Wilton Junior/Estadão
Wilton Junior/Estadão

Aberto há 132 anos, o tradicional Bar Luiz, no Rio, vai fechar as portas

Estabelecimento serve chope gelado e quitutes alemães; frequentadores lamentam

Marcio Dolzan, O Estado de S.Paulo

09 de setembro de 2019 | 18h59

RIO - Quando o Bar Luiz nasceu, em 1887, o Brasil ainda era um Império com escravos e economia agrária. Ao longo dos últimos 132 anos, sobreviveu enquanto o Brasil abolia a escravidão, proclamava a República, fazia a Revolução de 1930, se industrializava, enfrentava duas guerras mundiais, vivia as ditaduras Getúlio Vargas e militar, se redemocratizava (duas vezes). Agora, porém, parece ter chegado o fim para o salão comprido no número 39 da Rua da Carioca, no centro do Rio, onde se serve chope gelado e quitutes alemães famosos, como o bolo de carne e a salada de batatas. Reduto centenário da boemia de outros tempos, o Bar Luiz anuncia o seu fechamento definitivo para o próximo sábado, 14, seu último dia oficial de funcionamento.

Gerente do local, Emerson Coelho não quis dizer os motivos que estão levando o bar ao seu ocaso. “São vários, mas prefiro falar sobre as pessoas que não querem que ele feche, que são os funcionários e os clientes do Bar Luiz”, disse nesta segunda, 9, ao Estado. Quem conhece a rotina do local, porém, aponta quais seriam as razões. A clientela caiu drasticamente nos últimos anos, o preço das refeições – justamente por causa da qualidade – está acima da média oferecida em restaurantes próximos. E a Rua da Carioca onde o bar fixou endereço definitivo em 1927, hoje basicamente só serve para trânsito de veículos. O vasto comércio das redondezas fechou em sua maioria, por causa dos aluguéis altos e da crise econômica.

Ao longo da história, o Bar Luiz  teve diferentes nomes. Inicialmente, era Zum Schlauch , "À Mangueira" em alemão; depois foi Zum Alten Jacob, Ao Velho Jacob, homenagem ao fundador; em seguida, foi Bar Adolph, alusão a Adolf Rumjaneck, sucessor de Jacob. Essa pegada alemã quase lhe custou caro em 1942, quando submarinos da Marinha germânica afundaram navios civis brasileiros.

Estudantes percorreram a cidade, atacando alvos do “inimigo”. Foram ao então Bar Adolph, que só não foi quebrado, segundo a tradição, por intervenção do compositor Ary Barroso. Ele tomava o seu chopinho e impediu o ataque. Depois disso, o então proprietário, o austríaco Ludwig Vöit, mudou o nome para Bar Luiz.

O bar já teve entre seus clientes, no seu início, os escritores João do Rio e Olavo Bilac, e, nos anos 1960 e 1970, Sérgio Cabral, pai do ex-governador do Rio, e Jaguar. Sua clientela atual é formada basicamente por aqueles que o frequentam há muito tempo, em geral mais velhos.São pessoas que se encantam pelo ambiente simples. É um vasto salão com mesas e cadeiras totalmente de madeira, e com piso e paredes gastos que remetem à arquitetura da primeira metade do século passado. Também não  esquecem o sabor da costela defumada de porco e dos frios e salsichas. Nesta segunda-feira, 9, muitos desses apaixonados fizeram fila para almoçar naquela que pode ter sido a saideira do Bar Luiz.

“Venho ao Bar Luiz desde que eu tinha 15 anos. Frequentei com bastante regularidade, e é quase chorando que venho aqui pela última vez”, comentou a enfermeira aposentada Ivone Bulhões Forget, de 81 anos. “Gosto da história, da tradição e da comida. A salada de batata, o chope, os pratos alemães... E o ambiente é muito agradável.”

Atualmente morando em Maricá, Ivone foi ao bar assim que soube que ele está encerrando suas atividades. Queria ter uma última lembrança do local que frequentou por mais de seis décadas. “Ouvi desde muito cedo que perder a esperança é a suprema heresia. Perder a esperança não perco, mas, na atual conjuntura, com tudo fechando e com o anúncio de que o bar fecharia, por que não fecharia? Que milagre econômico ocorreria?”, indagou.

A mesma dúvida pairava sobre o engenheiro naval Fernando Bortoli, de 55, que há mais de três décadas frequenta o Bar Luiz. “Venho aqui desde 1987, na era pré-restaurante a quilo, que foi o grande causador de todos esses restaurantes acabarem ficando sem demanda”, contou. Nesta segunda, ele foi ao bar com outros dois amigos. “Gosto daqui pelas recordações, a comida é boa, tem bom serviço. Sai daquele padrão de restaurante fast-food e a quilo.”

Ponto de encontro. Professor da Universidade Federal Fluminense, Francisco Souza afirmou frequentar o Bar Luiz desde a década de 1970, e lamentou o anúncio de seu fechamento. “Eu estava aqui nos 100 anos do bar, vim aqui na época que tinha o (jornal) Pasquim aqui perto. Além de ser histórico, isso aqui é a fênix da resistência cultural carioca”, declarou. “O fechamento desse bar vem na mesma onda da morte das cidades. Há violência por todo lado, e as pessoas têm receio de sair de casa. Temos uma cidade que efetivamente está entregue.”

Outrora conhecido na noite carioca, o Bar Luiz só abre para o almoço. O motivo são os cortes que o gerente se viu obrigado a fazer.“Hoje nós temos somente oito funcionários, mas o bar chegou a ter 50. Quem ficou foi por aceitar um desafio e acreditar que um dia uma alma carioca com espírito de entretenimento e alegria pudesse nos ajudar”, comentou.

A esperada alma carioca, ao menos, deu as caras neste primeiro dia útil daquela  que pode ser a última semana do bar. Na segunda, o restaurante lotou e contou com fila de espera do lado de fora – o que fez com que o estoque de mantimentos não fosse suficiente para a demanda.

Entre os que foram lá almoçar estava o empresário Ottomar Grunewald, dono de um premiado restaurante no Rio. Ao fim do almoço, ele procurou o gerente do Luiz para oferecer ajuda. Prometeu enviar garçons, maître e o que mais fosse preciso já nesta terça-feira. “O bar é bom, ele só precisa de ajuda”, disse Otto, como é conhecido o empresário.

 

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