Banheiro onde menina foi intoxicada por gás teve outra morte

Este é o terceiro caso de intoxicação no banheiro em flat do Rio; síndica e proprietário podem ser indiciados

Pedro Dantas, do Estadão,

20 de agosto de 2007 | 20h08

Um menino de 5 anos morreu no mesmo banheiro que a menina Kawai Baisotti, de 12 anos, que morreu intoxicada após um vazamento de gás em flat na Barra da Tijuca, na zona oeste do Rio de Janeiro. O inquilino anterior à família da menina também sofreu uma intoxicação no mesmo banheiro, segundo o delegado que investiga o caso.   Carlos Augusto Nogueira Pinto, da 16ª Delegacia de Polícia da Barra da Tijuca, afirmou nesta segunda-feira, 20, que pode indiciar a síndica do prédio ou o proprietário do imóvel no condomínio Barra Beach por homicídio doloso. "Quem era responsável pela manutenção vai responder inicialmente por homicídio culposo, mas se for constatado que houve negligência ou aceitação do risco de morte, pode ser indiciado por homicídio doloso", afirmou o delegado.   Nesta segunda, o laudo do Instituto de Criminalística Carlos Éboli (ICCE) confirmou que Kawai morreu intoxicada por gás. Uma perícia foi realizada no local por técnicos do ICCE e pela Companhia Estadual de Gás (CEG). O delegado da 16ª DP declarou que as instalações de gás do apartamento são antigas, os dutos de exaustão pequenos, apesar do prédio ter informado aos policiais que realiza a manutenção.   Responsabilidades   Por meio de uma nota, a CEG informou que a "ventilação inferior (espaço embaixo da porta do banheiro) não está correta" e que a chaminé do aquecedor possui diâmetro "insuficiente às normas técnicas vigentes". Apesar das condições descritas como precárias por técnicos e policiais, a CEG não encontrou escapamento de gás no apartamento e o nível de monóxido de carbono produzido pelo aquecedor estaria dentro das normas brasileiras.   Na terça-feira, 21, a síndica Sônia Malaquias e a gerente Márcia Campos do Barra Beach, prestarão depoimentos. "Vamos apurar as responsabilidades de cada delas na manutenção do gás dos apartamentos. Em princípio, descarto o indiciamento do padrasto (que estava no flat com as meninas) porque ele poderia ter sido mais uma vítima e não é técnico", disse Nogueira Pinto.   O condomínio Barra Beach adiantou que cabe aos proprietários a manutenção dos apartamentos. A imobiliária Sol da Barra informou que vai aguardar o fim das investigações para se pronunciar.   A irmã de Kawai, Keilua Baisotti, de 6 anos, permanece internada na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) Pediátrica do Hospital da Lagoa em estado grave e respira com a ajuda de aparelhos. Uma tomografia cerebral constatou um edema. Kawai foi enterrada ontem no cemitério Jardim da Saudade, em Paciência (zona oeste).   Ação civil   A micro-empresária Fátima Rodrigues, integrante do movimento Morte por Gás Nunca Mais, está reunindo assinaturas para pressionar o Ministério Público Estadual a abrir uma ação civil pública contra a CEG. "Só temos uma empresa que fornece o gás e não podemos ficar à mercê desse monopólio. A tubulação da cidade não está preparada para receber o gás natural, que tem muito mais pressão do que gás manufaturado", afirmou.   O movimento reúne 10 famílias de pessoas que morreram intoxicadas por gás. A filha de Fátima, Carolina, morreu em 13 setembro de 2006, aos 19 anos. No dia anterior, um casal havia morrido pelo mesmo motivo. "As pessoas precisam se conscientizar que todos corremos riscos. A CEG tem que instalar tubulação externa em todos os imóveis", defendeu.   Outros casos Em setembro de 2006, uma jovem de 19 anos morreu no banheiro de casa, por inalação de gás. Carolina Rodrigues Macchiorlatti morava em Laranjeiras, na zona sul do Rio, e foi encontrada desacordada pela irmã mais nova, que chamou os bombeiros. Quando os bombeiros chegaram ao local, Carolina já estava morta. Foi a terceira morte em condições parecidas em dois dias.      Dias antes, um jovem casal de namorados morreu quando tomava banho, na Tijuca, zona norte. Os corpos de Raquel Gonçalves Coutinho, de 15 anos, e Alexandre de Oliveira Martins, de 22, foram encontrados pelo irmão dela, que arrombou a porta do banheiro depois de estranhar a demora do casal e não ter obtido resposta ao chamá-los.   O resultado do laudo do Instituto Médico-Legal confirmou que eles morreram asfixiados por monóxido de carbono. Não foram constatados defeitos no aquecedor, mas o banheiro não estava adaptado às normas de segurança da Companhia Estadual de Gás. A hipótese de suicídio foi descartada pela polícia.   Em 1998, mesmo ano da morte do menino de 5 anos no flat onde Kawai morreu, os jovens Murilo Paranhos e Kristi Leigh Ziegler, ambos de 19 anos, foram achados mortos na banheira de um apartamento  em São Conrado, zona sul do Rio.  O casal foi encontrado pela empregada da casa e a  causa da morte foi relacionada ao vazamento de gás

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