Marcos Arcoverde/Estadão
Marcos Arcoverde/Estadão

2ª noite de Sapucaí traz o embate de tradição e inovação

Principais apostas estão em Mangueira, Portela e Tijuca; os enredos focam em questões culturais para conquistar o sambódromo carioca

Roberta Pennafort, O Estado de S.Paulo

27 Fevereiro 2017 | 03h00

RIO - No segundo dia de desfiles do Grupo Especial do Rio, a Mangueira tentará o bicampeonato com o enredo Só com a ajuda do santo, que se originou na comovente homenagem feita em 2016 a Maria Bethânia e a sua religiosidade. Aos 89 anos, a Verde e Rosa já foi bicampeã quatro vezes, sendo a última em 1986/1987 – exatamente há três décadas.

A Portela, que tem o carnavalesco Paulo Barros, um dos inovadores do carnaval carioca no século 21, falará de rios e dos aspectos culturais e sociais que emergem deles. Já a Unidos da Tijuca fará uma viagem musical dos Estados Unidos para o Brasil, tendo como ponto de partida o encontro entre Louis Armstrong e Pixinguinha, em 1957.

As três escolas são os destaques desta noite – as outras três agremiações, a União da Ilha, a São Clemente e a Mocidade, têm menos torcida e um número menor de troféus. Em mais um ano de crise econômica, todas passam pelo mesmo problema: a dificuldade de levantar recursos para os desfiles. 

Sem patrocínio de empresas, nem do governo do Estado, tampouco da Petrobrás, as escolas receberam bem as novas regras da Liga Independente das Escolas de Samba (Liesa), que levaram à redução de alegorias e componentes. O objetivo é dinamizar os desfiles. Só do Estado do Rio, atualmente em crise financeira e com salários atrasados, e da petroleira, que antes de registrar prejuízos apoiava regularmente o carnaval, cada agremiação deixou de receber R$ 1,5 milhão.

O carnavalesco da Mangueira, Leandro Vieira, acredita que seu enredo tem “a cara da escola”, e, por isso, deve conquistar a Sapucaí. “Quando a Mangueira se coloca no papel de porta-voz da cultura popular, fica em sua zona de conforto, e aí nenhuma escola consegue alcançar o mesmo patamar”, diz. Aos 32 anos, Vieira é o mais jovem carnavalesco da avenida e tenta se afastar da pressão por uma nova vitória. “Tento não me colocar nesse papel de campeão.”

Morte. A Portela vem de um período conturbado. Há cinco meses, seu presidente, Marcos Falcon, então candidato a vereador, foi assassinado dentro de seu comitê de campanha. Foi substituído pelo vice, Luis Carlos Magalhães. “Vamos dar a volta por cima mergulhando nas águas doces e na força dos rios, como o Nilo e o São Francisco”, afirma o presidente.

Enquanto isso, a Tijuca revisita um assunto já tratado ontem pela Vila Isabel, a música negra do continente americano. A diferença é que o percurso da Vila era maior, pelas Américas Central e Latina. A Tijuca faz uma ponte aérea direta EUA-Brasil, com menções a ritmos de base negra, como o rock, o jazz, o blues, o pop e o gospel. 

Da lâmpada dos desejos da Mocidade, que ambientou seu carnaval nas areias dos desertos do Marrocos, o carnavalesco Alexandre Louzada quer tirar um lugar no desfile das campeãs. Por fim, São Clemente e a União da Ilha trarão dois enredos de difícil pronúncia, mas – prometem – de fácil identificação. São Onisuáquimalipanse, uma versão carnavalizada dos desmandos do rei francês Luiz XIV, e Nzara Ndembu, uma visão africana sobre a relação entre o tempo e o universo.

Tecnologia. Carnavalesco-sensação no ano passado, quando comemorou dez anos de carreira com um campeonato pela Mangueira, Leandro Vieira tem uma visão particular dos desfiles das escolas de samba. “Para mim, desfile está completamente afastado da lógica do espetáculo, do entretenimento. O que quero fazer é o carnaval da cultura popular, como o bumba meu boi, a folia de reis, a cavalhada. Tecnologia é algo que não determina meu carnaval. E fico feliz que a Mangueira tenha sido campeã sem essa parafernália”, diz ele.

O artista plástico é fã dos veteranos Rosa Magalhães (sete vezes campeã) e Renato Lage (seis vezes), com 40 anos de experiência e a mesma linha de trabalho.

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