Reprodução | 29.09.2015
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Após confronto forjado, secretário admite abalo em projeto de UPPs

Credibilidade foi afetada, diz secretário, que pediu agilidade na investigação; laudo aponta que jovem foi baleado já no chão

Carina Bacelar, Luciana Nunes Leal e Fábio Grellet, O Estado de S. Paulo

02 Outubro 2015 | 07h35

RIO - O secretário de Segurança do Rio, José Mariano Beltrame, admitiu na quinta-feira, 1º, pela primeira vez, que o processo de pacificação iniciado no Estado em dezembro de 2008, com a inauguração da primeira Unidade de Polícia Pacificadora (UPP), está com a credibilidade abalada. O motivo, segundo ele, é a conduta dos policiais militares, referindo-se aos cinco soldados da UPP da Providência, no centro, que tentaram forjar um confronto com o adolescente Eduardo Felipe dos Santos Victor, de 17 anos, morto na terça-feira passada.

Após colocar uma pistola na mão direita do adolescente, já morto, e disparar dois tiros, os PMs registraram uma versão falsa na delegacia - disseram que a vítima morrera em confronto e que portava uma pistola, apreendida. A farsa foi desmentida porque vizinhos filmaram a ação dos policiais. Para Beltrame, esse tipo de conduta “abala a credibilidade” da política de pacificação, que, no entanto, “segue adiante”. A pacificação é base da política de segurança do governo estadual.

“É uma cena absurda, uma cena intolerável. Inadmissível isso conviver com um processo de pacificação”, afirmou o secretário, que classificou a ação dos PMs como “um ato totalmente desastroso” e “bárbaro” e anunciou que os policiais serão expulsos da corporação.

Beltrame contou que esteve no Quartel Central da Polícia Militar para exigir agilidade na investigação administrativa do episódio. Os cinco PMs, presos desde terça-feira, respondem também a inquéritos civis, que apuram os possíveis crimes de fraude processual e homicídio.

O governador do Rio, Luiz Fernando Pezão (PMDB), reafirmou que a política de segurança do Estado não pode ser medida por fatos como o da Providência e que a morte de policiais também deve indignar a sociedade. “Temos 60 mil policiais e não podemos julgar nossa política de segurança por essas pessoas que cometem desvios e erros, pelo desvio de um, dois ou três policiais. Temos de nos indignar com tudo”, disse o governador.

Pezão também comentou ataques contra policiais: “A morte do garoto é muito triste, mas também não é trivial a gente achar que é normal matar policiais em qualquer lugar. Também tenho de ressaltar minha indignação tanto com o rapaz que morreu em Nova Iguaçu, de forma brutal (torturado e arrastado por um cavalo), como com o policial morto no Alemão”.

Investigação. Inicialmente registrado na 4.º DP como auto de resistência (quando a polícia mata como forma de defesa), o caso da Providência foi transferido para a Delegacia de Homicídios (DH). Em regra, os autos são investigados por delegacias comuns, com menos recursos que a DH.

O chefe da Polícia Civil, Fernando Veloso, confirmou a informação divulgada na quinta-feira pelo jornal Extra de que o laudo cadavérico indica que Victor foi baleado no tórax enquanto estava deitado, o que reforça a suspeita de execução pelos PMs.

Antes do tiro, o adolescente teria sido agredido, pois apresenta fraturas em três costelas. A principal testemunha do crime, que gravou com um celular a ação dos PMs, ainda não foi localizada, segundo Veloso. “A Delegacia de Homicídios está se esforçando ao máximo para que essa pessoa tenha a proteção que precisa ter do Estado”, disse Veloso.

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