Após 20 anos, mulher perde segunda filha em operação policial no Rio

Ana Cláudia Germano Coutinho, de 29 anos, morreu quando foi buscar o filho caçula na casa da avó paterna

Thaise Constâncio, O Estado de S. Paulo

27 de novembro de 2014 | 14h28

RIO - Vinte anos depois de perder uma filha durante uma operação policial na favela de Acari, zona norte do Rio, a dona de casa Célia Regina da Conceição Germano, de 59 anos, reviveu a mesma dor na manhã dessa quarta-feira, 26. Ana Cláudia Germano Coutinho, de 29 anos, morreu quando foi buscar o filho caçula na casa da avó paterna. Mãe de quatro filhos, ela faltou a uma entrevista de emprego para levar a criança, que estava com febre, ao hospital.

A tragédia aconteceu às 8h30. Desde a madrugada o 41º Batalhão de Polícia Militar (Irajá) fazia uma operação na favela - um traficante foi baleado e preso. No momento em que Ana Cláudia saiu de casa, as trocas de tiro tinham cessado.

Segundo o delegado Rivaldo Barbosa, titular da Divisão de Homicídio (DH) que investiga o caso, houve uma nova troca de tiros e a mulher foi atingida por estilhaços de bala na veia carótida esquerda. A Polícia Militar ainda não se manifestou sobre as circunstâncias da morte.

Testemunhas contaram para a família que três mulheres estavam na rua quando o caveirão (veículo blindado da PM) parou na rua Edgar Sotero. Ana Cláudia tentou se abrigar perto de um muro e as outras duas se esconderam em um bar. O tiro teria partido do caveirão e a bala atravessado a cabeça. Ela chegou a ser levada para o Hospital Raul Gazola, em Acari, mas já chegou morta.

"Não tinha nenhum homem na rua quando ela passou, ninguém com aparência de bandido. Porque atiraram?", questiona Taísa da Conceição Rosa, de 17 anos, prima da vítima. Ela ainda não tinha nascido na primeira morte violenta da família.

Célia Regina, mãe de Ana Cláudia, teve 15 filhos. Dez estão vivos, três morreram em decorrência de doenças e duas em operações policiais. Há 20 anos, Cátia Cirlene da Conceição foi baleada quando estava grávida de oito meses. Desde que soube da morte de Ana Cláudia, Célia está sedada.

"Minha tia não sabe o que fazer. Ela cria 14 crianças, os netos, bisnetos e outras crianças que perderam os pais. Os filhos da minha prima podem crescer revoltados pela mãe ter morrido assim", contou Taísa. 

Apenas os mais velhos, de 12 e 13 anos, sabem sobre a morte de Ana Cláudia. Eles vão morar com a Célia. Os mais novos, de 8 e 10 anos, ainda não têm idade para entender o que aconteceu, segundo a família. As crianças ficarão na casa da avó paterna. "Eles ainda acham que a mãe vai voltar a qualquer momento", disse a adolescente.

Irmã de Ana Cláudia, Regina Célia Germano Coutinho, de 24 anos, disse que não recebeu nenhum tipo de assistência da polícia ou do Estado. Ela pretende processar o Estado pela morte da irmã que será enterrada nesta quinta-feira, 27, no cemitério de Irajá, zona norte.

Nesta quinta, o Batalhão de Operações Especiais (Bope) faz operação na favela para coibir o tráfico de drogas. Até as 13h20, foram apreendidos 100 kg de maconha, um fuzil rugger 556, uma espingarda e munições calibre 762.

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