Zuleika, a pioneira da promotoria

Disposta a enfrentar preconceitos, ela se tornou a primeira mulher admitida no Ministério Público

José Maria Tomazela, O Estadao de S.Paulo

10 de maio de 2009 | 00h00

"Tenho suco e vinho do Porto, mas tome suco, porque você está trabalhando." A frase não deixa dúvida. Estamos diante de uma promotora pública. E não qualquer uma. Hoje com 97 anos, Zuleika Sucupira Kenworthy foi a primeira mulher a ingressar no Ministério Público, numa época em que a carreira era exclusivamente masculina. Pioneira em São Paulo, no Brasil e na América Latina, foi também a primeira procuradora do Estado. Forte, lúcida e um pouco surda - conversa de frente para ler os lábios do interlocutor -, seus olhinhos vivos e esverdeados brilham com as lembranças dos 32 anos de promotoria - dez nos "cafundós" do interior. Quando foi transferida, ficou sabendo que as mulheres proibiam os maridos de falar com ela. "Achavam que advogada não era boa coisa, era mulher livre." Em Martinópolis, teve de intervir na briga do juiz com um tabelião. "O juiz socou o tabelião e o ameaçou com uma arma." Em Pirajuí, ajudou a pôr na cadeia outro juiz que se envolvia com menores. Em Piraju, enfrentou sozinha 200 trabalhadores rurais que pretendiam saquear a cidade por não receber salário. "Pus o revólver na bolsa e fui de caminhão à fazenda onde estavam armados com porretes. Tomaram um susto. Mostrei que o dinheiro estava no fórum." Zuleika não precisava passar por isso. Os Kenworthy, industriais de Manchester, Inglaterra, tinham vindo ao Brasil fundar um império têxtil, mais tarde conhecido como Companhia Nacional de Estamparia. Ela nasceu rica, cresceu bonita e culta, falava várias línguas. E decidiu enfrentar o preconceito. "Promotor era profissão de homens, mas era o meu sonho." Formada na Faculdade de Direito do Largo de São Francisco com boas médias, ela prestou concurso três vezes. Na primeira tentativa, fez uma prova tão boa que um dos examinadores ficou desconcertado. "Ele não esperava aquele desempenho de uma mulher." Não entrou. No segundo concurso, com 12 vagas, ficou em 13º lugar. "Diziam para desistir, mas disse: ?vou conseguir, nem que seja com 60 anos?." No terceiro, foi perfeita. "Quando vi meu nome na lista, quase explodi de alegria." Depois de aprovada, ainda teve de ouvir de um procurador que, se ele estivesse na banca, ela não teria passado. "Respondi: o senhor ainda vai ver como uma mulher pode ser bom promotor. Era João Batista de Arruda Sampaio, que depois se tornou um grande amigo." HISTÓRIATudo começou na Inglaterra do século 19. Com a saúde abalada pelo clima frio, o avô John Kenworthy decidiu vir ao Brasil com um amigo. "Desembarcaram no Rio, em plena epidemia de febre amarela. O amigo tratou de voltar, mas meu avô ficou." Após montar fábricas de tecidos para outros empresários em Tatuí e Jundiaí, onde ela nasceu, ele decidiu construir a sua, em Sorocaba. "É a fábrica Santo Antônio, que ainda existe. Ele fez tudo, desde o alicerce."Na sala com móveis franceses elegantes, que acompanham a família há 80 anos, ela vai lembrando dos detalhes. Quadros de artistas famosos dividem a parede com retratos e diplomas, como um entregue por d. Pedro II a Carolino Bolivar d?Araripe Sucupira, seu avô materno. "Ele o ganhou após lutar com bravura na Guerra do Paraguai." A casa da aposentada, de estilo inglês, fica imersa num jardim que faz fundos com a casa da sobrinha, Monica. É quase uma mansão, mas seu patrimônio veio da família, não dos 32 anos de Ministério Público. Com a morte do pai, George, em 1921, a mãe de Zuleika, Mary Powell Kenworthy, se mudou para São Paulo com os sete filhos. Ela morava na Aclimação e estudou num colégio interno. "Quis ser promotora de tanto ver fitas de júri. Quando o filme estava quase terminando, o advogado descobria algo e soltava o réu. Saía danada de raiva do cinema."Na profissão, ajudou a condenar muitos bandidos, mas nunca foi ameaçada. "Conversava com eles, tentava ajudá-los. Perguntava se estavam com raiva da promotora, eles diziam que não." Em 1954, já trabalhando em São Paulo, passou a ser curadora de menores. "Tinha só um promotor, eu era auxiliar. Atendíamos mais de 20 crianças por dia, envolvidas em todo tipo de problema." Na época, todo adolescente que praticava delito no Estado era internado em São Paulo. "Tínhamos depósitos de menores. Os guardas eram pessoas que estavam prestes a se aposentar e não queriam problema. Os menores saíam à noite para roubar e voltavam de madrugada. Falei ao promotor: não podemos continuar desse jeito. Ele disse que não dava para fazer nada, mas eu respondi. Se a gente não fizer nada agora, vai arcar com as consequências na frente." Foi assim que São Paulo criou o recolhimento provisório para infratores de 14 a 18 anos e o serviço social de menores. Ela se lembra bem do Joinha, um garoto que assombrava a capital. "Malvado, ele roubava, destruía. Era especialista em atacar postos de gasolina. Rendia o guarda, amarrava e jogava no mato mais próximo." Um dia ela soube que o adolescente havia sido levado ao fórum e mandou que o trouxessem à sua presença. "Ele tinha oito nomes falsos. Pedi que tirassem as digitais. Descobri que ele não tinha 14 anos como dizia, mas 17. Aí falei que, na próxima, iria para o xadrez. O moleque sumiu." Seu trabalho foi reconhecido: em 1963, representou o Brasil no encontro sul-americano sobre criminologia e prevenção da delinquência promovido pela Organização das Nações Unidas. Dois anos depois, foi convidada para o congresso da ONU sobre o tema em Estocolmo, Suécia. "Paguei minha passagem", lembra. Na última sessão, escolhida para fazer o relatório final, surpreendeu os presentes discursando em francês.Zuleika também dirigiu o Instituto Latino Americano de Criminologia em São Paulo. Após se aposentar, em 1978, três anos após ser promovida a procuradora da Justiça, dedicou-se à música, como regente de corais na Basílica do Carmo, na Paróquia de Santo Agostinho e na Igreja de Sant''Ana, no Alto da Boa Vista. Também seguiu prestando assistência judiciária gratuita no Fórum de Santo Amaro. Depois vieram as honrarias: o Colar do Mérito Judiciário, o Colar do Mérito Institucional do Ministério Público paulista, convites. Atualmente ela se dedica a montar, numa ampla sala de sua casa, um quebra-cabeças com 5 mil peças. "É recomendação médica. Para estimular o cérebro", explica. Há pouco tempo também conseguiu realizar um sonho de criança: ser escoteira. Foi admitida em 2003, numa solenidade no Batalhão da PM de Sorocaba. "Estava de uniforme completo, inclusive as calças curtas. E o prefeito me entregou o lenço azul e vermelho." Engana-se quem pensa que a roupa foi para um baú. "Está pronta para ser usada."

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