Marcos de Paula/Estadão
Marcos de Paula/Estadão

Ação na Providência foi 'bárbara' e PMs serão expulsos, diz Beltrame

Secretário de Segurança admite que episódio 'abala a credibilidade' do processo de pacificação; DHs vão investigar autos de resistência

Carina Bacelar, O Estado de S. Paulo

01 Outubro 2015 | 13h38

RIO - O secretário de Segurança do Rio de Janeiro, José Mariano Beltrame, admitiu que a alteração da cena de morte do jovem Eduardo Felipe dos Santos Victor e sua provável execução por policiais da Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) do Morro da Providência, na região central do Rio de Janeiro, "abala a credibilidade" do processo de pacificação.

Beltrame disse que considerou a ação dos PMs, flagrada em vídeo por uma testemunha, "um ato totalmente desastroso" e "bárbaro" e que os cinco agentes serão expulsos da corporação.

"A maneira que eu tenho de me desculpar com a população do Rio de Janeiro é colocando essas pessoas na rua. Não há outro tipo de alternativa ou de atitude a ser tomada", disse. "Vamos colocá-los na rua de maneira rápida, através de um processo administrativo. Essas pessoas não são dignas de participar de um projeto que está salvando vidas."

Beltrame disse que nesta quarta-feira, 30, foi ao Quartel Central da PM e pediu agilidade na investigação administrativa do episódio. Os cinco PMs, presos desde terça-feira, 29, no Batalhão Prisional, em Benfica, na zona norte, respondem também a inquéritos civis, que investigam a fraude processual e a morte do adolescente.

Mesmo com a gravidade do caso, Beltrame disse que o projeto das UPPs "segue adiante". Quando viu o vídeo pela primeira vez, pensou se tratar de uma "cena absurda". "É uma cena absurda, uma cena intolerável. Inadmissível isso conviver com um processo de pacificação", declarou.

Ironicamente, dois dias depois do caso, Beltrame participou, na manhã desta quinta-feira, 1º, de uma cerimônia de premiação de policiais de UPPs, oferecida pelo Instituto Mudando o Final.

Na cerimônia, menções a casos como a morte de Eduardo Victor não apareceram. Em vez delas, muitos elogios eram tecidos aos policiais. Os dois únicos comandantes de UPPs premiados foram o capitão Alexandre Lima Ramos, da UPP Alemão, e o capitão Jean Carlos Sanches, da Vila Cruzeiro. As duas comunidades, na zona norte, sofrem com constantes tiroteios entre PMs e traficantes. 

Autos de resistência. O chefe da Polícia Civil, Fernando Veloso, afirmou que os autos de resistência serão investigados pelas Delegacias de Homicídio tão logo elas recebam efetivo suficiente de policiais. Em fevereiro deste ano, quando foi criada a Divisão de Homicídios (que congrega as DHs da Baixada, de Niterói e do Rio), a iniciativa já havia sido mencionada por Veloso.

Os casos mais controversos que já estão em investigação também devem ser tirados das delegacias de bairro e transferidos para as DHs. 

"A Delegacia de Homicídios vai passar a assumir todos esses casos. O que a gente precisa é ter a estrutura necessária para fazer isso, para não comprometer o padrão de trabalho da DH. A gente está aguardando a nomeação de policiais. Tão logo a gente tenha o número mínimo necessário, as Delegacia de Homicídios vão tratar de todas essas ocorrências", disse.

Já há um estudo em curso para nortear a mudança, afirmou Veloso. "Essa investigação vai ter um aparato muito melhor. Temos várias delegacias pelo Estado, são 174. Nem todas têm condições de assumir uma investigação complexa.  A expectativa é de que a gente tenha um índice muito maior de elucidação desse tipo de caso", completou.

Investigação. O chefe da Polícia Civil confirmou que já foi elaborado um laudo de peritos, que, publicado pelo Jornal Extra nesta quinta-feira, aponta indícios de execução do jovem Eduardo pelos policiais da UPP. Legistas ouvidos pelo jornal afirmam que, antes de ser baleado, o adolescente estava deitado e foi agredido, possivelmente com uma coronhada. 

"O vazamento dessa informação pode ou não prejudicar essa investigação. Tomara que não", criticou. 

A principal testemunha da morte de Eduardo, a pessoa que gravou o vídeo flagrando a fraude dos policiais envolvidos, ainda não foi localizada. De acordo com Veloso, a Delegacia de Homicídios solicitou proteção para a testemunha.

"Os delegados responsáveis estão tentando contatar essa testemunha. A Delegacia de Homicídios está se esforçando ao máximo para que essa pessoa tenha a proteção que precisa ter do Estado. Eles já fizeram a interlocução necessária junto à Secretaria de Assistência Social."

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