazem parte dessa segunda onda. Essa criança nativa digital não faz distinção entre o online o off-line. Para ela, é tudo online e off-line, não há diferença. Elas fazem e postam vídeos com facilidade porque não veem riscos. A brincadeira antiga de imitar uma figura famosa se repete. Eu fazia isso, você fazia isso, cada um na sua geração. Só que agora a criança está brincando de fazer vídeo. Isso acaba se veiculando a partir de um influenciador adulto ou um pouco mais velho que a criança. O mais novo imita o mais velho. A idolatria só mudou de plataforma, mas o hábito é o mesmo.

2. Quais são os tipos de vídeos mais produzidos e consumidos no YouTube? 

Os canais podem ser divididos em sete categorias. Há os de Minecraft (jogo eletrônico que permite a construção usando blocos), que são aqueles voltados para o público de games. Tem aqueles canais de conteúdo da televisão que se reflete no YouTube, que é a categoria conteúdos de TV. Tem conteúdo, como a Galinha Pintadinha, que tem linguagem de desenho animado, mas não foi exibido na TV. Há o unboxing, vídeos em que as crianças tiram brinquedos da caixa e avaliam. Tem ainda as categorias do youtuber teen, dos mirins e da educação com apelo para entretenimento. 

3. Com o boom das redes sociais entre crianças, a legislação garantidora de direitos precisa ser repensada ou é suficiente para regular a atividade?

É hora de se pensar o modelo todo de novo, de se pensar as regras em relação à publicidade infantil. Canais de TV precisam de publicidade para sobreviver, mas também produzem conteúdo com qualidade, que o YouTube não produz. A qualidade de conteúdo não se compara, mas por outro lado o que se vê é o comportamento de uma geração específica que está no YouTube. A gestão da publicidade infantil e de usar um youtuber precisa ser ainda muito discutida e dialogada. É uma questão delicada usar criança para fazer publicidade. No mundo digital, isso precisa ter o mesmo peso que tem quando se faz um anúncio publicitário com criança na TV.

 

 

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