Fabio Motta
Fabio Motta

‘As pessoas merecem o tratamento que foi dado por ocasião dos Jogos’

Secretário admite que falta de salário desmotiva, mas destaca empenho de agentes, ou situação seria ainda pior

Entrevista com

Roberto Sá, secretário de Segurança Pública do Rio

Roberta Pennafort, O Estado de S.Paulo

23 Dezembro 2016 | 03h00

O novo secretário de Segurança Pública do Rio, Roberto Sá, assumiu o cargo há dois meses, no momento mais agudo da crise financeira do Estado. Até então subsecretário de Planejamento e Integração Operacional, ele não teve acréscimo salarial com o aumento da responsabilidade, por causa do corte de 30% feito nos vencimentos pelo governador Luiz Fernando Pezão (PMDB), uma das medidas para minorar o rombo nas contas. “Tive aumento de trabalho e diminuição do salário. Esse cara é louco, não é? Eu me senti convocado para uma missão. Não sei se vou conseguir. Mas achei que tinha de dar mais uma cota de contribuição”, disse ao Estado na segunda-feira, 19. 

Como avalia o aumento da violência no ano da Olimpíada, em que o Rio foi irrigado de verbas?

Foram 11 meses com indicadores altos. O Estado é muito maior do que a Olimpíada. Para reverter isso, estamos projetando ações mesmo com menos recursos. A gente não vai desistir. Já começam a aparecer com muito mais frequência operações que envolvem a delegacia da área, o batalhão da PM da área, a Unidade de Polícia Pacificadora (UPP). Quanto maior for a integração das forças de segurança, melhor será o sistema.

O que o motiva no cargo?

Eu sou um delegado da Polícia Federal, mas fui tenente e capitão do Batalhão de Operações Especiais (Bope). Entrei na polícia aos 18 anos (hoje tem 52). Ao fim da minha carreira, quando sou convidado para o desafio de poder contribuir um pouco mais, eu não consegui dizer não, mesmo com toda a dificuldade. Quero qualificar a discussão sobre segurança pública. Não é trivial morrerem quase 60 mil pessoas no Brasil por violência dolosa. Não é trivial o Rio apreender 20 armas de fogo por dia. Sei que é uma missão muito árdua. Não me iludo com um sonho utópico. 

Como contornar a desmotivação e a queda da produtividade dos policiais com a crise? 

Sem dúvida, quando você afeta o salário, desmotiva o profissional. Mas se eu fosse fazer uma correlação direta com a produtividade, era para estar muito pior. Vejo muito empenho nas polícias. Compreendo quem se desmotiva, tem razão, mas a maioria ainda está fazendo do seu trabalho uma atividade prioritária para a sociedade.

O senhor sucede o secretário José Mariano Beltrame, “o pai das UPPs”, que saiu bem avaliado depois de dez anos no cargo, apesar da crise do modelo. O projeto fracassou? 

Hoje são 38 UPPs, algumas passando por um recrudescimento de violência, o que requer reflexão e medidas de resposta. O que posso dizer é que os resultados foram tão importantes, principalmente os iniciais, que a gente tem a obrigação de fazer o possível para manter as conquistas e aperfeiçoar os processos. Neste mês fizemos a primeira reunião de um comitê permanente de avaliação de desempenho. Não quero ser reativo, mas proativo. A UPP não fracassou. É lógico que já esteve melhor, mas como modelo tático até hoje não encontrei estratégica melhor.

Qual foi o legado da Olimpíada para a segurança?

Um dos legados é a atuação do Centro Integrado de Comando e Controle (CICC). Quero um núcleo de inteligência lá para acompanhar a criminalidade violenta. As pessoas que vivem aqui merecem o tratamento que foi dado por ocasião dos Jogos Olímpicos. 

Qual o panorama para 2017?

Se os policiais estiverem recebendo salário em dia, tenho otimismo de que a gente pode tentar reduzir a violência. E meu planejamento é para reverter essa tendência de elevação dos índices e começar a tendência de queda. Não vou sentar sobre um cenário de crise e deixar as coisas acontecerem. 

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