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Alemão tem década de índice social estagnado

Entre 160 bairros do Rio, complexo ocupa o 147º lugar em desenvolvimento

Felipe Werneck / RIO, O Estado de S. Paulo

12 de abril de 2015 | 03h00


Apesar dos investimentos de R$ 1,1 bilhão em obras no Alemão a partir de 2008, a geração de empregos não ocorreu e o complexo de favelas da zona norte mantém um dos piores índices de desenvolvimento social do Rio. Dos 160 bairros cariocas, o Alemão ocupa a 147.ª posição em ranking calculado pelo Instituto Pereira Passos (IPP), da prefeitura.

A situação ficou estagnada de 2000 a 2010 nas 15 favelas, com 69 mil pessoas, apesar de Rocinha (zona sul) e Cidade de Deus (zona oeste) terem apresentado aumento de 6% na década, mais que a média da cidade (5%). Inspirado no Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) da Organização das Nações Unidas (ONU), o Índice de Desenvolvimento Social (IDS) usa indicadores dos dois últimos censos do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Responsável pelo IDS, o sociólogo Fernando Cavallieri diz que os dados de renda puxaram o índice para baixo no Alemão. Lá, a renda domiciliar per capita era de R$ 420,23 em 2010. Já na Lagoa, bairro da zona sul com o maior IDS da cidade, chegava a R$ 6.676,23 - quase 16 vezes mais. Na média para toda a cidade, a renda per capita ficou em R$ 1.453,93. “Nosso índice é limitado, porque não pega indicadores de criminalidade. No caso do Alemão, que ficou com IDS muito baixo, o que puxou negativamente foram dados de renda. Especialmente na proporção das pessoas com rendimento mais baixo, mas também entre os com renda mais elevada”, disse Cavallieri.

Desigualdade. No Alemão, a proporção dos responsáveis pelo domicílio com rendimento igual ou superior a dez salários mínimos em 2010 era de 0,13%. A média da cidade chegava a 10%, ou seja, 80 vezes mais. O porcentual dos responsáveis pelo domicílio com renda de até dois salários mínimos era 24 vezes maior no Alemão do que na média da cidade.

No caso de outros índices que compõem o IDS, como analfabetismo, rede de esgoto, abastecimento de água, coleta de lixo e banheiros por domicílio, os números são precários no Alemão, mas não tão distantes da média da cidade quanto os de renda. O analfabetismo atingia 3,3% dos moradores de 10 a 14 anos do complexo em 2010. Na média para a cidade, eram 2,1%. Mapeamento da prefeitura mostra ainda que, das 15 favelas do Alemão, a Nova Brasília apresenta as piores condições de moradia e saneamento.

O complexo recebeu oficialmente investimentos de R$ 843 milhões dos governos federal e estadual em obras do PAC de 2008 a 2010. A prefeitura informa ter investido mais R$ 266 milhões desde 2009 e que obras de R$ 58 milhões “estão em curso”, entre elas um mercado popular na Estrada do Itararé e 60 lojas na Rua Joaquim de Queiroz. Os números sobre programas de qualificação e de vagas abertas e fechadas não foram informados.

O diretor do Instituto de Estudos do Trabalho e Sociedade (Iets), Manuel Thedim, criticou a falta de programas de qualificação de jovens e geração de trabalho e renda. Para ele, 70% do aumento na renda dos mais pobres na última década no País foi consequência do mercado de trabalho. “Quem o mercado vai procurar? Os mais qualificados. Os menos pobres dentre os pobres.” O pesquisador Mauricio Blanco, do Instituto AFortiori, diz que a avaliação de Cavallieri é convergente em relação a outros estudos sobre o IDH de regiões da cidade. Segundo ele, falta criar oportunidades de emprego para os jovens que saem do ensino médio. “Os investimentos do PAC não implicam necessariamente em bem estar para a população. Precisam estar amarrados a outras coisas. O conceito de desenvolvimento social tem de ser conjunto. Nos últimos dois anos, por exemplo, houve perda de renda entre os mais pobres na cidade.”

Visão fragmentada. Blanco critica o investimento no teleférico do Alemão, que não é usado pela maioria dos moradores. “O problema é a visão fragmentada da política pública, em que os políticos atuam como animadores de circo.” Ele citou o elevador do Morro do Cantagalo, em Ipanema, zona sul, que custou R$ 50 milhões. “Com esse dinheiro daria para eliminar a pobreza na favela por 36 anos.”

Para Thedim, investimentos massivos em educação e melhorias na qualidade das escolas deveriam ser uma “obsessão” dos governantes. Segundo a prefeitura, 9.950 alunos estão matriculados em 22 escolas e duas creches no Alemão.

Uma das obras destacadas pelo município é a Praça do Conhecimento, ocupada pela Polícia Militar para instalação de barricadas após o assassinato do menino Eduardo de Jesus Ferreira, de 10 anos, com um tiro de fuzil na cabeça, no dia 2, durante ação de policiais da Unidade de Polícia Pacificadora (UPP). 

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