Acordo evita fechamento de cinemas no Rio de Janeiro

Grupo Estação, de filmes de arte, renegociou dívida, mas terá um mês para pagar R$ 8 milhões

Roberta Pennafort, O Estado de S. Paulo

05 Agosto 2014 | 19h03

RIO - Única rede de cinemas do Rio voltada a filmes de arte, e sob risco de falência por somar dívidas de R$ 31 milhões, o Grupo Estação está salvo - pelo menos por ora. Em assembleia realizada nesta terça-feira, 5, os credores aceitaram a proposta de perdoar 75% do montante. O pagamento dos 25% restantes, cerca de R$ 8 milhões, terá de ser feito à vista, no prazo de um mês. Agora, resta ao grupo levantar o valor com patrocinadores. 

Caso não consiga o dinheiro, o Estação terá de abrir mão de seu cinema mais rentável: o Estação Gávea, de maior interesse comercial por estar localizado num shopping de grande circulação de pessoas (o Shopping da Gávea), precisará ser leiloado, a um lance mínimo de R$ 9 milhões. 

Juntas, as cinco salas da Gávea têm 536 lugares e recebem 300 mil espectadores por ano, respondendo por uma das maiores taxas de ocupação do País, segundo o presidente do Estação, Marcelo França Mendes. 

“Estou aliviado. O Estação é fruto de um sonho, e um sonho não tem limite. Agora, a gente pode continuar sonhando”, disse Mendes, depois da reunião. No Facebook, ele vem recebendo apoio de quase 10 mil pessoas desde que começou a compartilhar notícias sobre as negociações com os credores. “Já estamos conversando com vários patrocinadores. Além disso, vamos iniciar uma campanha para a compra de poltronas e a venda antecipada de passaportes de ingressos.”

A ideia é seguir o que foi feito para salvar o Cine Belas Artes, na Rua da Consolação, região central de São Paulo, fechado por três anos e reinaugurado no último dia 19 graças ao patrocínio da Caixa e à mobilização popular. Como em São Paulo, frequentadores do Estação vêm se manifestando pela permanência dos cinemas - até mesmo com atos simbólicos na porta da primeira sala da rede, em Botafogo. 

Problemas. A assembleia foi no Estação Gávea, justamente a origem de boa parte dos problemas financeiros do grupo. Aberto em 2007, o conjunto de salas exigiu obras complexas, que custaram R$ 12 milhões, quando estavam orçadas em metade disso. Em 2010, sufocado pelas dívidas (aluguéis atrasados e débitos com distribuidoras de filme, fornecedores de equipamentos cinematográficos e prestadores de serviços), o grupo foi vendido para um fundo de investimento. 

O fundo não só descumpriu o compromisso de quitá-las, mas também fez o valor aumentar de R$ 13 milhões para R$ 31 milhões, informou Mendes. Um ano depois, ele e seus sócios decidiram voltar ao comando, para tentar evitar a falência. Patrocinadores fugiram e, das 32 salas, sobraram 15, em seis cinemas. 

Na reunião desta terça, à qual compareceram representantes de 90% da dívida, foi ressaltada a relevância cultural do Estação, até mesmo pelos credores (os responsáveis por 53,47% do valor total se declararam favoráveis à proposta de quitação dos 25%). “Temos grande interesse na recuperação do Estação, como todos que apoiam a cultura”, argumentou um deles, José Hernani, administrador do Shopping da Gávea. 

Referência. O Estação faz 30 anos em 2015 - à época da fundação, Mendes tinha apenas 19 anos. A primeira sala, na Rua Voluntários da Pátria, em Botafogo (zona sul), foi inaugurada com Eu sei que vou te amar, de Arnaldo Jabor. De lá para cá, surgiram cinemas no centro, Ipanema e Barra da Tijuca que atraem frequentadores ávidos por filmes autorais, dificilmente encontráveis em um circuito com programação focada em campeões de audiência.

O Estação acabou se tornando referência para uma geração de cinéfilos, cineastas e críticos. 

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