Fabio Motta/Estadão
A Mocidade é a última escola a desfilar  Fabio Motta/Estadão

Segunda noite de desfiles no Rio é marcada pela crítica social

São Clemente, Vila Isabel, Portela, União da Ilha, Paraíso do Tuiuti, Mangueira e Mocidade passaram pelo sambódromo; apuração acontece na próxima quarta-feira, 6;

Fábio Grellet e Fernanda Nunes, O Estado de S.Paulo

04 de março de 2019 | 22h00
Atualizado 05 de março de 2019 | 13h48

A segunda noite de desfiles das escolas de samba do Rio de Janeiro foi marcada pela emoção e pela crítica social. As duas escolas de samba de maior torcida, Mangueira e Portela, arrebataram o público – a Verde e Rosa com uma homenagem à vereadora Marielle Franco, assassinada em março de 2018, e a Portela cultuando a cantora Clara Nunes (1942-1983). A Vila Isabel também fez bela exibição, mas foi a única das 14 agremiações a descumprir o limite de tempo: seu desfile durou 76 minutos, o que fará a escola perder 0,1 ponto, obrigatoriamente, já no início da apuração, que vai ocorrer na tarde desta quarta-feira (6).

União da Ilha e Mocidade estiveram parelhas, com qualidade inferior às três outras. São Clemente fez um desfile divertido, porém bastante simplório, e a Paraíso do Tuiuti teve problemas com dois carros alegóricos e deve perder pontos em quesitos como alegorias e adereços, evolução e harmonia.

O desfile que mais comoveu a plateia foi da Mangueira, que contou uma “nova” história do Brasil, reverenciando heróis populares em detrimento das personalidades que constam dos registros históricos. Dom Pedro I foi retratado com roupa de presidiário, enquanto índios e negros que lideraram revoltas contra a escravidão foram cultuados. Marielle foi homenageada na abertura e no encerramento.

A Portela cultuou Clara Nunes, contando sua infância em Minas, sua religiosidade e sua ligação com Madureira, berço da escola azul e branca. A Vila Isabel homenageou Petrópolis, enquanto a Mocidade discorreu sobre o tempo. A União da Ilha usou a vida e obra dos escritores Jose de Alencar e Rachel de Queiroz para homenagear o Ceará.

A São Clemente reeditou um enredo de 1990 para criticar a comercialização dos desfiles das escolas de samba e as mudanças impostas pelo poder financeiro. Vice-campeã em 2018, a Paraíso do Tuiuti contou a história do bode Ioiô, eleito vereador em Fortaleza em 1922, como resultado de um protesto popular. A escola decepcionou não com o enredo, mas com problemas nos carros alegóricos – um deles precisou ser parcialmente desmontado a poucos metros da pista do sambódromo.

Confira os melhores momentos:

Mocidade Independente de Padre Miguel 

Mocidade Independente de Padre Miguel encerrou o desfile das escolas especiais do Rio narrando a relação do homem com o tempo, as agruras e alegrias que a passagem das horas proporciona. Com o enredo ‘Eu sou o tempo, tempo é vida’, o carnavalesco Alexandre Louzada colocou na Marquês de Sapucaí toda sorte de metáforas relativas ao tema.

Estação Primeira de Mangueira 

Entre os nove quesitos que decidem a disputa entre as escolas de samba do Rio não está a emoção. Se estivesse, a Estação Primeira de Mangueira já poderia se considerar campeã de 2019. Sexta escola a se apresentar na segunda noite de desfiles, já ao amanhecer desta terça-feira, 5, a verde e rosa se equiparou a outras em fantasias e alegorias, mas arrebatou a plateia com uma comovente homenagem à vereadora Marielle Franco (PSOL), assassinada em março de 2018 no centro do Rio. A parlamentar era citada nominalmente no samba, o mais cantado deste carnaval.

Paraíso do Tuiuti 

A Paraíso do Tuiuti foi a quinta a desfilar na segunda noite de exibições no sambódromo do Rio, já na madrugada desta terça-feira, 5. Escola de pouca tradição na elite do carnaval carioca, a agremiação vive uma alternância de resultados: em 2017, o carro abre-alas se desgovernou quando entrava na pista do sambódromo e prensou contra as grades pessoas que estavam nas laterais.

União da Ilha 

E “Padim Ciço” sobrevoou a Marquês de Sapucaí sobre um drone, para abençoar a passagem da Ilha do Governador na avenidaO padroeiro nordestino voador foi o ponto alto do desfile da escola de samba, o quarto deste domingo, 4, de encerramento de disputa entre as agremiações do grupo especial. 

Portela 

Portela foi a terceira agremiação a se apresentar no sambódromo do Rio de Janeiro na segunda noite de exibições das escolas de samba do Rio, já na madrugada desta terça-feira, 5. A escola emocionou o sambódromo ao homenagear a cantora portelense Clara Nunes (1942-1983), um ícone da escola de Madureira (bairro da zona norte do Rio). Sob o comando da experiente carnavalesca Rosa Magalhães, a escola apresentou fantasias e alegorias luxuosas e bem acabadas. O único senão à exibição foi ter corrido um pouco, no final.

Unidos de Vila Isabel 

A Unidos de Vila Isabel, azul e branca do bairro de Noel, trouxe a família real e a cidade serrana de Petrópolis (RJ) à Marquês de Sapucaí. Com o enredo “Em nome do pai, do filho e dos santos – a Vila canta a cidade de Pedro” e assinatura do carnavalesco Edson Pereira, a escola narrou os tempos áureos do município fluminense, morada de verão de Dom Pedro II e descendentes, entre eles a Princesa Isabel . 

São Clemente 

Conhecida pelos enredos bem-humorados, desta vez a escola de Botafogo (zona sul) repetiu uma crítica que já havia apresentado em 1990 e que ficou ainda mais atual. O enredo "E o Samba Sambou" mostrou como a profissionalização do desfile impôs mudanças às escolas e o carnaval passou a ser regido pelo poder financeiro. O tema foi bem explorado, com fantasias e alegorias compreensíveis, mas a escola sofre exatamente com a falta de dinheiro. Sem luxo e bastante simplória, e ainda afetada por uma certa correria, a escola certamente não retorna no Desfile das Campeãs, que vai reunir no próximo sábado (9) as seis escolas mais bem colocadas. 

 

Programação 

Segunda, 4 de março

21h15 – São Clemente. Enredo: "E o samba, sambou"

22h20 – Vila Isabel. Enredo: "Em nome do pai, do filho e dos santos, a Vila canta a cidade de Pedro"

23h25 – Portela. Enredo: "Na Madureira moderníssima, hei sempre de ouvir cantar um sabiá"

00h30 – União da Ilha. Enredo: "A peleja poética entre Rachel e Alencar no avarandado do céu"

01h35 – Paraíso do Tuiuti. Enredo: "O salvador da Pátria"

02h40 – Mangueira. Enredo: "História para ninar gente grande"

03h45 – Mocidade. Enredo: "Eu sou o Tempo. Tempo é vida" 

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São Clemente repete samba de 1990, faz crítica atual, mas peca pela simplicidade

Escola mencionou o prefeito do Rio, Marcelo Crivella (PRB), que cortou 75% da verba municipal distribuída às escolas; dos R$ 2 milhões entregues a cada uma em 2016 restaram R$ 500 mil neste ano

Fábio Grellet e Fernanda Nunes, O Estado de S.Paulo

05 de março de 2019 | 00h45

RIO DE JANEIRO - A segunda noite de desfiles das escolas de samba do Rio de Janeiro foi aberta às 21h30 desta segunda-feira, 4, quando a São Clemente iniciou seu desfile na Marquês de Sapucaí. Conhecida pelos enredos bem-humorados, desta vez a escola de Botafogo (zona sul) repetiu uma crítica que já havia apresentado em 1990 e que ficou ainda mais atual. 

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O enredo "E o Samba Sambou" mostrou como a profissionalização do desfile impôs mudanças às escolas e o carnaval passou a ser regido pelo poder financeiro. O tema foi bem explorado, com fantasias e alegorias compreensíveis, mas a escola sofre exatamente com a falta de dinheiro. Sem luxo e bastante simplória, e ainda afetada por uma certa correria, a escola certamente não retorna no Desfile das Campeãs, que vai reunir no próximo sábado, 9, as seis escolas mais bem colocadas. 

Logo na comissão de frente foi representada uma reunião dos dirigentes da Liga Independente das Escolas de Samba (Liesa), a entidade que organiza o desfile e controla a verba destinada ao evento. Seguiram-se críticas ao troca-troca de carnavalescos, intérpretes e outros profissionais entre as escolas, aos camarotes na Sapucaí organizados por empresas, que oferecem atrações musicais próprias e deixam as escolas em segundo plano, e até a ala das baianas entrou na dança: segundo o enredo, se faltar baiana para completar o número mínimo exigido pelo regulamento é possível “alugar” um mulher pra desfilar como baiana. Em um dos carros alegóricos, um pavão multicolorido representava a vaidade dos carnavalescos e demais profissionais do carnaval. Ao centro havia um ringue onde musas e rainhas brigavam para aparecer mais. Também foram ironizadas as credenciais tão valorizadas na Sapucaí e o exibicionismo nas redes sociais.

Em uma noite de desfiles que deve ser pontuada pela crítica política, a São Clemente largou na frente mencionando o prefeito do Rio, Marcelo Crivella (PRB), que cortou 75% da verba municipal distribuída às escolas: dos R$ 2 milhões entregues a cada uma em 2016 restaram R$ 500 mil neste ano.

Um carro alegórico propositalmente inacabado anunciava entre os 15 autores do imaginário samba-enredo da igualmente fictícia “Unidos do Conchavo” uma pessoa chamada “votei no bispo e me ferrei”. Outro carro alegórico, que saudava os antigos carnavais, exibia faixas onde se lia “alô prefeitura!!!” e “carnaval é nossa cultura” e “corte de verbas”. E foi só o início de uma noite de críticas políticas, das quais as mais intensas devem vir de Paraíso do Tuiuti e Mangueira. 

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Vila Isabel narra o verão da família imperial na cidade de Petrópolis com riqueza e samba no pé

Segunda escola a passar pelo sambódromo do Rio nesse último dia de disputa do grupo especial abriu o desfile com um ‘devaneio real’ na comissão de frente

Fernanda Nunes e Fábio Grellet, O Estado de S.Paulo

05 de março de 2019 | 00h47

A azul e branca do bairro de Noel trouxe a família real e a cidade serrana de Petrópolis (RJ) à Marquês de Sapucaí. Com o enredo “Em nome do pai, do filho e dos santos – a Vila canta a cidade de Pedro” e assinatura do carnavalesco Edson Pereira, a escola narrou os tempos áureos do município fluminense, morada de verão de Dom Pedro II e descendentes, entre eles a Princesa Isabel

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Segunda escola a passar pelo sambódromo do Rio nesse último dia de disputa do grupo especial, a Vila abriu o desfile com um ‘devaneio real’ na comissão de frente. Uma visita ao Palácio Imperial foi o pontapé ao espetáculo, que surpreendeu a plateia do início ao fim. O samba, truncado e de difícil compreensão, não provocou a adesão imediata do público. Mas à medida que as alas passavam, a grandiosidade dos carros, a riqueza de detalhes das fantasias e a exuberância das cores conquistavam.  

A escola iniciou o desfile com um baile-fantasma, um aperitivo do que estaria por vir: um conto de príncipes e princesas do passado, cheio de samba no pé, mas carregado também de modernidade. Na comissão de frente, um susto: um turista levita e desaparece, mágica de carnaval. A partir daí, um arco-íris desfilou pela Sapucaí, que assistiu com entusiasmo a cidade de Petrópolis sendo defendida com garra por cada integrante. 

Com as cores da Mata Atlântica, do verde ao roxo, o segundo casal de mestre-sala e porta-bandeiras, Jackson Senhorinho e Bárbara Dionísio fizeram jus à fantasia: um baile no jardim das borboletas. A chegada da modernidade, com a maria fumaça petropolitana, coube à Sabrina Sato, uma beleza à parte da escola. Mas, com tantos holofotes sobre ela e calçando um salto-agulha de dar inveja a qualquer passista, a musa parecia desconfortável. Sorte estar acompanhada por uma bateria de elite, própria de uma campeã.  

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Portela faz desfile luxuoso e empolga o público

Dona de uma das maiores torcidas dentre as escolas de samba do Rio, só rivalizando com a Mangueira, e embalada por um bom samba, a Portela contagiou o público e terminou o desfile muito aplaudida

Fábio Grellet e Fernanda Nunes, O Estado de S.Paulo

05 de março de 2019 | 02h20

A Portela foi a terceira agremiação a se apresentar no sambódromo do Rio de Janeiro na segunda noite de exibições das escolas de samba do Rio, já na madrugada desta terça-feira, 5. A escola emocionou o sambódromo ao homenagear a cantora portelense Clara Nunes (1942-1983), um ícone da escola de Madureira (bairro da zona norte do Rio). Sob o comando da experiente carnavalesca Rosa Magalhães, a escola apresentou fantasias e alegorias luxuosas e bem acabadas. O único senão à exibição foi ter corrido um pouco, no final. 

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Sete vezes campeã do desfile (em 1982, 1994, 1995, 1999, 2000, 2001 e 2013), Rosa Magalhães costuma ser muito didática e luxuosa em suas criações, e foi assim na exibição desta madrugada. Retratou o bairro de Madureira, que já recebeu até uma réplica da torre Eiffel, durante um evento na década de 1920. Na ocasião, a artista plástica Tarsila do Amaral visitou o bairro, e depois pintou um quadro em que a torre é retratada. Tanto o monumento francês como a passagem da pintora por Madureira foram mencionados no enredo – o segundo carro alegórico trazia a torre. 

Seguiram-se menções ao carnaval em Madureira e ao primeiro desfile da Portela, ocorrido em 1924. O setor seguinte retratou a vida de Clara Nunes, com ênfase em sua religiosidade e à sua origem mineira (ela nasceu no interior mineiro e viveu no Estado até 1965). Dona de uma das maiores torcidas dentre as escolas de samba do Rio, só rivalizando com a Mangueira, e embalada por um bom samba, a Portela contagiou o público e terminou o desfile muito aplaudida. 

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União da Ilha homenageia Ceará no carnaval do Rio de Janeiro

Neste ano, com o enredo ‘A peleja poética entre Rachel e Alencar no avarandado do céu’, do carnavalesco Severo Luzardo, a Ilha optou por homenagear dois cearenses de destaque nas letras – Rachel de Queiroz e José de Alencar

Fernanda Nunes e Fábio Grellet, O Estado de S.Paulo

05 de março de 2019 | 03h26

E “Padim Ciço” sobrevoou a Marquês de Sapucaí sobre um drone, para abençoar a passagem da Ilha do Governador na avenida. O padroeiro nordestino voador foi o ponto alto do desfile da escola de samba, o quarto deste domingo, 4, de encerramento de disputa entre as agremiações do grupo especial. 

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Em aparições de poucos minutos, o drone alcançava até 20 metros de altura. Sua passagem levava  o milagre à comissão de frente, como água em abundância no sertão e o renascimento de peixes. 

Neste ano, com o enredo ‘A peleja poética entre Rachel e Alencar no avarandado do céu’, do carnavalesco Severo Luzardo, a Ilha optou por homenagear dois cearenses de destaque nas letras – Rachel de Queiroz e José de Alencar. 

O regionalismo – das rendas, tecidos de chitão e bandeirinhas juninas – marcaram a apresentação. Com simplicidade, a agremiação apostou no artesanato, presente em praticamente todos os carros.   

A bateria, também fantasiada de Padre Cícero, inovou ao misturar samba, forró e xaxado, e inseriu até mesmo o triângulo e a sanfona ao conjunto de instrumentos. 

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Com problemas em dois carros alegóricos, Tuiuti decepciona no carnaval do Rio de Janeiro

Várias partes precisaram ser arrancadas às pressas, poucos metros antes do início da pista do sambódromo

Fábio Grellet e Fernanda Nunes, O Estado de S.Paulo

05 de março de 2019 | 04h23

A Paraíso do Tuiuti foi a quinta a desfilar na segunda noite de exibições no sambódromo do Rio, já na madrugada desta terça-feira, 5. Escola de pouca tradição na elite do carnaval carioca, a agremiação vive uma alternância de resultados: em 2017, o carro abre-alas se desgovernou quando entrava na pista do sambódromo e prensou contra as grades pessoas que estavam nas laterais. 

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O grave acidente matou uma radialista e feriu outras 31 pessoas. Em 2018, embalada por um belo samba e um inspirado enredo sobre escravidão e miséria, a escola conquistou o vice-campeonato, só perdendo para a tradicional Beija-Flor. Neste ano a escola voltou a decepcionar por conta dos carros alegóricos: dois deles tiveram problemas e causaram atrasos e problemas de harmonia e evolução. A última alegoria, aparentemente muito pesada para se deslocar pela pista, precisou ser parcialmente desmontada para ficar mais leve.

Várias partes precisaram ser arrancadas às pressas, poucos metros antes do início da pista do sambódromo. Devido aos problemas, agora a escola corre risco até ser rebaixada. A apuração acontece nesta quarta-feira, 6, no próximo sambódromo. As seis escolas mais bem colocadas voltam a se apresentar no próximo sábado, 9, quando ocorre o Desfile das Campeãs. 

Sob o comando do carnavalesco Jack Vasconcelos, o Tuiuti contou a história do bode Ioiô, que foi “eleito” vereador em Fortaleza em 1922, num protesto popular. A escola narrou a luta do povo para sobreviver diante da seca (uma delas, em 1915, havia sido especialmente severa), e mostrou como era Fortaleza naquela época. O carro abre-alas, ocupado por cerca de cem figurantes que encenavam sertanejos em fuga diante da seca, era gigantesco e mais propenso a ter problemas de mobilidade, mas atravessou a Sapucaí sem dificuldades. 

Houve duas menções ao momento político atual: uma ala em que pessoas fantasiadas de coxinhas (como ficaram conhecidos os críticos da esquerda) seguravam revólveres de brinquedo e o último carro alegórico (que precisou ser parcialmente desmontado), onde na parte traseira se lia a frase “ninguém solta a mão de ninguém”, que se popularizou entre os eleitores de esquerda após a eleição presidencial de 2018.

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Mangueira emociona com homenagem a Marielle Franco

Sexta escola a se apresentar na segunda noite de desfiles, já ao amanhecer desta terça-feira, 5, a verde e rosa se equiparou a outras em fantasias e alegorias, mas arrebatou a plateia com uma comovente homenagem à vereadora Marielle Franco

Fábio Grellet e Fernanda Nunes/RIO, O Estado de S.Paulo

05 de março de 2019 | 07h13

Entre os nove quesitos que decidem a disputa entre as escolas de samba do Rio não está a emoção. Se estivesse, a Estação Primeira de Mangueira já poderia se considerar campeã de 2019. Sexta escola a se apresentar na segunda noite de desfiles, já ao amanhecer desta terça-feira, 5, a verde e rosa se equiparou a outras em fantasias e alegorias, mas arrebatou a plateia com uma comovente homenagem à vereadora Marielle Franco (PSOL), assassinada em março de 2018 no centro do Rio. A parlamentar era citada nominalmente no samba, o mais cantado deste carnaval.

Marielle foi figura central de um enredo que elogiava heróis populares brasileiros não reconhecidos na maioria dos livros didáticos e demais registros históricos. O auge da comoção ocorreu na parte final do desfile, onde correligionários, familiares e apoiadores da vereadora balançavam bandeiras com retratos de Marielle e outras lideranças populares, enquanto outros carregavam uma imensa bandeira do Brasil onde o lema positivista “ordem e progresso” foi substituído por “índios, negros e pobres”. Entre as pessoas que empunharam bandeiras figuram o deputado federal Marcelo Freixo e o vereador Tarcísio Motta, ambos do PSOL. Mônica Benício, viúva de Marielle, também desfilou, mas apenas com uma camisa que homenageava a parlamentar.

Outra menção a Marielle era feita na comissão de frente, que virava a história oficial pelo avesso: figuras históricas tradicionalmente reconhecidas, representadas como anões, eram substituídas por índios e negros. Na encenação, as novas personalidades erguiam uma menina que, representando Marielle, empunhava uma faixa onde se lia “presente”. O coro de “Marielle: presente” é uma forma frequente de homenagear a vereadora morta.

Entre a comissão de frente e o emocionante encerramento, a Mangueira alternou alas que representavam heróis populares e personalidades reconhecidas. Na primeira lista estão Cunhambebe, índio tamoio que liderou sua tribo contra a escravidão imposta pelos portugueses; o índio guarani Sepé, outra liderança que combateu os lusitanos; José Piolho e Tereza de Benguela, negros que lideraram um quilombo em Mato Grosso; Luiza Mahin, líder da Revolta dos Malês; Luís Gama, advogado, jornalista e abolicionista no Estado de São Paulo; e Chico da Matilde, cearense que combateu o tráfico negreiro no Ceará. Também tinha a cantora Alcione representando Dandara, mulher do Quilombo dos Palmares, este representado pelo também músico e presidente de honra da Mangueira Nelson Sargento.

As personalidades famosas foram retratadas com teor crítico: Pedro Álvares Cabral, cultuado como descobridor do Brasil, vestia uniforme de presidiário onde estava estampado o número 171 – menção ao crime de estelionato no Código Penal. Também foram ironizados o imperador Dom Pedro I e o marechal Deodoro da Fonseca.

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Mocidade encerra carnaval do Rio com Elza Soares como diva do tempo

Com o enredo ‘Eu sou o tempo, tempo é vida’, o carnavalesco Alexandre Louzada colocou na Marquês de Sapucaí toda sorte de metáforas relativas ao tema

Fernanda Nunes e Fábio Grellet / RIO, O Estado de S.Paulo

05 de março de 2019 | 07h21

A Mocidade Independente de Padre Miguel encerrou o desfile das escolas especiais do Rio narrando a relação do homem com o tempo, as agruras e alegrias que a passagem das horas proporciona. Com o enredo ‘Eu sou o tempo, tempo é vida’, o carnavalesco Alexandre Louzada colocou na Marquês de Sapucaí toda sorte de metáforas relativas ao tema.

No fim, passa ano sai ano, em 2019, mais uma vez o que marcou a agremiação foi a bateria. A escola ainda inovou com uma ‘paradinha’ diferente, logo no início do samba em vez de no refrão.

O tempo dos relógios analógico e digital; o relativo de Einstein; o moderno de Chaplin. O tempo que transformou a cantora Elza Soares em diva, inclusive da escola, e também o que escraviza os trabalhadores. Todos passaram pela avenida. Não faltou criatividade.

A escola só não calculava que se apresentaria em seguida a um desfile emocionante da Mangueira, que ao homenagear a vereadora assassinada Marielle Franco, esgotou as energias da plateia. O avançado da hora, já no amanhecer desta terça-feira de carnaval, também pesou. O resultado foi um desfile tecnicamente correto, porém, nem tão animado.

 

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