Fabio Motta/AE
Fabio Motta/AE

Após retomada da Rocinha, Rio fecha cinturão de segurança da zona sul

Agentes estaduais e federais também tomaram ontem Vidigal e Chácara do Céu; desafio é formar policiais para mais 21 UPPs até a Copa Blindados da Marinha começaram a invasão antes do amanhecer. Ao meio-dia, moradores já estavam nas ruas

Alexandre Rodrigues, Alfredo Junqueira e Felipe Werneck, da sucursal do Rio de Janeiro, O Estado de S.Paulo

14 Novembro 2011 | 03h01

Sem confrontos ou feridos, as forças de segurança retomaram o controle ontem das comunidades da Rocinha, do Vidigal e da Chácara do Céu. A operação, que contou com apoio de blindados da Marinha e de agentes federais, durou apenas duas horas e completou a pacificação de todas as favelas da zona sul carioca. Também fechou o cinturão das regiões do centro e da grande Tijuca, essencial para a segurança da Copa do Mundo de 2014 e dos Jogos Olímpicos de 2016.

A expectativa da cúpula da segurança do Rio é ainda mais ambiciosa: mesmo diante do desafio de sustentar o plano de expansão das Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs) em meio às dificuldades para recrutar novos policiais, o secretário de Segurança, José Mariano Beltrame, disse que a multiplicação das UPPs segue "um passo sólido" e a meta de instalar 40 delas até a Copa está garantida - o cronograma, porém, ainda não foi definido.

Segundo Beltrame, a repetição da parceria entre as forças de segurança estaduais e federais já consolidou "uma filosofia, uma maneira de trabalhar", que pode ser repetida em outras missões. "Nós estamos caminhando com passos que talvez não tenham a velocidade que todos nós gostaríamos, mas são passo s sólidos", afirmou o secretário.

Em formação. Oficiais do comando da PM ouvidos pelo Estado estimaram que a UPP da Rocinha, a 19.ª do Rio, terá entre mil e 1,5 mil agentes, divididos entre postos na Rocinha, no Vidigal e na Chácara do Céu. O efetivo tem sido motivo de muita negociação na cúpula da PM, dada a dificuldade de acelerar o cronograma de formação dos policiais. O governador Sérgio Cabral revelou que o planejamento da operação na Rocinha só começou depois que a presidente Dilma Rousseff concordou em prorrogar até junho do ano que vem a presença do Exército no Complexo do Alemão, na zona norte. 

Quase um ano depois da invasão, o governo do Rio ainda não conseguiu formar policiais para substituir a ocupação militar no Alemão. Cabral pediu mais tempo a Dilma para usar o efetivo em formação na Rocinha ainda neste ano. Beltrame admitiu que o lento recrutamento de novos policiais e as dificuldades orçamentárias para elevar os salários da corporação aumentam os obstáculos para a expansão sustentável das UPPs.

"Não podemos deixar de tirar território (dos bandidos) achando que não vamos conseguir cumprir. Esse programa está planejado e vai ser cumprido, porque hoje as academias de polícia têm a garantia de concursos e o plano de 40 UPPs tem condição de acontecer. E assim será feito", afirmou.

Sem disparar um único tiro, as forças de segurança do Estado do Rio, com o apoio da Polícia Federal, dos fuzileiros navais e de veículos blindados da Marinha, ocuparam as favelas da Rocinha e do Vidigal entre o fim da madrugada e o início da manhã de ontem. As comunidades - as duas mais expressivas da zona sul carioca que ainda estavam sob domínio do tráfico armado - receberão a 19.ª Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) nos próximos meses. A pequena favela da Chácara do Céu, no Alto Leblon, também foi ocupada.

O silêncio do início de domingo foi quebrado pelas esteiras mecânicas dos carros de combate da Marinha, às 4h10, ainda escuro. Os três primeiros saíram do Túnel Zuzu Angel e margearam a Rocinha até começar a subida pela Estrada da Gávea - onde traficantes haviam derramado barris de óleo para atrapalhar o avanço dos veículos. Cinco minutos depois, entraram em ação os primeiros três dos sete helicópteros das Polícias Civil e Militar usados na operação.

Impedidos de chegar à Rocinha por causa do fechamento do trânsito na região, moradores que voltavam do trabalho caminhavam pela Autoestrada Lagoa-Barra e pela Via Ápia quando unidades do Bope tomavam posição.

Prisão. A operação, batizada de Choque de Paz, teve a participação de 3 mil policiais e integrantes das Forças Armadas, segundo a Secretaria de Estado de Segurança. Rapidamente, toda a Rocinha foi ocupada. Sem resistência. Não fosse a prisão de Igor Tomás da Silva, de 29 anos, foragido de Bangu 8 e que às 2h30 saiu carregado da comunidade, alcoolizado, a operação teria sido feita sem ocorrências. A polícia registrou outras três prisões até as 18h.

Às 6h, o Bope já anunciava ter ocupado toda a favela. O sucesso da operação foi confirmado oficialmente pelo chefe do Estado-Maior da PM do Rio, coronel Alberto Pinheiro Neto, uma hora depois. Por volta das 11h, os helicópteros da polícia despejaram milhares de panfletos sobre a comunidade incentivando os moradores a denunciar a presença de traficantes, drogas e armas escondidas.

Antes do meio-dia, moradores ensaiavam retomar o ritmo normal de vida. Muitos desceram o morro para acompanhar a movimentação da polícia. O comércio abriu normalmente. O volume de lixo acumulado nas ruas era vexatório e a Unidade de Pronto Atendimento seguia fechada, apesar de ser "24 horas" - médicos tiveram de atender na quadra da escola de samba.

Às 12h50, menos de 9h após o início da ocupação, policiais e moradores acompanharam o hasteamento das bandeiras do Brasil e do Estado do Rio.

 

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