Fábio Motta/Estadão
Fábio Motta/Estadão

Carro de deputada ex-chefe da polícia do Rio é alvo de tiros

Delegada Martha Rocha (PDT) não foi ferida; motorista foi atingido, mas foi atendido em um hospital e recebeu alta

Constança Rezende e Roberta Jansen, O Estado de S. Paulo

13 de janeiro de 2019 | 11h57
Atualizado 14 de janeiro de 2019 | 12h12

Ex-chefe da Polícia Civil do Rio, a deputada estadual Martha Rocha (PDT) teve o carro alvejado por tiros de fuzil na manhã deste domingo, 13, na Penha, zona norte do Rio. A deputada estava com a mãe e o motorista em um veículo blindado e não ficou ferida no ataque. No fim de 2018, Martha foi ameaçada de morte por milicianos. A polícia investiga a hipótese de atentado e não descarta a possibilidade de uma tentativa de assalto.

O motorista da parlamentar, o subtenente reformado da PM Geonísio Medeiros, ficou ferido por estilhaços de bala na perna. Ele foi atendido no Hospital Getúlio Vargas e liberado em seguida. A mãe da deputada, de 88 anos, se abaixou no carro durante o ataque e não foi atingida.

Segundo a assessoria da deputada, Martha estava indo buscar a mãe, que mora no bairro, para ir à igreja, no momento da ação. No caminho, um homem de capuz com um fuzil abordou o carro e atirou. Não se sabe se o crime trata-se de um assalto ou um atentado, segundo sua assessoria.“Segundo a vítima, o mesmo encontrava-se dirigindo para a Dr. Martha Rocha, quando foi abordado por elementos de fuzil que realizaram disparos contra o carro atingindo o mesmo”, diz o registro da polícia. 

Martha e o motorista haviam buscado a mãe da deputada, que mora na Penha, e seguiam para a assistir a uma missa na Tijuca. Ainda na Penha, segundo a deputada, Medeiros notou que um carro Celta de cor banca estava atrás. Dentro, ela contou ter visto um homem vestido de preto, com luvas e touca no rosto também pretas.

Segundo o relato da delegada, em determinado momento, o homem colocou a metade do corpo para fora, portando um fuzil. Pouco tempo depois, passou a disparar contra o veículo, atingindo duas rodas. O Celta perseguiu o carro da delegada até a altura da Avenida Brasil. O motorista conseguiu entrar em uma das ruas próximas e dirigir até o Olaria Atlético Clube, onde buscaram socorro. Os criminosos fugiram.

Em depoimento na Delegacia de Homicídios na Barra da Tijuca, na zona oeste, Martha relatou que recebeu ameaças de morte vinda de um grupo miliciano no início de novembro. Segundo a deputada, a ameaça chegou três vezes, via disque-denúncia, e foi comunicada às autoridades de segurança.

A mensagem, afirmou Martha, era de que o grupo pretendia atingir autoridades e seu nome vinha especificado entre os alvos “com letras garrafais”. “Na ocasião, falei pessoalmente com o Rivaldo Barbosa (então chefe da Polícia Civil) e com o Gilberto Ribeiro (subchefe operacional) e pedi uma análise de risco, para ver se a ameaça tinha fundamento ou não”, disse.

O presidente da Assembleia Legislativa do Rio (Alerj), André Ceciliano (PT), foi quem acompanhou a deputada na época. Segundo ele, o então interventor federal na Segurança Pública, general Braga Netto, e o então secretário de Segurança, general Richard Nunes, também foram informados. “Nós nos reunimos com eles e contamos o que aconteceu. Não podemos entrar em mais detalhes sobre a ameaça por questões de segurança. Mas posso dizer que teria partido de milicianos que estariam tramando a morte dela.”

Martha relatou que, depois das reuniões, Ribeiro lhe telefonou para oferecer escolta policial por um mês, mas ela recusou, afirmando que queria apenas a apuração da denúncia. “Não recebi resposta do resultado dessa investigação”, disse a deputada, que, na sequência, comprou o carro blindado que estava usando ontem. “Se houve ausência de cuidado, quem tem de explicar são eles, até porque não sei qual foi a motivação deste fato (o ataque de ontem).”

O deputada destacou que, quando era delegada titular, atuou na região de Campinho, dominada pela milícia, e trabalhou na investigação das organizações criminosas. Martha foi a primeira mulher a chefiar a Polícia Civil do Rio, em 2011. Em 2014, foi eleita pela primeira vez deputada estadual e logo assumiu a presidência da Comissão de Segurança Pública.

O deputado federal Marcelo Freixo (PSOL), que também recebeu ameaças de morte por parte da milícia em dezembro, quando cumpria mandado de deputado estadual no Rio, acusou o Estado de omissão e pediu respostas imediatas. Pelo menos outros três parlamentares também teriam recebido ameaças. Hoje completam dez meses do assassinato da vereadora Marielle Franco e de seu motorista, Anderson Gomes, provavelmente por milicianos (mais informações nesta pág.).

Em nota oficial, a Alerj considerou o ataque “extremamente grave” e pediu com urgência a prisão dos responsáveis”. Também em nota, o Ministério Público do Rio afirmou que a ação dos criminosos “configura-se um ato de extrema gravidade, sobretudo por tratar-se, mais uma vez, de uma parlamentar, o que representa uma tentativa de intimidação e ameaça ao estado democrático de direito”.

O governador Wilson Witzel (PSC) reafirmou a necessidade de que “bandidos sejam tratados como terroristas, porque atuam desta maneira”. “Não queremos leniência na investigação contra quem quer que seja no crime organizado. Quando eu digo crime organizado é dizer os participantes do narcoterrorismo e também os milicianos, que não deixam de ser outros também pertencentes a esse tipo de organização terrorista que vem atingindo nosso Estado.”

Witzel determinou escolta para a deputada. O governador e o secretário da Polícia Civil, Marcus Vinicius Braga, estiveram na Delegacia de Homicídio, responsável pelas investigações, para prestar solidariedade para a deputada. De acordo com o governador, a linha inicial de investigação aponta para tentativa de latrocínio, já que há outras ocorrências desse tipo no mesmo local.

"Não podemos deixar impunes quem quer que seja que atente contra o Estado Democrático de Direito. Pedi ao secretário que determine uma escolta imediata para a deputada, já que ainda não sabemos se é um atentado ou um latrocínio", disse Witzel. / COLABOROU RENATA BATISTA

 

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