Zuanazzi: vão tirar o direito de pobre voar

Ex-presidente da Anac sai atirando contra a gestão de Jobim na Defesa

Luciana Nunes Leal e Tânia Monteiro, O Estadao de S.Paulo

01 de novembro de 2007 | 00h00

Depois de um ano e meio à frente da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), numa gestão marcada pelo caos aéreo, Milton Zuanazzi deixou ontem a presidência, acusando a Aeronáutica e a Empresa Brasileira de Infra-Estrutura Aeroportuária (Infraero) de não equiparem os aeroportos e o atual ministro da Defesa, Nelson Jobim, de promover "meras ações midiáticas" e de ser autor de "manifestações despreparadas" e de "discursos sem qualquer conteúdo técnico". Zuanazzi disse, ainda, que Jobim está promovendo "um jogo pobre, que tanto mal tem feito ao Brasil" e o ministro tem "uma agenda oculta". Ressaltou ainda que o ex-chefe está tirando dos pobres o direito de voar pelo País. Para Zuanazzi, ele deixa o cargo no momento certo. "Eu não gostaria de sair escorraçado. Queria prestar contas ao Brasil do que foi feito", afirmou. Zuanazzi criticou o ministro e a Aeronáutica na entrevista coletiva de despedida, concedida na sede da Anac. Mas foi na carta enviada ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva que foi mais duro. Disse ao presidente que sempre defendeu a criação da Secretaria de Aviação Civil, mas o ministro da Defesa a criou apenas como "um instrumento subalterno, menor, sem qualquer ação articuladora". Como se estivesse fazendo uma denúncia, Zuanazzi escreveu que Jobim só está "criando alguns cargos de confiança para assessoramento inferior", e, ao mesmo tempo, demitindo aqueles que entendem de aviação no Ministério da Defesa. INFRA-ESTRUTURAO ex-presidente da Anac também foi explícito: ele não vê problemas de infra-estrutura na aviação, mas de carência de equipamentos nos aeroportos. Disse que as medidas defendidas por Jobim para o setor vão impedir os mais pobres de voar, porque reduzirão a oferta de vôos e de assentos e aumentarão os preços das passagens. Zuanazzi se contrapôs ao diagnóstico de Jobim de que as empresas aéreas atendem mal os passageiros porque aumentaram a oferta de passagens além da capacidade de prestar o serviço. Para o ex-presidente da agência, as companhias operam satisfatoriamente. "Estou saindo porque não gostaria de trabalhar com ele (Jobim). Tenho divergências bastante profundas com o que ele está querendo para a aviação brasileira. Acho que ele adotou um conjunto de restrições temerárias. Temo que haja restrição de oferta, temo que haja crescimento de preço, temo que haja diminuição de horas de vôo, empurrando aumento de passagens, e isso impeça a classe média baixa, as pessoas mais simples e mais pobres do Brasil, de voar." Zuanazzi rebateu as afirmações do ministro Jobim de que a Anac permitiu que as empresas aumentassem o número de passageiros sem oferecer em troca vôos pontuais e seguros. Para ele, "crises pontuais" provocaram caos nos aeroportos. Zuanazzi disse que Jobim "não conhece" o setor aéreo e errou ao atribuir à Anac a responsabilidade pela sobrecarga do aeroporto de Congonhas. Para ele, o aumento da demanda, com lucratividade das empresas, é um ponto positivo. Na avaliação de Zuanazzi, os atrasos constantes dos vôos não são causados pela incapacidade das empresas de atender a demanda, mas por falta de equipamentos que permitam, por exemplo, que aviões e aeroportos operem durante o mau tempo. "Como pode reduzir a oferta com aumento de demanda? Já viu onde os preços vão parar. Nunca queiram ter empresas aéreas que não tenham lucro. Não faço o jogo das empresas. Faço o jogo do usuário. As empresas estão voando com lucro, os preços estão caindo, vivemos um bom momento de atividade operacional e capacidade de atender a demanda." Sem citar o nome de Jobim, ele aprofundou as críticas. "Tem uma agenda oculta que não quer que o País cresça, que o pobre ande de avião. Discutir o tamanho do assento para toda a aeronave é aumentar preço", afirmou, em referência à reclamação do ministro de que o espaço entre as poltronas é muito apertado. "Essa agenda oculta tem de aparecer. Atenção, cidadão, você que nunca conseguiu viajar de avião, estão querendo que você não voe." E lembrou, sem citar o nome, a criação do movimento "Cansei", que reuniu pessoas irritadas com o caos nos aeroportos. "Até um movimento foi criado, depois acabou. O debate tem de deixar de ser oculto e ser honesto: ?eu não gosto de pobre em aeroporto?. Tem de chegar e falar."Zuanazzi ainda atribuiu a falta de fiscalização das empresas e dos aeroportos ao número reduzido de funcionários e culpou o governo Fernando Henrique Cardoso, que optou por fazer apenas contratações temporárias para o setor. "Recebemos o setor de multas com quatro funcionários (concursados). E três se aposentaram." GESTÃO CONTURBADAMarço de 2006Posse sob críticasPrimeiro civil com cargo de comando na aviação brasileira, o gaúcho Milton Zuanazzi toma posse como diretor-presidente da Anac, indicado pela ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff. Ele recebe críticas de militares do extinto Departamento de Aviação Civil (DAC) por não ter experiência no setor aéreo.Novembro de 2006Atrito com empresasO diretor da Anac defende a redistribuição de vôos para desafogar os horários de pico. A proposta causa insatisfação das empresas. Segundo Zuanazzi, "não dá para garantir que a crise terá terminado até o fim do ano (passado) porque não tem controlador de vôo) na esquina."Abril de 2007?Não há crise?Em audiência na Câmara dos Deputa dos, Zuanazzi afirma que a situação do setor aéreo é superdimensionada. "A crise do transporte aéreo está longe de ser uma crise. Crise foi a que superamos a partir de 2004", diz, insistindo que o Brasil viveu crise aguda de 1999 a 2003. Ironizado por muitos parlamentares, afirma ter sido mal interpretado. No dia seguinte, em audiência no Senado, reconhece que o setor vive "grandes dificuldades".Julho de 2007HomenagemTrês dias após o acidente com o Airbus da TAM em Congonhas, Zuanazzi e outros três diretores da Anac são condecorados pela Aeronáutica com a medalha de mérito Santos Dumont, por serviços prestados à aviação brasileira. O episódio causa constrangimento dentro do governo.Agosto de 2007TrapalhadasRecém-empossado ministro da Defesa, Nelson Jobim articula a saída de toda a diretoria da Anac, acusada de ineficiente. Ele se irrita com Zuanazzi ao saber que inspetores americanos fariam uma vistoria em Congonhas, sem que o ministério tivesse sido consultado. Em outra ocasião, demonstrando falta de comando, ele consulta Jobim por telefone para saber o que fazer no caso da implosão do prédio da TAM Express, atingido pelo Airbus da TAM.Outubro de 2007ResistênciaA pressão para a saída de Zuanazzi aumenta com a renúncia dos outros quatro diretores da Anac. Uma semana antes de deixar o cargo, ele ainda diz que permaneceria no cargo até quando fosse a vontade do presidente Lula.

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