Balas perdidas no réveillon podem ter saído de uma única arma

Essa hipótese está sendo investigada pela polícia carioca em função da proximidade das vítimas

Alexandre Rodrigues ,

02 de janeiro de 2008 | 19h30

A polícia do Rio investiga a possibilidade de pelo menos quatro das seis pessoas baleadas na Praia de Copacabana durante a festa de réveillon terem sido vítimas do mesmo atirador. Nesta quarta, 2, a delegada Martha Rocha, titular da 12.º DP, ouviu três das quatro pessoas que provavelmente foram atingidas por balas perdidas perto do palco onde se apresentou o DJ Marlboro e escolas de samba depois do show pirotécnico. Os quatro foram feridos entre 0h e 0h15 e estavam entre dois quarteirões da Avenida Atlântica. Para a delegada, há a possibilidade de eles terem sido feridos pela mesma arma, mas ainda é cedo para dizer de onde os tiros partiram. Outra dificuldade é determinar o calibre das balas, já que os projéteis ainda estão alojados no corpo das vítimas. A primeira análise dos peritos nos ferimentos indica que as balas se alojaram na descendente, o que faz mais forte a tese de que os tiros foram dados para o alto, provavelmente como forma de comemoração do ano novo, e atingiram as vítimas ao cair. "Existe essa possibilidade, mas ainda precisamos confrontar todos os dados", disse o perito Hélio Martins, cauteloso."Acho que a bala veio do alto, por trás, e se alojou deitada", afirmou a vendedora Camila Rodrigues da Silva, de 18 anos. Acompanhada da delegada e de dois peritos do Instituto de Criminalística Carlos Éboli, ela voltou ao local onde foi ferida. Camila estava na areia, perto do palco, na altura do número 2440 da Avenida Atlântica. Abraçada a um amigo, foi atingida no ombro durante a queima de fogos. "Senti queimar e quando olhei estava saindo muito sangue. Só tinha o barulho dos fogos na hora, tiro a gente não escutou" disse" Assustada, não quer mais saber de fogos em Copacabana: "Nunca mais."  Bem perto de Camila, na altura do número 2406, o vigilante Anderson Fagundes, de 29 anos, foi atingido na perna direita no fim do show pirotécnico. "Senti uma pancada na perna e achei que era um corte com vidro, de alguma garrafa de alguém. Só no hospital que vimos que era uma bala achada, não perdida", disse Anderson, socorrido no Hospital Miguel Couto, no Leblon, onde trabalha. Era a primeira vez que ele e a mulher, Ester, iam ver os fogos em Copacabana, na companhia de parentes mineiros. O raio X mostra a bala alojada praticamente paralela ao osso da parte inferior da perna dele.   "Não tenho idéia de onde veio a bala. Pensei que era uma festa segura, mas o Rio não é mais uma cidade segura, infelizmente. É uma tristeza, a gente vem para uma festa de fim de ano e acontece isso", queixou-se. Ele afirmou compreender as dificuldades da polícia em identificar o autor do disparo.  Copacabana nunca mais  Do outro lado do palco, o policial civil Carlos Alberto Tavares, que estava de folga, também foi atingido na perna direita. Ele estava na areia, na altura do Hotel Marriot (nº 2600). Na esquina da Atlântica com a Rua Figueiredo Magalhães, Wilma de Oliveira Santos, de 63 anos, foi atingida nas costas. Ela prestará depoimento hoje, mas sua filha contou à delegada que a mãe estava próxima a um carro da polícia e não imaginava ser baleada justamente ali.  "Não tivemos notícia de brigas ou conflitos armados no local até agora, mas sabemos que os casos aconteceram no mesmo horário e as pessoas estavam muito próximas, principalmente o Anderson e a Camila. De qualquer forma, só um exame de balística vai dizer se o tiro saiu da mesma arma", disse Martha Rocha.  O analista de informática Rodrigo Cruz, de 23 anos, foi atingido no ombro num ponto mais distante. Ele havia acabado de chegar à praia, na altura da Rua Constante Ramos, e foi atingido logo após abraçar a namorada com o início dos fogos. "Senti um solavanco forte no ombro, coloquei a mão e senti algo. Tirei um projétil amassado do ferimento, que sangrava muito", contou. "Pelo ferimento, acho que o tiro foi disparado para o alto por alguém que não teve aula de física e não sabe que a bala cai. Copacabana nunca mais", disse. O delegado André Drummond, titular da 13º DP, investiga o caso de Gustavo Almeida Queiroz, de 24 anos, que foi atingido por dois tiros, no abdome e numa das coxas, por volta das 2 horas na altura da Rua Constante Ramos. A vítima, um turista de Belo Horizonte, disse que foi vítima de bala perdida e que não se envolveu em brigas. No entanto, o delegado ainda tem dúvidas sobre sua versão.Elias Gabriel Batista da Silva, de 29 anos, que morreu baleado em Ipanema também na noite de Réveillon, foi enterrado nesta quarta, 2, no Cemitério São João Batista. A polícia descartou a hipótese de bala perdida e trabalha com o envolvimento do rapaz numa briga. Investigadores buscam imagens das câmeras de edifícios da Avenida Vieira Souto para tentar identificar os envolvidos.

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