Marcelo Carnaval / Ag. O Globo
Marcelo Carnaval / Ag. O Globo

Após arrastões, secretário de Segurança teme ação de justiceiros

Beltrame quer retomar operações que têm jovens como alvo, vetadas pela Justiça; grupo na web planeja espancamentos

O Estado de S. Paulo

21 Setembro 2015 | 21h54

RIO - Após um fim de semana com arrastões e espancamentos de suspeitos por justiceiros, o secretário estadual de Segurança do Rio, José Mariano Beltrame, previu que acontecerão “linchamentos se a situação continuar desse jeito”. Segundo ele, o setor de inteligência da Polícia Militar já detectou a articulação de grupos de justiceiros, formados por moradores da zona sul que se organizaram para agredir suspeitos.

“Temo que haja problema de linchamento, se isso continuar desse jeito. Em vez de um problema, estamos com o risco de ter dois”, afirmou Beltrame. E destacou que a polícia reprimirá crimes cometidos por moradores da zona sul.

Os justiceiros se articulam nas redes sociais. Em algumas publicações em comunidades fechadas no Facebook, internautas criaram grupos de WhatsApp para combinar as agressões. Foi criado um evento, batizado de “Porrada nos Bandidos”, que planeja espancamentos no próximo domingo. “Sou a favor daquele papo de juntar uma galera de lutadores, para moer esses caras”, disse um internauta, marcando o ponto de encontro dos “lutadores” para a Praça Nossa Senhora da Paz, em Ipanema, às 12 horas de domingo. 

Às 16 horas deste domingo, 20, na Avenida Nossa Senhora de Copacabana, justiceiros invadiram um ônibus e agarraram um rapaz suspeito de envolvimento em assaltos e arrastões. A vítima foi espancada por cerca de dez homens na calçada.

Operações. O secretário indicou que as apreensões preventivas de jovens suspeitos pela PM poderão voltar, apesar da recente proibição judicial. Ao comentar o fim de semana de arrastões na zona sul (Ipanema, Copacabana e Botafogo), ele disse que a volta da estratégia está condicionada à participação de órgãos de assistência social. 

“Vamos voltar a fazer as ações que nós entendermos que são preventivas. Se não fizermos, poderemos estar suscitando um problema maior ali na frente”, acrescentou. Beltrame disse que pedirá ao prefeito Eduardo Paes (PMDB) para que a Secretaria Municipal de Desenvolvimento Social participe das ações de prevenção da criminalidade da Polícia Militar na orla da zona sul.

Repetindo discurso que lhe é recorrente, atribuiu os episódios de violência ao fato de a polícia estar “só”, sem apoio de outros órgãos do Estado e prefeitura.

A decisão da 1.ª Vara da Infância e da Juventude, tomada no último dia 10, além de proibir a retirada dos passageiros dos ônibus que seguem rumo à orla por policiais, determina que a PM, a Polícia Civil, as Secretarias Municipais de Desenvolvimento Social e Ordem Pública e a Guarda Municipal participem de operações nas praias para identificar adolescentes em situação considerada vulnerável - sem dinheiro, responsáveis e alimentos.

“A polícia não vai resolver tudo sozinha. E isso está acontecendo porque a polícia está só. A polícia foi tolhida na sua missão de prevenção. Precisamos de outros atores para fazer esse papel, porque o esquema está desequilibrado. Temos um órgão que executa tudo isso, enquanto há várias instituições que fiscalizam. O que vamos fazer é trazer todos os órgãos que têm a ver para esse tipo de ação”, disse Beltrame.

Texto publicado na internet e creditado ao policial civil Maurício Bellini incita os moradores a sabotarem as investigações da Polícia Civil, para não serem responsabilizados em caso de linchamentos. “Todos os moradores devem procurar os síndicos de seus prédios e pedir que, em caso de violência contra esses marginais, se alguém atirar e matar, não forneçam imagens de câmeras para a polícia! Deem uma ajuda a nós, policiais, que queremos fazer algo e não podemos por medo de uma política podre e de incentivo ao crime”, escreveu ele, que está afastado desde 2011 das funções de inspetor, acusado na Justiça por formação de quadrilha e pelo crime de interceptação telefônica. A Corregedoria da Polícia Civil anunciou que investiga a autoria da postagem.

Defensoria. Nas redes sociais, ofensas também são dirigidas à defensora pública Eufrásia Souza das Virgens, acusada de “proteger marginais”. A Defensoria Pública divulgou nota em que anuncia estar “tomando todas as medidas cabíveis para assegurar sua integridade e de seus familiares”. 

“A Defensoria repudia veementemente as ameaças e afirma que elas jamais nos constrangerão a exercer a função prevista na Constituição”, diz a nota de apoio à defensora. Ela foi responsável pela ação que resultou na proibição da apreensão dos menores de 18 anos sem flagrante criminal.

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