Marcos Arcoverde/Estadão
Marcos Arcoverde/Estadão

Análise: É uma tragédia em nível mundial

Historiador comenta incêndio que destruiu Museu Nacional, no Rio: 'acervo perdido é incomensurável'

Milton Teixeira*, O Estado de S.Paulo

04 Setembro 2018 | 03h00

Desde os anos 1970, o museu tem tido a sua conservação descurada. Já naquela época se via o mau estado das salas, algumas delas caindo aos pedaços, o piso balançando conforme andávamos e o cupim atacando tudo. Isso chega ao limite na década de 1990, onde se viam vitrines com as plaquinhas e, no lugar dos objetos, somente o farelinho que o cupim deixou. Depois de muita briga, começaram a fazer investimentos, mas era reabrindo uma sala e fechando duas, tanto que, atualmente, 30 salas estavam fechadas.

Nós olhávamos e ficávamos penalizados, porque acompanhamos aquele museu desde quando a nossa infância, as escolas nos levavam lá, aquela múmia era quase parente nossa. E nós víamos, cada vez mais, as coisas se deteriorando, se degradando. No início do século 21, houve uma melhora, nós chegamos até a ter esperanças, montaram o dinossauro, fizeram salas novas, mas, ultimamente, estava muito caído. Estava muito descuidado, muito maltratado, as paredes com infiltrações, cupim por todos os cantos. Era uma tragédia não só anunciada como também não sei como demorou tanto a acontecer. E, quando aconteceu, foi de vez.

O acervo perdido é incomensurável, era o quinto melhor museu de antropologia do mundo, com material das culturas indígenas brasileiras desde a pré-história e muitas não existem mais, de modo que não vai ser possível reaver ou ter acesso a novas peças, elementos da cultura africana, do Egito, da Grécia, de Roma, coleções doadas por Dona Leopoldina, os móveis do Museu do Primeiro Reinado, que foram transferidos para lá, a sala da coroação, a sala dos embaixadores com móveis de época com decorações e pinturas de época, Tudo isso se foi. Dinossauros, megafauna. Tudo isso virou pó, não sobrou nada. A primeira brasileira, Luzia, múmias pré-colombianas, vasos antigos. A história inteira do Brasil e parte da história do planeta. É uma tragédia em nível mundial, porque tínhamos peças disputadas por museus internacionais. As nossas múmias egípcias eram muito preciosas e foram trazidas por Dom Pedro I e Dom Pedro II. O que acontecia com o Museu Nacional era criminoso, ele era deixado à míngua. Há anos era cobrado e nada.

A mobilização da sociedade era muito pequena e não víamos uma mudança a curto prazo, Teve a celebração dos 200 anos, que foi muito comentada,  mas seriam os últimos 200 anos. Hoje, o museu vai ter de ser reinventado, não pode continuar a ser o que era . Perdeu-se o acervo e vamos ter de passar para outra etapa. O pior são os estudos, que ficam interrompidos, as pesquisas feitas durante séculos e as que estavam sendo feitas que arderam. Era melhor deixá-lo assim, em ruínas, para mostrar como era tratada cultura do Brasil no século 21.

*É historiador e coordenador do curso de pós-graduação em História do Rio de Janeiro do Instituto Venturo

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