Coppe/UFRJ/Divulgação
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‘Carvão melhora, mas não há desculpa para não tratar a água’

Companhia Estadual de Águas e Esgoto (Cedae) iniciou nesta quinta-feira, 23, uma etapa extra de filtragem a base de carvão ativado. Especialista da UFRJ afirma que tecnologia já é usada regularmente em outros Estados

Entrevista com

Márcia Dezotti

Roberta Jansen, O Estado de S.Paulo

23 de janeiro de 2020 | 21h02

RIO DE JANEIRO - Coordenadora do Laboratório de Controle de Poluição das Águas da Coppe/UFRJ, Márcia Dezotti diz que o problema da qualidade da água que chega às casas no Rio só será resolvido definitivamente quando houver tratamento do esgoto lançado nas águas dos afluentes do rio Guandu, que abastece o principal reservatório da capital. O governador Wilson Witzel (PSC) fez nesta quarta-feira, 22, uma visita técnica à estação e queixou-se de suposto alarmismo na atual crise.

Desde o início de janeiro, a população fluminense reclama que a água fornecida pela Companhia Estadual de Águas e Esgoto (Cedae), estatal que cuida do saneamento no Rio, está com gosto e cheiro de  terra. Em alguns bairros da capital e municípios da Baixada Fluminense, o produto sai turvo das torneiras. A empresa informou que as alterações são causadas pela presença de geosmina  -- um composto orgânico formado por algas.

Para resolver o problema, a companhia começou nesta quinta, 23, a usar uma etapa extra de filtragem da água, a base de carvão ativado. O carvão ativado já é usado regularmente em outros Estados, de forma permanente, como São Paulo, e, segundo Márcia Dezotti, já deveria ter sido adotado no Rio há mais tempo. “Não tem cabimento não ter o carvão ativado”, afirmou Dezotti. “Bem como outras medidas para proteger a estação, que está sem proteção nenhuma e recebendo esgoto ‘in natura’.”

Ainda segundo a especialista, o carvão “não vai fazer milagre”, mas, momentaneamente, deve melhorar a qualidade da água. A Cedae informou que investirá R$ 750 milhões até 2022 para a modernização da Estação de Tratamento de Guandu. A companhia lembrou também que a água que deixa o reservatório atende a todos os padrões de qualidade estipulados pelo Ministério da Saúde. Veja a entrevista. 

Como funciona o carvão ativado?

O carvão ativado em pó será jogado na água do reservatório e depois removido. Ele é poroso e age retendo a matéria orgânica dissolvida na água. Ele absorve a geosmina e outras substâncias orgânicas presentes. Ele não consegue reter todo o material orgânico, alguma coisa sempre passa, mas vai melhorar a qualidade da água. Também não resolve, por exemplo, vírus nem bactéria, a capacidade de absorção é pequena para isso.

A crise chamou atenção para o problema da qualidade da água. Qual o maior problema do Rio?

A Baixada não trata esgoto. Então, o esgoto é lançado diretamente nos afluentes do rio Guandu. Ou seja, a qualidade da água que chega na estação de tratamento é muito ruim. A estação está sobrecarregada. O processo mais maravilhoso do mundo não daria conta.

Mas há processos paliativos que poderiam melhorar a qualidade da água mesmo sem o tratamento do esgoto?

Sim, existem alternativas para reduzir o problema. Uma delas, por exemplo, é um tratamento com água oxigenada, que ajuda a oxidar matéria orgânica, além de lançar oxigênio na água. Outro método, usado no rio Tâmisa, é feito com balsas que injetam ar no leito do rio para oxigená-lo, o que também serve para dissolver matéria orgânica. No caso do carvão ativado, já tinha que ter, não tem cabimento não ter. A estação de tratamento abastece 9 milhões de pessoas. Nada pode dar errado. Temos que resguardá-la ao máximo, protege-la. Hoje, a estação está sem proteção nenhuma e recebendo esgoto ‘in natura’.

No caso da geosmina, a Cedae não deveria ter percebido o problema antes de a população começar a reclamar?

Sim, claro, deveria ter sido percebido imediatamente. A geosmina é um indicador de poluição. O que eles acharam? Que ninguém ia reclamar? Deveriam ter alertado os consumidores, demoraram muito para agir. E foi uma sorte que tenha sido a geosmina, que deixa cheiro e sabor forte e todo mundo reclamou. Porque a água poderia estar sem cheiro e sem gosto e contaminada.

O carvão ativado não vai resolver?

O carvão não vai fazer milagre, mas vai melhorar a qualidade da água. Momentaneamente vai resolver, mas vai acontecer de novo. É preciso adotar ações agora. São tecnologias já conhecidas, consolidadas, não tem que fazer pesquisa, nem pagar patente. Tratamento de água e esgoto é algo conhecido há muito tempo, não tem desculpa.

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