Fabio Motta/Estadão
Fabio Motta/Estadão

'A gente só conseguiu um saco de supermercado para os ossos carbonizados', diz mãe de policial morta

Violência também atinge policiais civis e leva mães de agentes a criar associação

Constança Rezende, O Estado de S.Paulo

26 Agosto 2017 | 12h40

RIO - Zoraide Vidal perdeu sua filha policial civil, Ludmila Fragoso, quando ela tinha 24 anos. Ela havia passado para a corporação havia quatro anos e acabara de descobrir que estava grávida. Mas sua condição não foi suficiente para comover os criminosos que em 2006 a levaram para a favela Parque Estrela, em Magé, onde, a torturaram até matar. Depois, puseram a policial dentro de um carro e o incendiaram fogo.

Segundo Zoraide, Ludmila vinha trabalhando em uma investigação relacionada a políticos da Baixada Fluminense e vinha sendo ameaçada. "Ela pediu para não morrer porque estava grávida. Era o primeiro filho. Para você ver a destruição que fizeram , ela era uma mulher de  tinha 1,78 m, a gente só conseguiu um saco de supermercado de ossos carbonizados. Eles não se conformaram apenas em matar, ainda tacaram fogo no corpo", disse.

A dor de Zoraide a fez criar a Associação Mãe de Polícia (Amapol), que busca apoio para as famílias que perdem os servidores nesta situação. Entre as associadas, está Francilene Pinheiro, mãe de Thiago Pinheiro, também morto em 2006, na véspera de Natal, aos 26 anos. Era o seu filho único. Thiago foi reconhecido como policial em um assalto em Quintino. Os bandidos nada fizeram com as outras quatro pessoas que estavam no carro.

"Thiago fez concurso escondido. Quando ele me disse que queria ser policial civil, eu disse para ele que não criei filho para isso. Mas ele tinha uma paixão pela corporação, ele disse que queria trabalhar para mudar a imagem da Polícia. Mas não deu tempo. No depoimento do bandido, ele mesmo disse que matou o Thiago só porque era policial", disse Zoraide.

Já Aletéia Calazans perdeu o marido, Ramires Hering, em 2013, durante um assalto a ônibus, na Avenida Brasil. Ramires, que tinha 49 anos, fora policial militar, e faltavam três anos para se aposentar como policial civil. Segundo Aletéia, seu marido tentou reagir à abordagem e rendeu um dos traficantes, mas um segundo o golpeou por trás e deu três tiros em seu abdômen.

"Ele queria sair da corporação, estava vendo como estava ficando difícil a situação dos policiais. Todos os dias ele chegava em casa contando uma história trágica. O Estado faz cursos para policiais para substituir os que foram mortos, mas se esquecem os que já se foram e de suas famílias",  desabafa a viúva.

A crítica a ausência do Estado é reforçada pelo fato que aconteceu com Zoraide, mãe de Ludmila, um ano após a sua morte. Ela recebeu um cartão de aniversário do estado com a foto do então governador, Sérgio Cabral Filho (PMDB), sorridente, dando parabéns a servidora. "Isto é para ver que eles não têm nenhum controle do que acontece com os policiais, mesmo. Além disso, ainda aumenta a nossa dor", disse.

Procurada para se manifestar sobre a morte dos policiais, a Secretaria de Segurança Pública do Rio não se pronunciou.

 

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