Fábio Motta/Estadão
Fábio Motta/Estadão

Análise: Força Nacional precisa ter missão específica

Especialista analisa o reforço da tropa no Rio de Janeiro diante da mais recente crise de segurança no Estado

Jacqueline Muniz, O Estado de S.Paulo

04 Maio 2017 | 03h00

RIO - A chegada anunciada de cem novos integrantes da Força Nacional ao Rio, onde já estavam cerca de 125, se mostra mais como um aceno político sem consistência estratégica e tática do que uma reação adequada ao problema da segurança pública. Isso ocorre se notarmos, primeiro, que o número representa, na prática, que em torno de 50 homens e mulheres estariam à disposição, em razão das escalas de pessoal e material.

O número pode significar, por exemplo, a composição de dez grupos táticos, com cada equipe tática contando com cinco ou seis indivíduos. Para que esse contingente possa produzir algum efeito é necessário a designação de uma missão específica e de curto alcance. Um exemplo seria o suporte tático a uma atividade de cumprimento de mandados de prisão e apreensão em curso pelas polícias estaduais. É uma medida pontual para a qual a tropa funcionaria.

Para o policiamento convencional, há limitações. Se notarmos, a Avenida Brasil, só ela, tem cerca de 60 quilômetros de extensão e corta 26 bairros, com mais de 70 entradas e saídas. Com cada grupo tático cobrindo de seis a sete quilômetros, a pronta-resposta da tropa ficaria reduzida somente à extensão da avenida. Mas o problema que assistimos recentemente acontece no arco metropolitano e se estende a outros bairros e rodovias. Nota-se que é um recurso caro, porque o custo com deslocamento e manutenção é elevado, e pode não ser efetivo.

Como esse contingente, que mal teria condições de cobrir toda a Avenida Brasil pode fazer diferença faria efeito na segurança? A resposta é a sua aplicação em operações especializadas, deflagradas pela atividade de inteligência. É fantasia acreditar que a tropa será capaz de cumprir a missão que está sendo dada a ela nessa circunstância. A sua aplicação ocorre agora muito mais para produzir um efeito moral e simbólico de que alguma coisa está sendo feita do que diante de estratégia clara de policiamento. 

O Rio vive de crises e as fabrica como um modo de escamotear o fato de que não desenha políticas públicas para a área, políticas que enfrente a realidade à luz de um diagnóstico constituído. Há um problema de planejamento e de gestão em que é mais fácil para o governante insistir na crise, porque é nela que qualquer remédio serve, até os com prazo de validade vencido, como é a Força neste caso.

*JACQUELINE MUNIZ É PROFESSORA DO DEPARTAMENTO DE SEGURANÇA PÚBLICA DA UNIVERSIDADE FEDERAL FLUMINENSE (UFF)

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