Wilton Junior/Estadão
Wilton Junior/Estadão

Beltrame continuará como secretário de Segurança do Rio

Gaúcho terá pela frente, além dos Jogos Olímpicos, um dos momentos mais delicados das UPPs

Tiago Rogero, O Estado de S. Paulo

30 Outubro 2014 | 16h47

RIO - Falta só o governador anunciar. Em 2015, o gaúcho José Mariano Beltrame continuará como secretário estadual de Segurança do Rio. Reeleito para o governo do Rio no último domingo, Luiz Fernando Pezão (PMDB) já havia deixado claro interesse em manter o delegado de Polícia Federal à frente da pasta, historicamente uma das mais delicadas e importantes do Estado. Mesmo após quase oito anos como secretário, Beltrame está disposto a ficar - e para isso tem se reunido com o governador, que ficou a cargo do anúncio oficial, em novembro.

Nesse mesmo mês, mas em 2006, tocou o telefone na casa de uma tia do então "apenas" delegado, em Santa Maria (RS). Na linha, o recém-eleito governador do Rio, Sérgio Cabral (PMDB): "Beltrame, você topa ser o secretário estadual de Segurança"? "Claro que topo". "Então corre de volta (pro Rio) porque vou apresentar você amanhã de manhã" - a conversa está relatada na biografia do secretário, "Todo dia é segunda-feira", lançada este ano. 

Justamente a falta de "finais de semana" pesou para a indefinição quanto ao futuro do secretário, que o próprio Pezão admitiu durante a campanha e logo após ser reeleito. Em entrevistas, o governador sempre afirmou querer a continuidade de Beltrame, de quem se tornou amigo pessoal, mas reconhecia o "cansaço" do delegado após tantos anos no cargo (um recorde na pasta, no Rio). "É desconfortável estar impedido de caminhar como um cidadão comum pela rua", relatou o secretário na biografia. Além das limitações impostas pelo cargo, nesses quase oito anos o gaúcho nunca chegou a tirar férias - no máximo uma semana ou um fim de semana "prolongado", que invariavelmente abortou para voltar ao Rio, em momentos de crise.

Segundo fontes ligadas ao secretário e a Pezão, Beltrame vai continuar. Oficialmente, o gaúcho é mais cauteloso, embora deixe transparecer o futuro. "O governador tem um tempo para fazer isso (anunciar o secretariado) e estamos vendo como podemos colaborar", disse nesta quinta-feira o secretário. "Na hora certa, ele (Pezão) vai se manifestar". A cautela tem um motivo que o próprio Beltrame explica: faltam coisas que têm de ser "alinhadas". Além da ampliação dos investimentos em Segurança e a necessidade de finalmente chegar com o "social" nas comunidades "pacificadas", Beltrame tem feito reuniões com sua equipe para descobrir a "nova UPP": um projeto que tenha o mesmo impacto sobre a segurança - ainda uma área problemática no Rio - que tiveram as Unidades de Polícia Pacificadora. 

O projeto das UPPs, que deu a Beltrame repercussão nacional e foi o carro-chefe da reeleição de Sérgio Cabral ainda no primeiro turno, em 2010, será mantido e, garantem Pezão e Beltrame, ampliado. "Convidado" publicamente pelo candidato derrotado à presidência, Aécio Neves (PSDB), para assumir cargo no governo federal caso fosse eleito, o gaúcho negou ter recebido qualquer convite até agora por parte da presidente Dilma Rousseff (PT). No ano passado, com as UPPs ainda em alta, o PMDB queria lançar Beltrame como candidato a vice na chapa de Pezão. O secretário não quis; avesso ao "jogo político", não é filiado a partido algum e tem Santa Maria até hoje como seu domicílio eleitoral.

Além dos Jogos Olímpicos e Paralímpicos de 2016 (Pezão quer que o secretário continue pelo menos até lá), Beltrame terá pela frente um dos momentos mais delicados desde que as UPPs foram criadas. Este ano, os confrontos aumentaram nas principais comunidades "pacificadas" e, na maior delas, o complexo de favelas do Alemão e da Penha, só este ano seis PMs de UPPs foram assassinados em serviço, entre eles o capitão Uanderson Manoel da Silva, de 34 anos, primeiro comandante de Unidade a perder a vida desde que o projeto teve início, em 2007. Somem-se os casos constantes de corrupção policial - dezenas de PMs foram presos só este ano, a maioria em operações da própria secretaria.

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