Arcebispo do Rio critica política de segurança de Cabral

As críticas são feitas após relatório que confirma execuções no Complexo do Alemão

Pedro Dantas, do Estadão,

02 de novembro de 2007 | 14h31

O cardeal arcebispo do Rio, Dom Eusébio Oscar Scheid, criticou a atual política de segurança pública ao comentar, nesta sexta-feira, 2, o relatório da Secretaria Nacional de Direitos Humanos que confirmou as suspeitas de execução na operação no Complexo do Alemão (zona norte), que deixou 19 mortos, no dia 27 de junho.  ONU inicia investigação sobre violência policial no BrasilAlemão: perícia vê execuções e acusa políciaParticipe do fórum e dê a sua opinião   "Não adianta usarmos estratégias que não sejam baseadas nos princípios do respeito à pessoa de ambas as partes, sejam das autoridades que zelam pelo bem comum, sejam dos que zelam pela ordem e sejam aqueles que causam a desordem. Estratégias só valem aquelas que são baseadas no respeito", disse o arcebispo, após celebrar missa pela paz e em homenagem às vítimas da violência no Cemitério de Campo Grande, na zona oeste do Rio. A reação do secretário de Segurança Pública, José Mariano Beltrame, que desqualificou o relatório encomendado pelo governo estadual provocou reações da sociedade. Um manifesto liderado pelo músico Marcelo Yuka, que ficou tetraplégico após ser baleado em um assalto em 2000, classifica a política de segurança como "política de extermínio" e critica as recentes declarações do governador Sergio Cabral Filho que chamou as favelas de "fábricas de marginais" e defendeu o aborto como forma de reduzir a criminalidade.  O documento também é assinado pela Associação dos Magistrados do Estado do Rio de Janeiro, Movimento da Magistratura Fluminense pela Democracia, Associação Juízes para a Democracia, entidades civis, além de escritores, músicos e artistas, como a atriz Letícia Sabatella e o autor de Cidade de Deus, Paulo Lins . Processo contra Estado O ex-presidente da Comissão de Direitos Humanos da OAB-RJ, João Tancredo anunciou que seis famílias dos mortos na operação no Complexo do Alemão vão acionar o Estado. Entre elas, a família de José Farias da Silva Júnior, de 18 anos, que, de acordo com o laudo foi executado, assim como Emerson Goulart, de 26. As demais famílias que vão processar o Estado são a do deficiente físico Maxwel Vieira da Silva, de 17, dos menores David Souza de Lima, de 14; Pablo Alves da Silva, de 16; de Bruno Paula Gonçalves da Rocha, de 20; e Marcelo Luiz Madeira, de 27. "Na esfera criminal, queremos transformar o auto de resistência em homicídio. Na cível, buscaremos a reparação", anunciou Tancredo.  Em nota divulgada na quinta-feira, 1º, o secretário de Segurança Pública, José Mariano Beltrame, disse os peritos sequer foram ao Rio. Foi desmentido pelo chefe de Polícia Civil, Gilberto Ribeiro, que admitiu ontem que encontrou os especialistas e passou informações solicitadas. O anexo VII do relatório mostra os peritos também encontraram no Rio o delegado do Departamento de Polícia Técnico-Científica, o diretor do IML , os legistas e peritos. A afirmação no relatório de que a polícia destruiu provas irritou as autoridades fluminense. Os peritos apontam no relatório que a Secretaria de Segurança Pública não forneceu vários dados solicitados, como o número de policiais envolvidos na operação e não explicou o sumiço das vestes dos mortos, que serviriam como prova para a perícia. O Hospital Geral de Bonsucesso (federal) e Hospital Getúlio Vargas (estadual) também não forneceram os prontuários dos atendimentos às vítimas aos peritos.  "É preciso saber o motivo da ausência dos peritos no local tomado pela polícia. As fotos dos jornais mostram os corpos cercados por jornalistas e populares, ou seja, não estava inacessível, como diz a polícia. A Kombi deixada na porta de uma delegacia com vários corpos não foi periciada", apontou o ouvidor-geral da Secretaria Nacional de Direitos Humanos, Pedro Montenegro. Ao saber da reação do secretário, lembrou que o relatório foi encomendado pelo Ministério Público do Rio. "Autoridade que não preserva provas deve responder criminalmente. O Rio adota condutas de investigação contrárias às leis. Se isso ocorre por negligência, má-fé, preconceito de classe ou excesso de trabalho, deve ser investigado", declarou Montenegro. Texto alterado às 17h34 para acréscimo de informações.

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