Marcos Arcoverde/Estadão
Marcos Arcoverde/Estadão

Ato contra intolerância religiosa reúne cerca de 400 pessoas no Rio

Representantes de diferentes religiões se revezaram ao microfone de um carro de som, entoando cantos de seus respectivos credos

Danielle Villela, O Estado de S. Paulo

21 de junho de 2015 | 11h51

Atualizado às 17h43

RIO - Católicos, evangélicos, adeptos do candomblé, da umbanda e de diversas outras religiões se reuniram em um ato contra a intolerância religiosa na manhã deste domingo, 21, no Largo do Bicão, na Vila da Penha, zona norte do Rio. Cerca de 400 pessoas seguiram em caminhada por cerca de 2 quilômetros pela Avenida Meriti até o local onde a estudante Kayllane Coelho, de 11 anos, levou uma pedrada na cabeça no domingo passado, quando voltava de uma festividade do candomblé, vestida com os trajes brancos típicos da religião de matriz africana. 

“Me sinto muito feliz e muito agradecida por tudo isso que está acontecendo”, disse Kayllane, presente ao ato. Lideranças de diversas religiões seguiram de mãos dadas com a menina e seus familiares à frente da caminhada. A avó de Kayllane, a mãe de santo Kátia Marinho, se surpreendeu com a quantidade de segmentos religiosos que aderiram à manifestação. “Isso prova que todos somos irmãos, cada um na sua fé. Todo mundo sofre com a intolerância e temos que ter amor no coração”, afirmou Kátia, que chegou a chorar durante a caminhada.

Os religiosos se revezaram ao microfone de um carro de som, entoando cantos de seus respectivos credos e proferindo mensagens de paz. “Qualquer ato de violência é inadmissível. Somos diferentes nas nossas crenças e origens, mas somos todos seres humanos”, disse João Melo, pastor da Primeira Igreja Batista em Vila da Penha. A família de Kayllane, cuja mãe é evangélica, é um exemplo de convivência pacífica entre religiões. “Nossa convivência é ótima, eu nunca renegaria a minha família”, afirmou Karina Coelho, mãe da menina.

Na manifestação deste domingo, enquanto muitas pessoas vestiam branco e traziam no pescoço os colares de contas típicos das religiões de matriz africana, outras carregavam suas Bíblias ou cartazes pedindo paz. “Essa pedra atingiu toda a sociedade brasileira. Foi uma atitude fascista que não pode ser tolerada em um estado democrático”, afirmou o babalaô Ivanir dos Santos, interlocutor da Comissão de Combate à Intolerância Religiosa. 

O Conselho de Igrejas Cristãs do Estado do Rio de Janeiro (Conic-Rio) divulgou uma nota de repúdio contra o ocorrido com Kayllane. “A violência destes homens é repugnante e não guarda nenhuma aproximação com um comportamento religioso ou cristão. Pessoas que praticam a violência em nome de Cristo não compreendem o evangelho e não merecem ser chamadas de cristãs”, diz a nota.

No domingo passado, Kayllane e outras sete pessoas voltavam de um evento religioso caminhando pela Avenida Meriti, na Vila da Penha, quando dois homens que estavam em um ponto de ônibus do outro lado da rua começaram a insultar o grupo. Com Bíblias sob os braços, os agressores gritavam “Sai demônio, vão queimar no inferno, macumbeiros” e lançaram a pedra contra o grupo, segundo Kátia Marinho. A pedra bateu em um poste antes de atingir Kayllane, que chegou a desmaiar. Os dois agressores fugiram de ônibus. O caso está sendo investigado pela 38ª Delegacia de Polícia, em Irajá. 

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