Bairro-modelo da prefeitura do Rio é invadido por traficantes

Bairro-modelo da prefeitura do Rio é invadido por traficantes

Criminosos do Comando Vermelho dominaram local inaugurado pela presidente Dilma Rousseff, em 2012, e onde moram 9 mil pessoas

Tiago Rogero, O Estado de S. Paulo

13 de novembro de 2014 | 03h00

 Atualizado às 12h

RIO - Não só condomínios vazios do Minha Casa Minha Vida (MCMV) são invadidos por traficantes no Rio. Além de Guadalupe (zona norte), onde criminosos participaram no fim de semana da ocupação de prédios prestes a ser entregues, o tráfico de drogas tomou conta do projeto modelo de política habitacional da prefeitura.

Inaugurado em 2012 pela presidente Dilma Rousseff (PT) e onde moram cerca de 9 mil pessoas, o Bairro Carioca, em Triagem, também na zona norte, foi construído com recursos federais, por meio do MCMV.

No Bairro, hoje quem manda é o Comando Vermelho. Tal como numa favela controlada pelo grupo, os muros são pichados com as siglas CV.

Em frente à recém-inaugurada Nave do Conhecimento (sede de projeto de inclusão digital da prefeitura), fica uma das bocas de fumo. Traficantes não se importam de ostentar armas ao andar pelas ruas do condomínio. "O tráfico está aqui desde o começo, mas, de uns seis meses pra cá, piorou", contou uma moradora. "Não temos tranquilidade nenhuma mais. As crianças não podem brincar."

Essa história não é inédita no Rio. Comunidades como Cidade de Deus, (Jacarepaguá, zona oeste), com cerca de 40 mil moradores e ocupada por uma Unidade de Polícia Pacificadora (UPP), surgiram justamente a partir de conjuntos habitacionais construídos na década de 1960. Apesar da UPP, a favela ainda é dominada pelo CV.

Para o sociólogo Paulo Magalhães, do Instituto de Estudos do Trabalho e Sociedade (IETS), é exatamente o que acontecerá não só com o Bairro Carioca, mas, a médio prazo, com todos os condomínios do MCMV no Rio.

Pesquisadora do Laboratório de Estudos Urbanos da Fundação Getúlio Vargas (FGV), a antropóloga Mariana Cavalcanti alerta que não só a segurança pública é o problema, mas todo o modelo habitacional, segundo ambos muito mais focado em construções populares (como Cidade de Deus e, também da década de 1960, as hoje favelas Vila Kennedy e Vila Aliança) que na urbanização de comunidades já existentes.

A prefeitura afirma que segue com a urbanização, por meio do programa Morar Carioca, que tem como meta urbanizar todas as favelas da cidade até 2020.

Nos condomínios, explica a professora da FGV, "pessoas que sempre viveram na informalidade são obrigadas a viver no mundo real, sem qualquer assistência do poder público, com regras e pagamento de taxas". Homens e mulheres das mais variadas comunidades são colocados no mesmo lugar.

Só no Bairro Carioca, ocupam os 2.240 apartamentos ex-moradores de 32 favelas dominadas por facções criminosas inimigas.

Cerca de 70 mil pessoas moram em 17.675 apartamentos construídos pela prefeitura por meio do MCMV. A maioria fica afastado do centro. O Bairro Carioca, a 8,5 quilômetros da Avenida Rio Branco, é uma das raras exceções. As unidades de Cosmos (zona oeste), por exemplo, ficam a 70 quilômetros da região central. O de Guadalupe, centro das atenções nesta semana, a 30 quilômetros.

O prefeito Eduardo Paes (PMDB) chamou nesta quarta-feira, 12, de "malandro e vagabundo" as cercas de 200 pessoas que ocupam o condomínio de Guadalupe. "O Minha Casa Minha Vida é para pessoas humildes, que se cadastram, esperam pacientemente a sua vez para ter uma casa própria", disse.

A empresa responsável pela construção, BR4, contratada pela Caixa Econômica Federal, já entrou na Justiça pedindo a reintegração de posse.

Sobre o Bairro Carioca, Paes admitiu o problema e disse já ter acionado a Secretaria Estadual de Segurança. Ele não titubeia ao afirmar com veemência tratar-se do "projeto modelo" de sua política habitacional.

"Tem metrô e trem na porta, saúde (Clínica da Família), educação (escola e creche), mercado e uma 'Nave do Conhecimento'. Além de casas urbanizadas. O que mais falta?", declarou o prefeito.

Comparado aos demais condomínios do MCMV, o Bairro Carioca de fato é exceção em quantidade de equipamentos e acesso a transporte. Mas, para Mariana e Magalhães, a solução não passa só por escola, clínica, comércio e transporte.

"Tem de haver ocupação maior do espaço público, uma vida de cidade. Você anda lá e só vê os prédios. Mesmo o lugar que há para o comércio é segregado. Política habitacional não tem de tentar fazer uma cidade nova, mas reaproveitar a cidade que já existe", disse a antropóloga.

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