EFE/Mario Vasconcellos/CMRJ
EFE/Mario Vasconcellos/CMRJ

Assassinato de Marielle Franco é desafio para intervenção no Rio

Comando federal na segurança do Rio completa um mês nesta sexta, com responsabilidade de resolver caso, visto como afronta às autoridades

Roberta Jansen e Marcio Dolzan, O Estado de S.Paulo

15 Março 2018 | 22h37

RIO - Dar uma resposta rápida e eficiente ao brutal assassinato da vereadora Marielle Franco (PSOL) tornou-se o mais imediato desafio da intervenção federal na segurança pública do Rio. Apresentada como "jogada de mestre" pelo governo federal, a ação decidida em Brasília completa nesta sexta um mês sem apresentar resultados expressivos.

E, agora, com um crime brutal e de repercussão internacional para resolver. A ação dos criminosos, para especialistas, é vista como uma afronta às autoridades, passando a ideia que nada pode detê-los.

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Em nota oficial, o interventor federal, general Walter Braga Netto, afirmou repudiar "ações criminosas como a que culminou na morte da vereadora Marielle Franco e de Anderson Gomes". Ainda segundo a nota, o interventor acompanha o caso em contato permanente com o secretário de Segurança, general Richard Nunes.

Na quinta, militares repetiram o procedimento das últimas semanas: foram à comunidade do Viradouro, em Niterói, na Grande Rio, que foi cercada e teve desobstruídas vias antes bloqueadas por traficantes. A ação repetiu o que foi feito várias vezes na favela Vila Kennedy, zona oeste carioca, onde os bandidos restabelecem as barreiras após o fim das operações.

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"Há grande perplexidade em todos nós, mas talvez esse crime seja o grande divisor de águas da intervenção", diz o presidente da Ordem dos Advogados do Brasil, Seccional Rio de Janeiro (OAB-RJ), Felipe Santa Cruz. "Todo assassinato é grave, mas, quando matam uma ativista do tamanho da Marielle, só há dois caminhos: ou reafirmamos que vivemos numa democracia plena, em que as instituições funcionam, ou vamos seguir o caminho de tantos outros países do continente, com instituições fragilizadas, e onde militantes são executados no meio da rua impunemente."

O ministro da Segurança Pública, Raul Jungmann, deu entrevista na noite de quinta no Centro Integrado de Comando e Controle do Rio. Perguntado se achava que o crime poderia simbolizar fracasso da intervenção, ele reagiu, mas reconheceu dificuldades. "A intervenção nunca se propôs a fazer mágica", declarou.

"A intervenção se propôs a trabalho, trabalho e trabalho. A intervenção, até aqui, tem procurado fortalecer e reestruturar as polícias." Ministro da Secretaria de Governo, Carlos Marun disse que o episódio “é mais uma evidência” de que o governo federal “está no caminho certo” ao decretar a intervenção.

Afronta

Pesquisadora da violência da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj), Alba Zaluar vê o crime como tentativa de afronta às forças de segurança. “Com muita audácia, esse assassinato é uma forma de tentar sabotar a intervenção e de chocar a população. O que apavora é a generalidade da vingança contra quem não fez nenhum mal diretamente reconhecível a seus assassinos”, diz. “Escolheram a vítima para causar impacto. E conseguiram.”

A criminalista Maíra Fernandes, da Comissão da Mulher do Instituto dos Advogados do Brasil e parceira de militância de Marielle há quase 20 anos, demonstra ceticismo. "Um crime bárbaro, contra uma vereadora, no Rio após ela ter denunciado, sábado passado, a atuação da PM na favela de Acari. O que a intervenção vai fazer?"

Nas redes sociais, Marielle vinha se posicionando contra o uso das Forças Armadas na segurança. / COLABORARAM CONSTANÇA REZENDE e MARCO ANTÔNIO CARVALHO

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