Zona norte tem ''bondes'' estudantis

Jovens de São Paulo formam ?famílias uniformizadas? com centenas de membros, mas que negam ser violentas

Marcela Spinosa, JORNAL DA TARDE, O Estadao de S.Paulo

03 Outubro 2008 | 00h00

"Vida longa aos meus inimigos, para que eles possam aplaudir de pé minha vitória." O ditado é repetido por pelo menos 200 jovens da zona norte de São Paulo. Eles fazem parte do Bonde D?s Envolvidos e não estão sós. Existem na região pelo menos 11 grupos do tipo. Cada um possui identidade, logotipo e hino. Chamados de "famílias" ou "bondes", estão concentrados em Cachoeirinha, Limão, Freguesia do Ó e Casa Verde. São formados por jovens de 14 a 25 anos. Moram em áreas carentes, andam em bando e em geral estudam no mesmo colégio. Começaram a surgir há cerca de dois anos. Identificá-los é fácil: andam com roupas e bonés personalizados. Possuem hierarquia: o "cabeça" é o líder. Abaixo, vêm os "diretores", que organizam festas e fazem roupas. Depois, vêm os "pilotos", que buscam as roupas, compram e arrumam os locais das festas. Por fim, os "integrantes" e os "mascotes" - as crianças. Para seguir um grupo é preciso ser aprovado pelo cabeça. Para ficar no bonde, deve-se obedecer a quatro regras. A principal é não ser "talarico" - não cobiçar a mulher do próximo. Deve-se respeitar os companheiros, não arrumar confusão e não pichar paredes das escolas. Dizem que não há rivalidade. "Sempre que tem festa, convidamos outras ?famílias?. Se ?trombamos? uma ?família?, conversamos. Mas, se eles quiserem brigar, não vamos apanhar", diz F., de 16, da Família Zika, com 300 integrantes. Alunos que não participam, pais e professores dizem que a relação entre elas, às vezes, não é amistosa. "Roubam os celulares e material dos alunos", disse uma professora. "Se a criança não participa, é excluída. As meninas que não se dão bem brigam na rua. Eles também vendem drogas perto da escola." Já um aluno da Escola Estadual Tarcísio Álvares Lobo, onde a maioria dos integrante da Família Zika estuda, disse que há a regra de não brigar nas escolas. "Eles vão para uma praça aqui perto e se ?matam?."Anteontem, um jovem de 15 anos, armado com um revólver 38, atirou para o alto na porta da unidade, para assustar um aluno que mexeu com sua namorada. Uma mãe de aluno tem medo de sua filha estudar na Escola Estadual Professor Luiz Gonzaga Righini, onde há integrantes da Família Sem Limite e do Bonde D?s Envolvidos. "São grupos que estão crescendo. Aqueles que querem estudar não terão condições, porque as escolas e os pais não conseguem controlar seus filhos." As famílias negam praticar atos violentos e tráfico de drogas. PELA INTERNET Alguns grupos usam o Orkut e o YouTube para promover e homenagear seus integrantes. Ao ritmo de funk, fotos de adolescentes e crianças são exibidas para apresentar os membros. Cada um possui uma função e são, geralmente, tratados por apelidos. As fotos são em pose de ameaça no estilo hip-hop. Os meninos portam bonés; as meninas, óculos escuros. São raros os vídeos que fazem apologia ao crime. Os grupos sustentam a imagem de grandes amigos. Alguns integrantes ousam aparecer em fotos exibindo leques de notas de R$ 50 ou R$ 20, mas os slogans estão longe da inocência. "CoM nÓiS kEm KéR, CoNtRa NóIs KeM pUdÉr" é a que descrever a Família Sem Limites no Orkut. Os integrantes são discriminados em categorias e funções. A grande maioria, principalmente nos cargos mais altos, é formada por homens. Os perfis também exibem referências aos grupos. Álbuns são dedicados aos encontros e aos colegas; alguns exibem bandeiras e brasões. É possível encontrar homenagens a amigos mortos prematuramente. Segundo o coordenador do núcleo de psiquiatria forense do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas, Daniel Martins de Barros, expressar sua identidade em grupos é característico da faixa etária. "O adolescente passa por uma fase de questionamentos da família e das regras. Isso motiva uma união, para o bem ou para o mal." Marisa Feffermann, autora do livro Vidas Arriscadas, sobre adolescentes no tráfico de drogas, defende que o comportamento é conseqüência de uma sociedade que não respeita a expressão do adolescente. Para ela, a palavra gangue não define esses grupos. "Gangues seguem padrões americanos, de se reunirem para cometerem crimes. No Brasil isso ainda não acontece." COLABOROU LAIS CATTASSINI

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