Fabio Motta/Estadão
Fabio Motta/Estadão

Anistia Internacional pede a novo governo do Rio compromisso no caso Marielle

Entidade reivindica, em comunicado, que gestão de Wilson Witzel assuma responsabilidade de não deixar morte de vereadora, que completa 10 meses, sem solução

Roberta Jansen, O Estado de S. Paulo

14 de janeiro de 2019 | 03h00
Atualizado 14 de janeiro de 2019 | 19h31

RIO - Dez meses após o assassinato de Marielle Franco (PSOL) e do motorista Anderson Gomes, a Anistia Internacional e parentes da vereadora pedem ao governador Wilson Witzel (PSC) uma reunião sobre o andamento do caso e cobram uma solução para o crime. Eles criticaram Witzel por ter participado de um episódio de campanha em que uma placa em homenagem a Marielle foi destruída.

“Queremos o compromisso público dessas novas autoridades estaduais recentemente empossadas de que haverá uma solução correta para a investigação”, afirmou a assessora de direitos humanos do movimento, Renata Neder. “Há quatro meses ouvimos autoridades dizendo que o caso está perto de ser solucionado sem que haja solução, não podemos mais aceitar essas palavras vazias.”

Em outubro do ano passado, pouco antes das eleições, Witzel participou de um evento em Petrópolis, na região serrana, em que os então candidatos do PSL a deputado federal Daniel Silveira e a deputado estadual Rodrigo Amorim (ambos eleitos) destruíram uma placa de rua feita em homenagem à vereadora assassinada.

“A troca do governo nos assusta”, afirmou Anielle Franco, irmã da vereadora assassinada. “Nosso governador estava naquele ato que repudiamos imensamente. Mas independentemente da posição política, foi uma vida que foi ceifada, precisamos de uma resposta.”

“O episódio de vandalismo da placa é grave e nos faz ter preocupação sobre o que pode acontecer com as investigações a partir de agora”, afirmou Neder. “Atacaram a memória de Marielle, usaram palavras virulentas e hostis; e quando atacam uma representante dos direitos humanos, atacam a todos que ela representava, mulheres, negros, moradores de favelas, comunidade LGBT. Atacar a memória da vereadora é incompatível com os cargos públicos que hoje ocupam.”

Veja a linha do tempo do caso

No fim de semana, Wilson Witzel declarou que o caso deve ser solucionado até o fim deste mês. Nesta segunda, o governador informou que recebeu o pedido da Anistia Internacional e da família de Marielle e que pretende marcar a reunião solicitada.

Para Renata Neder, quem mata um representante dos direitos humanos quer gerar medo e desmobilizar o movimento. “O Estado tem que responder a altura”, afirmou. Renata lembrou também que, historicamente, o País não investiga nem soluciona assassinatos de representantes de direitos humanos - sendo que o Brasil é um dos países que mais mata ativistas. E, acrescentou ela, o histórico da Polícia Civil em investigar policiais tampouco é animador.

“As informações já divulgadas nesses dez meses indicam que pode haver participação de agentes do Estado em diversos níveis”, afirmou a especialista. “O fato de a munição utilizada ter sido de um lote da Polícia Federal, de a arma ser de uso restrito, de as câmeras de segurança terem sido desligadas nas vésperas do crime sugerem participação de agentes do Estado.”

Essa possibilidade, segundo a ativista, levanta uma outra preocupação. “Se há indícios de participação de agentes do Estado, como é que o próprio Estado vai investigar o caso de forma imparcial e independente?”, questionou. “Defendemos um mecanismo externo, formado por especialistas, peritos, juristas, para monitorar as investigações.”

Em nota, o governo do Estado informou que "dedica empenho máximo na resolução do brutal assassinato da vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes. Para reforçar ainda mais as investigações, o delegado titular da Delegacia de Homicídios da Capital, Giniton Lages, passou a trabalhar exclusivamente na elucidação do caso e na prisão dos criminosos."

A assessoria de comunicação do governador enfatizou que ele nunca compactuou com atos de intolerância, nunca falou nada de ofensivo sobre a vereadora Marielle Franco e que confia na elucidação do caso. 


 

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