Marcos Arcoverde/Estadão
Marcos Arcoverde/Estadão

Beltrame deixa Secretaria de Segurança do Rio, depois de 10 anos

Responsável por implantar as UPPs, ele foi o secretário que ficou mais tempo no cargo; carta de demissão foi entregue aos governadores Dornelles e Pezão

Clarissa Thomé, Daniela Amorim e Wilson Tosta, O Estado de S.Paulo

11 Outubro 2016 | 11h44
Atualizado 11 Outubro 2016 | 21h06

O delegado federal José Mariano Beltrame pediu demissão do cargo de secretário de Segurança do Rio, encerrando a mais longa gestão à frente da pasta: dez anos. A saída do secretário foi anunciada oficialmente nesta terça-feira, 11, um dia depois que três pessoas morreram em confronto entre traficantes e policiais e o comércio ficou fechado em Copacabana, na zona sul. 

Havia alguns anos, porém, Beltrame alegava cansaço e se mostrava disposto a deixar o posto. Postergara sua saída a pedido do governador licenciado, Luiz Fernando Pezão (PMDB). 

O secretário pediu demissão na segunda ao governador em exercício, Francisco Dornelles (PP). Indicou para substituí-lo o subsecretário de Planejamento e Integração Operacional, Roberto Sá. Inicialmente, especulou-se que Beltrame ficaria no posto até o segundo turno das eleições. Em Brasília, onde participa de encontro para discutir a Previdência dos Estados, Pezão disse que ainda insistiria com Beltrame para que ficasse. Dornelles, no entanto, já aceitara o pedido verbal. 

No fim da tarde, Sá foi chamado ao Palácio Guanabara. Ele assumirá na segunda-feira.

Desgaste e crise. Beltrame deixa o cargo em meio ao desgaste provocado pela crise financeira do Estado. Ao longo do ano, policiais trabalharam com salários atrasados, tiveram racionados de gasolina a insumos para perícia e papel para confecção de boletins de ocorrência. Delegacias recorreram a doações de associações de moradores. 

Os cortes impediram a expansão das Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs). Nas comunidades com algumas delas, como no Complexo do Alemão, o tráfico e os tiroteios – diários – voltaram. A UPP da Maré, da qual se fala há pelo menos quatro anos, nunca saiu do papel.

Recursos da Assembleia Legislativa e do governo federal, às vésperas da Olimpíada, deram curto alívio à pasta. Outro fator de desgaste foi o número crescente de policiais mortos. Só neste ano, foram registrados 89 casos até 10 de outubro, ante 85 em todo o ano passado. 

Em 2016, os crimes de rua, em especial roubos e furtos, explodiram. Foram 11.032 ocorrências em agosto, ante 6.562 no mesmo mês no ano passado. O aumento foi de 68%. A sensação de segurança, que o projeto trouxera inicialmente, acabou.

Amarildo. Ao longo da sua gestão, ele enfrentou crises como o assassinato de Claudia Silva Ferreira, baleada em operação policial no Morro da Congonha, na zona norte do Rio, e arrastada por um carro da PM, enquanto era socorrida, e a derrubada de um helicóptero da polícia por traficantes do Morro dos Macacos. Houve ainda a onda de ataques de traficantes que deixou pelo menos 39 mortos, em novembro de 2010. O episódio levou à ocupação do Complexo do Alemão, que teve o auxílio de blindados da Marinha. O desfecho do episódio foi apresentado como uma vitória de Beltrame.

Apesar das dificuldades, ele era provavelmente o secretário estadual mais prestigiado do Rio. Em 2013, porém, as coisas começaram a mudar. Vieram o desaparecimento do auxiliar de pedreiro Amarildo de Souza, na Rocinha, depois de preso por PMs, e a violenta repressão às “jornadas de junho”. Paralelamente, indicadores de violência voltaram a piorar.

Em entrevista ao Estado, em maio, Beltrame defendeu o projeto das UPPs. “Temos uma conta de que a UPP já salvou quase 10 mil vidas”, afirmou.

Dever cumprido.  Nesta terça, o secretário usou o perfil oficial da Secretaria de Estado de Segurança do Rio de Janeiro em uma rede social para comentar a ação policial na comunidade Pavão-Pavãozinho, em Copacabana, na zona sul, na segunda-feira. Segundo ele, as imagens captadas por cinegrafistas e moradores, como as que mostram um homem baleado caindo de um penhasco, “são péssimas para a cidade”. “Mas a polícia não pode se omitir e, mais uma vez, cumpriu seu papel”, completou Beltrame. Segundo ele, a operação evitou novamente uma guerra entre quadrilhas. 

PERFIL: Sucessor esteve à frente de plano de pacificação

O novo secretário de Segurança do Rio, delegado federal Roberto Sá, de 51 anos, começou sua carreira como oficial da Polícia Militar. Ele ingressou na Escola de Formação de Oficiais da Polícia Militar, em 1983, como cadete, e chegou a tenente-coronel. 

Na Polícia Militar, foi instrutor do Batalhão de Operações Especiais entre 1989 e 1992. Deixou a corporação para ingressar por concurso na Polícia Federal, depois de se formar em Direito. Esteve à frente da Delegacia de Polícia Fazendária do Estado do Acre e participou, como chefe de Segurança Móvel, da escolta das 184 delegações estrangeiras presentes à Assembleia-Geral da Interpol, realizada no Rio, em 2006. Como subsecretário de Segurança, esteve à frente do planejamento para implementação das Unidades de Polícia Pacificadora.

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