Fábio Motta
Fábio Motta

Ataque faz ciclistas até desistirem das bikes no Rio de Janeiro

'O que aconteceu com o Jaime é diário, o diferente foi matarem’, diz gerente de loja

Roberta Pennafort, O Estado de S. Paulo

24 Maio 2015 | 03h00

RIO - Quatro cicatrizes de facadas pelo corpo, um pulmão perfurado e um trauma indelével. Atacado cruelmente por cinco jovens no Aterro do Flamengo (zona sul) há sete meses, em uma noite de sexta-feira, o auxiliar de serviços gerais Jorge Felippe Mendonça Leão, de 20 anos, funcionário de uma loja especializada em equipamento para a prática de triatlo, perdeu muito mais do que a bicicleta, que comprara dois dias antes. 

“Agora só ando de metrô. Eles queriam me matar por nada. Foram três facadas, eu caí e eles fugiram com a minha bicicleta. Quando levantei para pedir ajuda, em estado de choque, um deles viu, já longe, saltou da bicicleta e veio correndo atrás de mim, dizendo: ‘eu não acredito que você levantou, agora você vai aprender’. Fisicamente, me recuperei e voltei a trabalhar, mas psicologicamente, não”, contou Leão, que usava a bicicleta como meio de transporte entre a casa, no Santo Cristo, centro do Rio, e o trabalho, em Ipanema, trajeto de 14 quilômetros. 

O jovem reviveu o drama ao saber do assassinato do médico Jaime Gold, na Lagoa Rodrigo de Freitas, na terça. Gold era cliente da Barcellos Sports, loja em que Leão trabalha há um ano, referência na zona sul por ter sido fundada pelo ex-atleta olímpico Armando Barcellos, considerado uma lenda do triatlo.“Até pensei em comprar uma bicicleta nova, mas depois do que aconteceu com o Jaime,desisti.”

O modelo de Leão, para passeio, era dos mais baratos disponíveis na loja, focada em material trazido dos Estados Unidos. Custou R$ 1.400. Os mais caros, de fibra de carbono, que podem ter 4,5 quilos – enquanto as de alumínio pesam o triplo –, com design para alta performance, chegam a R$ 80 mil. 

Os assaltos constantes têm levado os ciclistas a procurar cada vez mais os seguros especializados. “Não temos a cultura do seguro no Brasil, mas ainda assim o número é crescente. Quanto mais casos, mais nos procuram”, disse Luiz Fernando Giovannini, ele próprio dono de 13 bicicletas, sócio da corretora Estar Seguro, que cobre principalmente modelos que custam de R$ 5 mil a R$ 10 mil – no caso das mais simples, o segurado paga 10% do valor da bicicleta. 

Segundo ciclistas ouvidos pelo Estado, os assaltantes de oportunidade, que procuram qualquer modelo, para revenda rápida no mercado negro, atuam em áreas de lazer populares na cidade, como o Aterro e a Lagoa. Já aqueles com olhar treinado, cuja preferência são as bicicletas para competição, preferem os pontos frequentados por atletas, caso de estradas e da Vista Chinesa, mirante no Parque Nacional da Tijuca – áreas em que o policiamento é pouco ou nenhum. 

André Melo, de 40 anos, vendedor da Barcellos Sports, reconheceu o corpo ensanguentado de Jaime Gold nas imagens de TV, pelos acessórios e pela roupa: o boné, a viseira e o conjunto esportivo de compressão para triatlo haviam sido comprados lá, por R$ 1 mil. “A roupa custava mais do que a bicicleta, que não deve valer mais do que R$ 500”, afirmou.

Pesar. Morador de Ipanema, Jaime era conhecido na loja por ser bem - humorado e agitado, e por gostar de pedalar a caráter. O clima na Barcellos é de pesar pelo assassinato do médico. Gerente da loja, Cesar Sardenberg Junior, de 38 anos, lembra que só existe o mercado paralelo porque há ciclistas que preferem comprar produtos mais baratos, sem certeza da procedência.“Tenho me manifestado contra classificados na internet e grupos de compra e venda. Quem compra tem de exigir nota fiscal. O que aconteceu com o Jaime é diário, o diferente foi matarem. A gente não anda na ciclovia, prefere estar no meio dos carros e ser atropelado a ser assaltado. Isso é uma máxima do ciclista do Rio.” 

Sem negociação. Dono de uma mountain bike de R$ 4 mil, seu meio de transporte diário, Kiko Limmah, ator e cinologista, foi assaltado em 1996 e lembra que conseguiu negociar com o assaltante a entrega do relógio e dos documentos. “Hoje não é mais assim. Fiquei 17 anos sem comprar uma bike, mas perdi o medo, mesmo tendo um amigo que foi esfaqueado há seis meses. Agora, não sei mais."

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