Zuanazzi anuncia demissão e critica atuação de Jobim

A carta em que pedirá exoneração do cargo deverá ser entregue ao presidente Lula durante a tarde

31 Outubro 2007 | 12h03

Depois de três meses de queda de braço com o ministro da Defesa, Nelson Jobim, o presidente da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), Milton Zuanazzi, anunciou nesta quarta-feira, 31, que vai pedir exoneração do cargo ao presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva. Ele disse que o ministro pressionou a sua saída. "Eu estava cumprindo uma missão e quem cumpre missão não se sente pressionado. Eu cumpri minha missão até o fim."   Especial sobre um ano de crise aérea Todas as notícias sobre a crise aérea    Zuanazzi não poupou críticas a Jobim. Desde pequenas alfinetadas, como chamar o discurso do ministro de "proselitismo político", o dirigente, que está em rota de colisão com ele desde que o chefe da Defesa assumiu o cargo, afirmou que o ministro desconhece a realidade histórica da aviação brasileira e que está deixando a Anac porque não quer trabalhar com ele.   "Minha divergência com ministro são minhas divergências com ele. Estou saindo porque não gostaria de trabalhar com ele. Acho que ele está propondo um conjunto de reduções temerárias. Temo que haja crescimento de preço, que impeça a classe média baixa, pessoas mais simples, de voar", afirmou Zuanazzi, em tom de desabafo.   O presidente da Anac deve entregar sua carta de exoneração durante a tarde desta quarta-feira, quando se encontra com o presidente Lula. Durante o auge da crise aérea, Zuanazzi afirmou que não deixaria a diretoria da Anac mas mudou de idéia por causa de sua "responsabilidade como servidor público". Em outra crítica a Jobim, ele afirmou que "o ministro não tem idéia do que é uma autoridade no setor de aviação civil. Tudo o que ele (Jobim) falou podia ter respondido, podia ter criticado, mas achei melhor não fazer isso e esperar para apresentar a vocês minha defesa pública", afirma.   Logo quando assumiu, Jobim fez duras críticas a atuação da agência, a quem correntemente chamava de 'leniente'. Em resposta a essas críticas, Zuanazzi afirmou que "a única leniência que nós tivemos nesse período foi com o ministro Jobim, não respondi a nada que ele falou. Vocês são testemunhas do meu silêncio. Entendi que não faria bem à aviação civil provocando polêmica. Não quis entrar em uma situação menor", diz.   Prestação de contas   Zuanazzi iniciou a entrevista coletiva fazendo uma espécie de desabafo, acompanhado de uma prestação de contas. Primeiro, ele reclamou da falta de orçamento para o órgão e principalmente das acusações de que a Anac seria responsável por toda a crise do setor aéreo, como no caso dos controladores de vôo, subordinados ao Comando da Aeronáutica. "Eu não vejo porque se acusou tanto a Anac. Nós não somos ministério, não podemos usar a FAB. Não é justo esse tipo de crítica", diz.   Zuanazzi também afirmou que "gostaria de resolver os problemas da aviação civil na hora em que eles aparecem". A coletiva acontece depois de três meses de queda de braço,. Segundo o ministro da Defesa, Nelson Jobim, amigos de Zuanazzi confirmaram a saída da presidência, mas informavam que ele ainda cogitava permanecer na diretoria.   Para Zuanazzi, o orçamento está aquém das necessidades da Anac, "inclusive depois da chegada do ministro Jobim". "Não herdamos nada perfeito nem vamos entregar uma máquina perfeita", diz. Apresentando dados anteriores e posteriores à existência da Anac, o dirigente apresentou os principais problemas que tiveram de ser enfrentados pela agência.   "Desde o leilão da Varig, cerca de 6 milhões de passageiros tiveram que ser reembarcados, pois a companhia ficou com menos aviões. Tivemos também que fazer um contexto de mudança muito significativo", diz ele. "No início do problema dos controladores se confundiu muito a opinião publica responsabilizando a agencia por uma coisa que não era de nossa responsabilidade",  afirma.   Carta   Durante a tarde desta quarta-feira, Zuanazzi entregou uma carta de demissão ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, com duras críticas a Jobim. Leia, abaixo, a íntegra da carta.   "Caro Presidente Luiz Inácio Lula da Silva,   Mais uma vez, dirijo-me a Vossa Excelência para lhe falar da aviação brasileira. Desta feita, pouco para colaborar e sugerir, mas para revelar sentimentos e decisões. Receba essa missiva como a minha renúncia, em caráter irrevogável, ao cargo de Diretor-Presidente da AgênCIa Nacional de Aviação Civil - ANAC, posição que tive a honra de servir, indicado que fui pelo Setor de Turismo e integralmente subscrito por Vossa Excelência, dando-me a responsabilidade de ser o primeiro Presidente Civil desta autoridade de aviação civil brasileira.   Saiba, caro Presidente, que vivo um dia ambíguo. Pessoalmente, sinto-me muito feliz, pois retorno à querência daqueles que tanto amo e que há muito desejam minha presença. Por outro lado, sou tomado de decepção, onde, após 30 anos de serviço público, continuo vendo as coisas acontecerem da mesma forma, onde a verdade, a seriedade, no trato das coisas públicas, e, especialmente, as instituições e as leis do estado democrático serem vilmente desrespeitadas.   A Secretaria de Aviação Civil, sempre defendida por mim, em várias vezes que me comuniquei com Vossa Excelência, para que fosse um órgão de aglutinação e elaboração das políticas publicas para o Setor, ate agora não passou de um instrumento subalterno, menor, sem qualquer ação articuladora da aviação no país. De resto, somente a criação de alguns cargos de confiança para um assessoramento inferior ao plantão do Ministro da Defesa. Todos aqueles que guardavam conhecimento do Setor de Aviação naquele Ministério foram exonerados e espero, somente, que tal prática não se repita na ANAC, pois seria incalculável o prejuízo para o país.   Nenhuma reunião importante, nenhuma ação aglutinadora, nenhum debate construtivo, nenhuma política emanou do Ministério da Defesa até agora. O que vemos são meras ações midiáticas, manifestações despreparadas, discursos sem qualquer conteúdo técnico, revelando um ioga pobre, que tanto mal tem feito ao Brasil.   Porém, caro Presidente, saio sem qualquer amargura. Apesar de, durante meses, ter sido o maior responsabilizado pela longa crise, o tempo está mostrando que fomos a parte que menos influência teve nos acontecimentos que se sucederam. Os fatos, as investigações e os números demonstram minha afirmação, mas. Somente o tempo vai reparar toda essa injustiça.   Neste momento, sinto-me profundamente tranqüilo, depois de receber um apoio irrestrito de todo o Setor de Turismo e agora, de todas as entidades que compõem o Conselho Consultivo da ANAC, os quais remeteram correspondência a Vossa Excelência. De resto, foram centenas de manifestações de apoio e, o mais importante, os funcionários da ANAC, aqueles que verdadeiramente entendem de aviação neste país, de forma constante, têm dedicado a mim respeito e reconhecimento.   Acompanha esta carta, uma prestação de contas de minha gestão, que compara a situação atual com a estrutura que recebemos, especialmente sobre os temas tão debatidos pela mídia, onde procura repassar dados históricos comparativos, para um bom esclarecimento da opinião pública. Tais números revelam que agimos com mais eficiência e rigor que nossa estrutura antecessora. Aplicamos mais multas, fiscalizamos mais a infra-estrutura aeroportuária e atendemos com mais rapidez, apesar de estarmos longe do ideal quanto às demandas dos usuários.   Mantive-me, até agora, porque não seria irresponsável em abandonar a missão de presidir esta Agência Reguladora sem os legais substitUtos estarem aptos para assumirem seus encargos e fiquei silenciosamente vendo o atual Ministro da Defesa, num teatro com tinturas de exibicionismo, a demitir-me diariamente pela mídia, como se essa atitude estivesse de acordo com as responsabilidades republicanas e à altura de nossos cargos.   A lei que criou a ANAC lhe deu autonomia administrativa. Se a decisão do Governo é caminhar para esta retirada, primeiro mude-se a lei, para que depois se tome as atitudes correspondentes, nunca o contrário, pois dessa forma estamos ferindo de morte a Constituição da Republica. O que estamos vendo até o presente momento é o mais absoluto desrespeito à legalidade, atropelando-se o princípio daquela autonomia dada pelo diploma legal. Ora, se nem o Senado da República é respeitado como colégio efetivo dos membros de uma agência, já que o Ministro sai anunciando nomes como se os mesmos estivessem investidos em mandatos, fico a imaginar como se dará a relação dele com a futura Diretoria da Agência.   São métodos que veemente reprovo e, ao que parece, irá constantemente marcar essa gestão naquela pasta e com as quais não desejo nenhuma convivência.   Permaneci em silêncio, esse tempo todo, sem nunca responder às cotidianas provocações que partiram do Ministro, com o único intuito de não aumentar os problemas que já vivíamos. Uma autoridade de aviação civil possui uma responsabilidade imensa, com trabalhos cotidianos de Importância vital para o paiS, dai a necessidade de que este organismo não fique, sequer, um dia acéfalo, e foi, exclusivamente, esse espírito publico que me manteve até aqui.   Por fim, desde ontem, com a chegada de dois novos Diretores, senti-me liberado destas responsabilidades, dando-me a tranqüilidade necessária para a tomada desta decisão.   Receba meus agradecimentos pela sua confiança e meu apreço por Vossa Excelência.   Saudações,   Brasília, 31 de outubro de 2007. Milton Zuanazzi"  

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