Fabio Motta
Fabio Motta

Rio destrói calçamento bicentenário no centro

Com aval de órgão de patrimônio, prefeitura quebrou piso pé de moleque em área de futuro VLT; só trecho de 15 m² foi preservado

Juliana Dal Piva e Sergio Torres, O Estado de S. Paulo

29 Outubro 2015 | 03h00

RIO - A Prefeitura do Rio destruiu ao menos 200 metros lineares do bicentenário calçamento pé de moleque, descobertos em agosto deste ano durante as escavações para a implantação do Veículo Leve sobre Trilhos (VLT) na Rua da Constituição, no centro. Tratores e máquinas pesadas devastaram o piso no último fim de semana. Especialistas, preservacionistas e historiadores da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) e da Universidade Federal Fluminense (UFF) estão indignados.

"O calçamento era do fim do século 18 e início do século 19. Em alguns trechos dava para perceber os pisos sobrepostos dos dois séculos. Em uma pequena parte era possível ver até o resto do trilho do bonde, que é do início do século 20. Agora, tudo isso está coberto por terra", lamentou o historiador Marcus Alves, do Arquivo Nacional.

O slogan da prefeitura para as obras em regiões históricas do Centro é "Ao mesmo tempo em que o Rio se moderniza, a cidade redescobre o passado". A frase consta da placa instalada na Rua da Constituição, com informações sobre as obras. O pé de moleque é formado por pedras arredondadas, de tamanhos variados e alinhadas de maneira desigual, como acontece, por exemplo, no centro histórico do município de Paraty (RJ).

Dos 200 metros expostos, apenas 15 metros quadrados foram mantidos. O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) autorizou a retirada das pedras que formavam o calçamento, tradicional nas pioneiras cidades brasileiras a partir dos anos 1700 do século passado. Em nota, o Iphan credita a autorização à "impossibilidade de permanência do calçamento por completo". De acordo com o mais importante órgão oficial de preservação histórica e patrimonial do País, "devido às pedras utilizadas para o calçamento da rua apresentarem grande dimensões, inclusive em profundidade, torna-se inviável a remoção de trechos por inteiro, causando a desintegração do piso em sua forma original".

Ainda conforme as explicações do Iphan, "15 metros quadrados do piso serão modelados, mapeados, desmontados e remontados em vão central do VLT, em 10 metros lineares de via, na própria Rua da Constituição, onde poderão ser contemplados pela população".

Entidade da prefeitura, a Companhia de Desenvolvimento Urbano da Região do Porto do Rio (Cdurp), responsável pela obra do VLT, informou que a destruição do calçamento seguiu o planejamento da obra, "como previsto na proposta enviada e aprovada pelo Iphan". De acordo com a Cdurp, a área selecionada "para desmonte e remontagem é o trecho mais antigo, que ainda mantém o desenho original e de maior representatividade histórica, conforme avaliação dos arqueólogos". 

Marcus Alves integra o SOS Patrimônio, instituição dedicada a proteger e preservar espaços históricas da capital fluminense. Desde a descoberta do calçamento, os integrantes do grupo se mobilizavam por sua preservação integral. De acordo com o historiador, abaixo-assinados foram protocolados na Casa Civil da prefeitura e no Rio Patrimônio da Humanidade, órgão municipal responsável pela manutenção de bens considerados patrimônios históricos da cidade.

Na segunda-feira passada, Alves soube que o calçamento fora removido. "Eles aproveitaram que o centro da cidade estava vazio (no último fim de semana) e arrancaram tudo. Foi uma violência enorme, sem a menor transparência", afirmou.

O grupo pretendia que o calçamento fosse preservado integralmente e isolado com material de vidro transparente. Assim, poderia ser apreciado por quem passasse pelo local ou andasse no VLT, transformando-se em uma mais atração histórica do centro remodelado. "O calçamento cobria duas quadras, cerca de 200 metros. Vão colocar umas pedras, ali para um simulacro. Não deveriam tomar uma decisão dessas a portas fechadas, sem ninguém saber", criticou.

O trecho da Rua da Constituição em que o piso pé de moleque foi descoberto fica entre o Campo de Santana e a Praça Tiradentes. Há 250 anos, o local era habitado por famílias pobres, tanto que a praça tinha o nome de Campo dos Ciganos. Até 1820, a Constituição chamava-se Rua dos Ciganos.

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