Marcos Arcoverde
Marcos Arcoverde

Carnaval de blocos ‘paralelos’ cresce no Rio

Grupos reivindicam mais espontaneidade nas ruas, sem carro de som, patrocínio ou taxa para foliões; prefeitura diz que não veta ninguém

Roberta Pennafort, O Estado de S.Paulo

24 Janeiro 2016 | 03h00

RIO - Fortalecidos desde os anos 2000, os blocos de carnaval do Rio, que reúnem 5 milhões de pessoas, pelos cálculos dos órgãos municipais, dividem-se entre uma agenda oficial e outra paralela. A primeira, divulgada pela prefeitura, que analisa e aprova previamente os horários e itinerários propostos pelos organizadores dos desfiles, começou no dia 16 e só se encerra em 14 de fevereiro, o “domingo de Cinzas”. A segunda é a dos blocos que reivindicam mais espontaneidade na festa e saem sem reportar local e data. Seus foliões defendem um carnaval mais romântico, menor, sem carro de som e patrocínio – e pregam o fim da “mercantilização da folia”.

O Boi Tolo, que está completando dez anos, tem esse espírito. Seu nascimento se deu de forma inusitada: um grupo grande de desconhecidos chegou à Praça 15 para aproveitar outro bloco, o Cordão do Boitatá. Animados, os presentes resolveram juntar-se e brincar o carnaval sem compromisso.

“Somos um encontro de foliões, ninguém paga nada, ninguém recebe nada. Para nós, essa burocracia de ter de solicitar autorização com seis meses de antecedência é impossível, não temos estrutura para isso”, disse o aposentado Luiz Otávio Almeida, que tem sido um porta-voz do bloco, mas rechaça a alcunha de “diretor”. “A prefeitura não faz distinção entre um bloco pequeno e o que chama milhões, tolhe qualquer tipo de liberdade. Entrega o carnaval a uma marca de cerveja. Se você precisa de R$ 30 mil para colocar um bloco na rua, já é algo artificial.” 

O valor citado por Almeida é referente aos custos para o desfile de um bloco médio, para cerca de dez mil pessoas. Cobre o caminhão de som, alugado por cerca de seis horas, a contratação de seguranças e o pagamento dos direitos autorais pelas músicas tocadas, entre outros gastos. O dinheiro é levantado pela organização dos blocos com patrocinadores, que podem buscar isenção fiscal pela Lei Rouanet ou se inscrever em editais públicos, e também por meio de shows realizados durante o ano. Em alguns casos, lança-se mão de sites de financiamento coletivo. 

A bandeira dos blocos “dissidentes” é a “deseletrificação” do carnaval, ou seja, a presença dos músicos na rua, tocando seus instrumentos entre os foliões, sem palco. Eles consideram que desinchar os blocos é o caminho para o carnaval do Rio. Hoje, além do tradicional Bola Preta, que sai aos sábados de carnaval no centro desde 1918 e reúne 2 milhões de pessoas, blocos como o da cantora Preta Gil e o Monobloco, segundo a prefeitura, devem atrair cerca de 400 mil foliões.

Secretos. Para este ano, acredita-se no aumento do número de blocos secretos, que não se divulgam. Tudo indica que eles sairão em áreas até agora não ocupadas por desfiles, como a Gamboa, a Saúde e a Praça da Bandeira, na região central do Rio, e também na zona norte. No mapeamento oficial, 26,14% dos blocos são da zona sul – área considerada saturada, na qual não são aceitas novas inscrições.

A ideia de que a organização acaba com a espontaneidade é refutada pelo secretário de Turismo, Antônio Pedro Figueira de Mello. “Isso é uma baboseira. Hoje 99,9% dos blocos são autorizados. A prefeitura organiza a cidade, caso contrário fica inviável. Até 2008 não tinha nenhuma ação para o carnaval de rua. Você acordava e tinha um bloco fechando a sua rua, que depois ficava lotada de lixo. Hoje o carnaval de rua do Rio é o maior do País, democrático, sem cordas, e a gente dá seminário para cidades que têm tradição, como Salvador e Recife.” Ele afirmou que blocos sem autorização não serão coibidos durante o carnaval. 

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