Beltrame diz que falta ‘detalhe’ jurídico para prisão de suspeitos de estupro

Polícia espera por exame de corpo de delito para confirmar abuso sofrido por jovem de 16 anos no Rio

Idiana Tomazelli e Vinicius Neder / RIO, O Estado de S.Paulo

27 Maio 2016 | 23h12

O secretário da Segurança Pública do Rio, José Mariano Beltrame, afirmou nessa sexta-feira, 27, que ainda falta “detalhe jurídico” para pedir a prisão preventiva dos homens suspeitos de estuprar uma jovem de 16 anos no Morro da Barão, zona oeste da cidade. Ele falou ao lado do ministro da Justiça, Alexandre de Moraes, que foi ao Rio acompanhar as investigações e colocou a Polícia Federal à disposição para ajudar na busca dos envolvidos. Tanto a jovem quanto o principal acusado pelo crime prestaram depoimento à polícia. 

“Se ele (o delegado que comanda as investigações) ainda não fez (o pedido de prisão), pode ter certeza de que ainda não conseguiu subsídios suficientes para isso. Se isso não foi feito, algum detalhe faltou. Mesmo assim, para que se peça a prisão preventiva, ela tem de ser bem fundamentada”, disse Beltrame. O secretário ainda admitiu que a falta de pedido de prisão pode permitir a fuga dos suspeitos.

A adolescente afirma que foi violentada por mais de 30 homens armados e imagens da vítima foram divulgadas na internet, o que provocou uma série de protestos. Houve manifestações no Rio, em São Paulo e em Curitiba.

A jovem prestou novo depoimento, em que, segundo sua advogada, Eloísa Samy Santiago, disse que não conhecia os agressores. Também na sexta-feira, Lucas Duarte Santos, de 20 anos, com quem ela manteve um relacionamento, falou à polícia e afirmou que não houve crime. 

Impune. Beltrame disse que o crime é uma agressão a todos os cidadãos. “Seja lá com o auxílio de quem for, não vamos permitir que um crime dessa natureza fique impune”, disse o secretário. “Só posso dizer que vamos buscar as pessoas que cometeram essa atrocidade.”

O secretário confirmou que a polícia deflagrou uma operação no Morro da Barão, na noite de sexta-feira. Até as 23 horas, não havia informações de detidos. 

O ministro Alexandre de Moraes afirmou que o estupro coletivo fere a dignidade de todas as mulheres. “Esse é um atentado à dignidade não só da vítima, mas à de todas as mulheres”, disse. “Aqueles que praticaram esse crime hediondo serão achados, presos e condenados.”

Prisão. Os delegados responsáveis pelo caso também falaram sobre a decisão de não pedir a prisão preventiva à Justiça. “Como pai, como marido, também penso ‘por que esse sujeito ainda não está preso?’. Mas, do ponto de vista técnico, essas decisões são mais complexas”, afirmou o chefe da Polícia Civil do Rio, Fernando Veloso.

A polícia ainda não definiu o número de agressores envolvidos no crime. “Não chegamos a conclusões para dizer que houve estupro coletivo por 33, 36, 30”, afirmou Veloso. “Há indícios veementes de que houve estupro, mas não podemos afirmar ainda se houve ou não. Só o exame de corpo de delito vai apontar”, disse. Segundo Beltrame, porém, o número de agressores não trará diferença na condução do caso. “Seja uma pessoa ou 30 pessoas, essa adolescente é vítima, e é assim que ela tem de ser tratada.”

Para a polícia, a prioridade agora é dar andamento às investigações e localizar outros suspeitos. “Vamos conduzir essas pessoas (suspeitos) o quanto antes para tomar uma declaração”, disse o delegado Alessandro Thiers, titular da Delegacia de Repressão aos Crimes de Informática (DRCI). A divulgação das imagens já é crime.

Reunião. A secretária nacional de Direitos Humanos, Flávia Piovesan, disse que foi convocada por Moraes para reunião na terça, ao lado da secretária nacional de Políticas para Mulheres, Fátima Pelaes. O encontro terá ainda a presença dos secretários de Segurança de todo o País. “O tópico central, que receberá grande prioridade, é a temática de violência contra a mulher.” Ela afirmou que o caso causa “perplexidade, estarrecimento e indignação coletiva”.

Flávia disse que o caso mostra as características da violência de gênero. “Esse é um componente cultural baseado em relações assimétricas entre homens e mulheres. É fundamental adotar medidas preventivas de combate à cultura de violência contra a mulher.”

O presidente em exercício, Michel Temer, publicou nota na qual repudiou “com a mais absoluta veemência o estupro da adolescente”. Ele prometeu criar um departamento para combater a violência contra a mulher nos moldes da Delegacia da Mulher. “É um absurdo que em pleno século 21 tenhamos que conviver com crimes bárbaros como esse.” / COLABOROU WILLIAM CASTANHO

 

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.