Mauro Pimentel/AFP
Mauro Pimentel/AFP

‘A intervenção no Rio não privilegia presença de tropas nas ruas. É gerencial’, diz general

Assassinato de Marielle reforça necessidade da ação federal, diz general; um dos objetivos é integrar órgãos policiais

Entrevista com

Walter Braga Netto, general do Exército e interventor federal

Roberta Jansen, O Estado de S.Paulo

19 Março 2018 | 03h00

RIO - Interventor na segurança do Rio, o general Walter Braga Netto acredita que o assassinato da vereadora Marielle Franco (PSOL), na última quarta, reforça os objetivos da ação federal no Estado, como reduzir a criminalidade. Apesar da expectativa da população em ver tropas na rua, ele destaca que a ação é “gerencial”, para construir um modelo de integração e melhorar o desempenho na segurança. A intervenção completou 30 dias na sexta, com resultados considerados modestos e sob impacto da morte de Marielle, dois dias antes. 

Pouco à vontade com entrevistas, ele tem evitado a imprensa e faz raras aparições públicas. Uma delas ocorreu no sábado passado durante ação comunitária na favela Vila Kennedy, zona oeste, escolhida como “laboratório” pelos interventores. O Estado tentou conversar pessoalmente com Braga Netto, mas o Exército informou que ele não tinha agenda disponível e autorizou seis perguntas por e-mail.

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De que forma o assassinato de Marielle desafia a intervenção?

Acontecimentos lamentáveis como este reforçam os objetivos da intervenção federal: reduzir os índices de criminalidade e fortalecer os órgãos de segurança pública no Estado. A equipe por mim nomeada lidera as investigações deste crime hediondo e, em breve, trará os resultados que todos esperamos, com a identificação e a prisão dos responsáveis.

A expectativa da população era por uma intervenção mais visível, com a presença maciça de militares nas áreas mais conflagradas, muito embora intervenções assim já tenham acontecido antes sem grandes resultados. As Forças Armadas estão tentando um modelo novo de intervenção? 

A expectativa da população, que anseia maior sensação de segurança, é compreensível. Entretanto, a intervenção na segurança do Estado não privilegia a presença de tropas nas ruas. É intervenção gerencial. Estamos trabalhando para construir um modelo de gestão de segurança pública que fortaleça e assegure a integração dos órgãos envolvidos e crie condições para o melhor desempenho possível de cada um desses órgãos. As instituições de segurança do Estado, civis ou militares, precisam trabalhar juntas. E também estar alinhadas com as instituições municipais e federais. No curto prazo, esperamos que esse modelo proporcione melhora gradativa nos indicadores criminais. E, no longo prazo, que tenha perenidade.

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A Vila Kennedy foi escolhida como “laboratório” da intervenção. Houve alguma razão particular para isso? 

A Vila Kennedy reúne características que a transformaram num “case” na área de segurança e num projeto-piloto de ação integrada. A ousadia dos criminosos entrincheirados naquela comunidade, que obrigavam moradores a reconstruir as barreiras para obstruir a circulação de veículos nas vias de acesso internas, foi uma delas. Além disso, a Vila Kennedy representa uma área concebida para abrigar um bairro popular, que acabou se degradando com a invasão de facções, desordem urbana, ausência de serviços públicos essenciais. Estamos mobilizando instituições de diferentes setores e de esferas - municipais, estaduais e federais - para reverter esse cenário. Vale reforçar que não alcançaremos resultados concretos em longo prazo envolvendo só instituições da área de segurança. Os moradores da Vila Kennedy, como os de qualquer outra comunidade, têm o direito de viver como os cidadãos de bairros regulares.

Outras comunidades deverão ser ocupadas num segundo momento?

As futuras ações serão realizadas tendo a Vila Kennedy como modelo, obviamente respeitando especificidades. Mas não seria conveniente revelarmos datas e locais. O Comando Conjunto, integrado pelas Forças Armadas e as forças policiais estaduais têm um planejamento que privilegia os princípios da oportunidade e da surpresa. 

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Muitos especialistas em segurança já apontaram a necessidade de uma atuação menos focada no embate direto dentro das comunidades e mais voltada ao combate ao tráfico de drogas e armas em outros frontes, com outros métodos. Isso está sendo levado em conta? O que está sendo planejado neste sentido?

O planejamento estratégico desenvolvido no início do processo da intervenção federal contempla ações nas duas pontas. Temos de combater o tráfico de armas e de drogas desde as fronteiras com outros países até as comunidades, que são utilizadas pelas facções criminosas como base. As ações nas fronteiras e em outros Estados estão sendo coordenadas pelos Ministérios da Segurança Pública e da Defesa. No ano passado, as polícias Militar e Civil do Estado apreenderam mais de 400 fuzis e milhares de outras armas de fogo. Precisamos continuar apreendendo armas aqui no Rio, mas não podemos deixar que o arsenal dos criminosos seja reposto.

O senhor já falou algumas vezes sobre a necessidade de uma ocupação social nas comunidades, seguindo a entrada militar. Esse, aliás, é apontado como o principal motivo para o fracasso das UPPs (Unidades de Polícia Pacificadoras): o fato de a ocupação social não ter ocorrido. Vai ser possível fazer isso agora?

Não vejo o programa das UPPs como um fracasso e, por isso, ele vai ser reestruturado e redimensionado. A própria experiência das UPPs indica que é preciso envolvimento maior de diferentes atores para que, após o controle do espaço que havia sido ocupado por criminosos, os serviços possam chegar à comunidade - coleta de lixo, saneamento, concessionária de energia elétrica, postos de saúde, escolas, ações de ordenamento urbano etc. Esse reconfiguração acaba atraindo investimentos da iniciativa privada, que criam emprego e renda para a comunidade.

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