Zuanazzi: pacote de Lula não é solução

Para ele, ações podem sobrecarregar Cumbica

Luciana Nunes Leal, BRASÍLIA, O Estadao de S.Paulo

07 Julho 2026 | 00h00

Cinco dias depois de o Conselho de Aviação Civil (Conac) passar por cima da Anac e baixar um pacote de medidas para desafogar o Aeroporto de Congonhas, o presidente da agência, Milton Zuanazzi, criticou a ação. Ontem, na CPI do Apagão Aéreo da Câmara, ele disse que as novas regras dificilmente resolverão o problema do tráfego excessivo nos aeroportos de São Paulo e existe o risco de o Aeroporto de Cumbica ficar sobrecarregado. "É evidente que vão ocorrer problemas." Apesar de questionar o efeito prático das medidas, Zuanazzi ressalvou que a agência "tem obrigação de cumprir as resoluções do Conac". Afirmou ainda que as mudanças são específicas para reduzir a sobrecarga em Congonhas. "As aeronaves vão continuar as mesmas. Os aspectos de segurança serão mantidos intactos. O Aeroporto de Congonhas estava sobrecarregado e isso vai diminuir." No depoimento, marcado por momentos de tensão e pela pressão de deputados, o presidente da Anac se eximiu de responsabilidades no acidente com o Airbus da TAM e no caos aéreo. Disse que a liberação da pista principal de Congonhas, onde ocorreu o acidente que matou 199 pessoas em 17 de julho, foi responsabilidade da Infraero, a estatal que administra os aeroportos, pois não é função da Anac fazê-lo. "A autorização não cabia à Anac. Deixamos de ter culpas primárias. Nós fiscalizamos e regulamos, não executamos", argumentou. Zuanazzi classificou de "críticas desumanas" as acusações de que a Anac atendeu a interesses das empresas ao permitir movimento acima da capacidade de Congonhas. E comparou as medidas para limitar as atividades de Congonhas com outras mudanças. "No Rio, foi fácil levar os vôos do Aeroporto Santos Dumont para o Galeão. Em Belo Horizonte, foi mais fácil levar do Aeroporto da Pampulha para Confins, porque os aeroportos (que receberam mais vôos) estavam ociosos. Em São Paulo, não há ociosidade." E voltou a insistir em que sua agência não tem culpa no caos aéreo. "É culpa da Anac ter permitido que o interesse econômico se sobreponha ao aeronáutico? Se acharem que sim, estão culpando quem não tem culpa", defendeu-se, dizendo que compartilha com a Aeronáutica e a Infraero a responsabilidade pela autorização de novos vôos em Congonhas. "Não autorizamos sem o OK desses órgãos." O pacote do Conac para Congonhas representou uma intervenção branca na Anac. Desde a colisão do avião da Gol com o Legacy, em setembro, a agência era pressionada a tomar providências. As medidas do Conac incluem a proibição de escalas e conexões em Congonhas, a redução no peso máximo dos aviões e o fim dos pousos e decolagens de vôos charter e fretados em Congonhas. Na CPI, Zuanazzi chegou a fazer ironia: "É impossível eu exigir que alguém que quer ir para São Paulo pare no Rio. Ele vai ter que chegar a São Paulo." Em vários momentos do depoimento, ele disse que a solução para São Paulo seria fazer mais um aeroporto. O momento mais tenso do depoimento de quase cinco horas aconteceu quando Vic Pires Franco (DEM-PA), que lia as atribuições legais da Anac, repreendeu o presidente por ter rido. "Gostaria que o senhor não risse", disse o deputado. "Me respeite", reagiu Zuanazzi. Outro momento tenso foi quando Sabino Castelo Branco (PTB-AM) responsabilizou a Anac pelo acidente. "As mortes estão sobre suas costas", atacou o petebista. "Não vou responder. A Constituição lhe dá inviolabilidade do mandato. Se não, eu pediria que o senhor provasse", rebateu Zuanazzi. "É impossível eu exigir que alguém que quer ir para São Paulo pare no Rio. Ele vai ter que chegar a São Paulo." Milton Zuanazzi Presidente da Anac

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