Alemão é ocupado por policiais e tiroteio deixa dois feridos

Irritados com operação, traficantes atearam fogo em ônibus; Bope e Força Nacional de Segurança estão no local

Pedro Dantas, de O Estado de S. Paulo,

05 de dezembro de 2007 | 11h11

O enguiço de quatro dos oito carros blindados empregados na megaoperação policial desta quarta-feira, 5, no Complexo do Alemão, na zona norte do Rio, foi a razão oficial para o fracasso da ação, que mobilizou 650 homens das polícias Militar e Civil. No entanto, moradores e policiais afirmaram que houve vazamento de informações e que os traficantes da região saberiam desde segunda-feira da incursão, que não resultou em nenhuma prisão e deixou quase nove mil crianças sem aulas. Dois moradores foram baleados.  De acordo com funcionários da Viação Nossa Senhora de Lourdes, traficantes da Vila Cruzeiro roubaram dois ônibus para fazer barricadas por volta das 8 horas, uma hora e meia antes do início da operação. Um dos veículos foi incendiado por traficantes no início da Rua A, a principal via de acesso à favela, pouco antes do meio-dia. As chamas assustaram os motoristas que ainda se arriscavam trafegando pela interditada Avenida Nossa Senhora da Penha, em meio ao tiroteio. "Eles incendiaram os ônibus e acho que as casas vão pegar fogo", dizia um funcionário dos Correios, antes de abandonar a avenida em alta velocidade. O ônibus da linha 621 (Saens Peña-Penha) queimou por mais de uma hora. Nenhuma casa foi atingida e os bombeiros não entraram na comunidade para combater as chamas.   Apesar do grande efetivo mobilizado e da intensa troca de tiros na parte da manhã, o resultado da operação foi: dois moradores feridos, dois suspeitos detidos, um menor apreendido e 26 motos em situação irregular recolhidas. Essa foi a segunda maior investida policial no Complexo do Alemão desde o dia 27 de junho, quando, em outra megaoperação, 19 pessoas morreram. Apontado como o quartel-general do Comando Vermelho, o Alemão está cercado pela Força Nacional de Segurança há vários meses, na operação batizada como Cerco Amplo.  "Na chegada, tivemos problemas mecânicos com os blindados. É notório que esse veículo é essencial para levar os policiais em segurança até os alvos. Tivemos que fazer o patrulhamento a pé e até realizar operações para resgatar os carros", disse o subsecretário de planejamento da Secretaria de Segurança, Roberto Sá. Ele admitiu o fracasso da operação, mas negou que as obras do PAC, previstas para começar no início do ano que vem e orçadas em R$ 450 milhões, sofrerão atrasos. "Não vamos nos afligir. Já estamos em procedimento licitatório para aquisição de novas viaturas", declarou o subsecretário.  Ele garantiu que o Estado vai "retomar a área, hoje dominada pelo crime organizado." Cléber Duarte Silva Amaral, de 18 anos, foi ferido de raspão no rosto, e Vanderson Cleiton Martins de Souza, de 25, foi atingido no abdômen. Os dois foram levados para o Hospital Getúlio Vargas, na Penha, e, segundo a Secretaria Estadual de Saúde, não correm risco de morte. A violência das operações diárias no Alemão já provoca transtornos em todos os bairros vizinhos, como a Penha. "Isto é aviltante. Nos sentimos agredidos porque todos nós temos o direito de ir e vir. A violência está em todo o Brasil, mas no Rio de Janeiro e na Penha estamos em uma situação limite", disse a dona-de-casa Márcia Fernandes, 52 anos, moradora da Penha que teve que ir buscar o neto de 7 anos na escola particular Pequeno Príncipe, próximo à Vila Cruzeiro, que também cancelou as aulas por causa da operação.  Segundo ela, as aulas são suspensas pelo menos uma vez por semana. Uma outra moradora, que preferiu não se identificar, contou que está de mudança para o interior do Estado do Rio. Segundo ela, vários vizinhos estão fazendo o mesmo e colocando placas de aluga-se e vende-se nas janelas.  Texto alterado às 19h50 para acréscimo de informações.

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